Ex-diretor do BC vê espaço para só mais um corte na taxa básica neste ano; economistas do UBS afirmam que impulsos fiscais recentes pressionam juros Painel mostra variação das cotações na B3 — Foto: Edilson Dantas/Infoglobo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 03/06/2026 - 15:07 Conflito EUA-Irã e economia brasileira impactam previsão da Selic O prolongamento do conflito EUA-Irã e dados da economia brasileira levaram instituições financeiras a reverem a estimativa da Taxa Selic. Ex-diretor do BC, Thiago Berriel, prevê apenas mais um corte neste ano, enquanto economistas do UBS destacam que estímulos fiscais pressionam os juros. A inflação e fatores como o choque de petróleo e El Niño são apontados como riscos. A XP revisou a Selic para 14%. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O prolongamento do conflito entre Estados Unidos e Irã — mais longo do que o esperado pelo mercado, que já dura pouco mais de três meses — e os dados recentes da economia brasileira, demonstrando resiliência apesar do nível restritivo, contribuíram para a revisão da estimativa do ciclo de cortes na Taxa Selic por diversas instituições financeiras. No mercado nesta quarta-feira, contratos de juros, que estimam as taxas e a inflação no futuro, demonstram divisão sobre os movimentos futuros, estimando que a taxa básica possa ser levemente reduzida, aos 14,25%, ou se manter em 14,5%. As taxas de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028 até janeiro de 2031 operam nas máximas de 2026. O ex-diretor do Banco Central Thiago Berriel afirmou, em relatório assinado com equipe de analistas do BTG Pactual, que “o cenário se deteriorou de forma relevante” desde a última reunião do Comitê de Política Econômica (Copom). Agora, o banco prevê apenas um corte até o fim do ano, a ocorrer na próxima reunião do comitê, em duas semanas. A Selic deve caminhar para 14,25% e ficar assim até o ano que vem. Para ele, três fatores passados contribuíram para a revisão da estimativa: os dados de inflação mais altos e com composição desfavorável, os “indicadores de atividade, mercado de trabalho e crédito” sem sinais de arrefecimento e as expectativas para o IPCA em 2028, que, na visão dos economistas, pioraram. Segundo o último Boletim Focus, a estimativa mediana do mercado financeiro é que o índice oficial da inflação alcance, em 2028, 3,66%, ante 3,5% antes da eclosão do conflito. Engrossando a lista da atividade econômica resiliente, a produção industrial do Brasil, divulgada hoje, mostrou crescimento de 0,7% em abril, acima das estimativas de mercado, de 0,5%. A avaliação de Berriel é semelhante a de Caio Megale, economista-chefe da XP. Em relatório, Caio afirma que a extensão do choque de petróleo também contribui com juros mais altos em todo o mundo, dificultando a condução dos juros pelos bancos centrais dos Estados Unidos — que deve, em sua visão, se manter estável pelos próximos trimestres — e até mesmo uma elevação, que deve acontecer no Banco Central Europeu e no Banco da Inglaterra. A XP revisou a estimativa para a Taxa Selic terminal do ano para 14%, ante 13,75%. Estímulos fiscais também pressionam Mas não só de pressões externas contribuem para a revisão da Taxa Selic pelas casas. Berriel e o time do BTG dizem ainda que o balanço de riscos para a inflação ainda está “mais assimétrico”, isto é, com possibilidade de ficar maior do que o previsto. Contribuem para essa leitura a persistência do choque de petróleo, a possibilidade de um El Niño mais forte e até mesmo o possível fim da escala 6x1. De acordo com os economistas, o choque climático tende a afetar alimentos e preços agrícolas, e o possível fim da escala 6x1 pode incidir sobre o “preço do trabalho”, diante de um aumento da demanda sobre a mão de obra. A condução dos gastos do governo também podem pressionar o índice de inflação no ano. A leitura é da equipe liderada pela economista Solange Srour, do UBS GWM. Eles veem que “a economia continua sendo beneficiada por um conjunto amplo de estímulos fiscais, creditícios e parafiscais que reduzem a potência da política monetária”. De acordo com a equipe de economistas da gestão de fortunas do banco suíço no Brasil, programas do governo devem injetar R$ 189 bilhões de reais na economia até o fim do ano, o que “amplia ainda mais o impulso” que já vem acontecendo há alguns anos, afirmam. “Quando diferentes instrumentos do setor público operam sistematicamente na direção oposta à da taxa de juros, o resultado é uma redução da sensibilidade da economia à Selic: a política monetária torna-se menos restritiva do que aparenta, exigindo juros mais elevados ou mantidos por mais tempo para produzir o mesmo efeito desinflacionário”, diz trecho do relatório.