Os juros futuros subiram até 0,2 ponto percentual (ou 20 pontos-base) nesta segunda-feira (1), em sessão marcada por uma reprecificação do risco global desencadeada por uma nova frustração dos investidores acerca das negociações entre Estados Unidos e Irã por um acordo de paz no Oriente Médio. Os preços do petróleo voltaram a escalar e outra onda de estresse foi vista na renda fixa doméstica, que já operava pressionada em um contexto de economia forte e piora do quadro de inflação que tem feito os agentes repensarem as suas expectativas para a taxa Selic. Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento de janeiro de 2027 subiu de 14,085%, do ajuste anterior, para 14,205%; a do DI de janeiro de 2028 foi de 13,89% a 14,10%; a do DI de janeiro de 2029 teve alta de 13,84% para 14,06% e a do DI de janeiro de 2031 avançou de 13,885% a 14,04%. Mais pressionadas no atual ambiente de aversão a risco somada à piora das expectativas de inflação, as taxas prefixadas de prazos curtos a intermediários — como as dos DIs de janeiro de 2028 e 2029 — encerraram o pregão nas máximas intradiárias e com seus maiores níveis de fechamento desde meados de maio. Após o mercado se animar com a possibilidade de que um acordo pudesse aliviar as tensões no Oriente Médio, o dia de hoje foi de correção após agência de notícias iraniana Tasnim afirmar que o país interrompeu as negociações por um acordo de paz com os EUA após ataques de Israel contra o Hezbollah, no Líbano. Durante a tarde, declarações do presidente americano, Donald Trump, apaziguaram as preocupações dos investidores e os juros futuros até se afastaram das máximas do dia. A melhora, contudo, não se sustentou e o desempenho da renda fixa doméstica voltou a piorar, sem um gatilho no quadro internacional que justificasse o movimento. “Na minha visão, a menos que algo realmente novo aconteça da noite para o dia, é difícil imaginar que os players globais se lancem ou acreditem em novos desenvolvimentos positivos de paz nos próximos dias. Apesar disso, prefiro me manter fora das posições tomadas [que apostam na alta dos juros]”, diz um gestor local sob condição de anonimato. Desde o começo da guerra no Oriente Médio, os juros futuros têm acompanhado em grande parte a evolução do preço do petróleo Brent, mas essa correlação se quebrou na semana passada em meio a dados que mostraram uma economia local forte e uma inflação elevada, mesmo considerando os impactos do conflito, conforme avalia Marcos Bredda De Marchi, economista-chefe da Oriz Partners. “É importante destacar como o BC vem tentando dar um peso maior à inflação esperada para 2028, que tende a deixar pra trás os impactos do conflito. Essa deterioração tende a ser, genuinamente, uma desancoragem das expectativas, colocando a credibilidade do BC em questionamento”, diz De Marchi no podcast semanal da gestora, ao comentar a deterioração adicional das projeções de IPCA no relatório Focus divulgado pela manhã. Em meio a esse quadro, os agentes já começam a consolidar na curva a termo um cenário em que a Selic permaneça na casa de 14% ou mais até o fim do ano, conforme mostrou o blog Intraday, do Valor, ao ouvir economistas que participaram das duas reuniões privadas com diretores do BC nesta segunda-feira. Houve quem apontasse no mercado que o teor mais “hawkish” dos encontros ajudou a pressionar adicionalmente as taxas no fim da sessão. Em entrevista ao Intraday, o gestor Bruno Serra Fernandes, da família de fundos Janeiro, da Itaú Asset Management, afirmou que o BC pode até pausar o ciclo de cortes da Selic já na decisão deste mês do Comitê de Política Monetária (Copom). Interlocutores do mercado afirmaram que as declarações de Serra, que já foi diretor do BC e era um dos gestores que mais apostavam em cortes da Selic no atual ciclo, chamou atenção e explica parte do movimento intenso na curva de juros na sessão. Esse impacto também foi visto no mercado de opções digitais de Copom: a precificação para que a Selic continue em 14,50% após a reunião deste mês do colegiado saltou de 17% para 29% de probabilidade, um aumento de mais de 70%. Já a chance de que a Selic seja novamente cortada em 0,25 ponto percentual se mantém como aposta majoritária, mas recuou de 80% para 70%. — Foto: Ali Rezaei/Unsplash