Quando o Copom começou a cortar a taxa Selic em março, a guerra no Irã já havia causado um choque de oferta de petróleo, o que gerou desconfiança quanto à prudência de um ciclo de afrouxamento monetário nessa conjuntura. Mas o argumento de todo mundo, incluindo o Banco Central, era de que a pressão externa — com a alta nos preços de combustíveis e de matérias-primas — seria temporária; que o conflito no Oriente Médio iria acabar logo; e que o Brasil poderia seguir cortando os juros “livre, leve e solto”.O crescente otimismo com o fim da guerra no Irã, de fato, tirou da mesa a pressão externa, mas o que os analistas começaram a perceber — e quiçá, em alguma medida, até os próprios diretores do BC — é que o principal obstáculo ao ciclo de corte de juros não é o cenário externo: são os fatores domésticos. E muita gente vem fazendo, publicamente, a seguinte pergunta: por que mesmo o BC está cortando os juros?O espaço para corte do juro, pelo Banco Central, ficou exíguo Foto: Adobe StockPUBLICIDADEDesde a última reunião do Copom, em abril, os dados mostraram um mercado de trabalho ainda apertado, com a taxa de desemprego caindo para 5,8% e o rendimento médio habitual dos trabalhadores brasileiros crescendo 5,4% na taxa anual. Outros indicadores registraram uma aceleração da atividade econômica — e não um esfriamento, como o BC esperava. A inflação corrente vem surpreendendo para cima, com as principais métricas de preços subjacentes (que apontam para a dinâmica da inflação) rodando perto de 5%.Para agravar a situação, as expectativas de inflação deram um salto. A mediana das projeções para o IPCA, conforme a pesquisa Focus, subiu para 5,30% em 2026 e 4,10% em 2027. Estão cada vez mais distantes da meta de 3%. Aliás, o Copom prevê inflação de 3,5% no quarto trimestre de 2027. Essa estimativa ficou defasada.PublicidadeO pano de fundo para a piora no cenário doméstico é o estímulo fiscal — com medidas de crédito, de subsídios e de reforço de renda — adotado pelo governo Lula neste ano, de olho na eleição presidencial. Há quem calcule que essas medidas podem adicionar quase 1,5 ponto porcentual ao PIB de 2026. Para compensar, em parte, esse forte impulso fiscal, afetando a inflação e as expectativas inflacionárias, muitos analistas defendem uma política monetária mais dura do que se imaginava.Se, nesta quarta-feira, 17, o Copom decidir cortar a Selic de 14,50% para 14,25%, como ainda é a aposta da maioria dos analistas, em razão da sinalização dada na sua última reunião, há um risco real de descontrole das expectativas de inflação. O espaço para corte ficou exíguo. Resta saber se a ficha caiu para o BC.
Opinião | Caiu a ficha do Copom? Não é o cenário externo o principal obstáculo ao ciclo de corte de juros
Se decidir cortar a Selic para 14,25%, como é a aposta da maioria dos analistas em razão da sinalização dada na reunião anterior, há risco real de descontrole das expectativas de inflação













