Galípolo e Powell sinalizam que alta de juros é ineficaz para combater choque do petróleoPresidente do BC aponta que a autoridade monetária é mais ‘transatlântico do que jet-ski’. Crédito: EstadãoGerando resumoO avanço dos preços do petróleo, impulsionado pela guerra no Oriente Médio, reacendeu temores de inflação persistente, desaceleração econômica e aumento do endividamento público ao redor do mundo. Com isso, investidores passaram a exigir retornos maiores para comprar títulos públicos de longo prazo, elevando os juros das dívidas soberanas em países como Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Japão e reduzindo as apostas em cortes de juros pelos principais bancos centrais. Somente nos Estados Unidos, o juro do T-bond de 30 anos bateu maior nível desde 2007 na semana passada. Segundo o chefe de Vendas de Taxas de Dinheiro Real do Goldman Sachs, Phillip Lee, as taxas de curto prazo, por outro lado, podem ser mais influenciadas pela política do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que Lee espera ser relativamente equilibrada entre aumentos e cortes de juros nos próximos anos.Leia tambémNovo presidente do Fed toma posse, e Trump pede que ele seja ‘totalmente independente’Inflação segue longe da meta, apesar do recuo mensal, e dificulta a jornada de queda nos jurosPUBLICIDADEAs taxas das T-notes de 10 anos e das T-bills de 3 meses estão atualmente cerca de 40 pontos-base acima das projeções do Escritório de Orçamento do Congresso dos EUA (CBO, em inglês). Se permanecerem assim nas projeções ao longo da próxima década, podem acrescentar US$ 1,5 trilhão à dívida americana, além de aumentar a dívida como porcentagem do Produto Interno Bruto (PIB) de 100% hoje para 124% no ano fiscal de 2036, em vez dos 120% projetados pelo CBO. “A dívida elevada pode exercer pressão adicional sobre as taxas de juros, potencialmente levando a uma espiral de dívida — ou até mesmo a uma crise fiscal”, alerta o escritório.O economista global da Jefferies, Mohit Kumar, diz estar cada vez mais preocupado com o risco de déficits maiores, caso governos adotem medidas fiscais para amortecer o impacto do petróleo caro. “Não é só a inflação; déficits mais altos também deveriam estar no radar”, afirmou. “É provável que vejamos, nos próximos meses, o anúncio de várias medidas de apoio, como subsídios ao combustível.”PublicidadeEstrategista de mercados globais do JPMorgan Asset Management, Marina Valentini avalia que a situação deve continuar gerando uma abertura da curva de rendimentos, o famoso “stepping in” da curva, em que os juros de longo prazo sobem mais que os de curto prazo.O mercado, porém, ainda acredita em “uma luz no fim do túnel”, prevendo que as negociações entre os EUA e o Irã vão resultar em um acordo para abrir e normalizar o Estreito de Ormuz em breve, acrescenta Valentini ao Estadão/Broadcast. No Reino Unido, os títulos soberanos, os chamados Gilts, também tocaram o maior nível em décadas, pressionados adicionalmente pela incerteza política e pela possibilidade de um desafio à liderança do primeiro-ministro Keir Starmer. Os rendimentos dos Gilts de 30 anos atingiram 5,787%, o nível mais alto desde 1998, no começo do mês, enquanto os juros dos títulos de 10 anos chegaram ao maior valor em 18 anos, a 5,154%. Aumento das taxas dos títulos americanos pode acrescentar US$ 1,5 trilhão à dívida dos EUA Foto: Adobe StockJá o rendimento do Bund alemão de 10 anos chegou a ser negociado a 3,133%, maior patamar desde 2011, e o rendimento do JGB de 10 anos subiu ao maior nível em 29 anos no Japão — com volatilidade em meio a intervenção cambial para controlar o valor do iene.PublicidadeNo Banco da Inglaterra (BoE, em inglês), especula-se um aumento de juros já a partir da próxima reunião, embora Valentini acredite que os dirigentes talvez queiram ser pacientes e entender o que acontece com o conflito no próximo mês. Para o Japão, o mercado ainda aposta nas altas de juros em junho e na continuidade do aperto em 2027. Dirigentes do Banco Central Europeu (BCE) têm demonstrado que a instituição pode elevar os juros na próxima reunião.A dívida global aumentou pelo quinto trimestre consecutivo, avançando em mais de US$ 4,4 trilhões durante o primeiro trimestre de 2026, para atingir um recorde de quase US$ 353 trilhões, alertou no começo de maio o Instituto de Finanças Internacionais (IIF, em inglês). As crescentes pressões inflacionárias — impulsionadas por preços mais altos de energia e alimentos — obrigarão muitos governos, particularmente importadores de energia, a mitigar o impacto econômico por meio de apoio fiscal, levando a déficits mais amplos, endividamento adicional e níveis de dívida mais altos, explicou o IIF.O diretor-geral e economista-chefe do CIBC, Avery Shenfeld, alerta que, mesmo que a guerra acabe amanhã, há outros fatores por trás do que pode ser um período duradouro com taxas longas altas. À medida que o fardo da dívida-PIB aumenta, há pelo menos algum risco de que governos pressionem seus banqueiros centrais a deixar a inflação correr mais alta e, assim, reduzir a dívida em termos reais. Nos EUA, em específico, o Tesouro está financiando grandes déficits mesmo quando a economia está em pleno emprego, sem um plano credível para reduzi-los diante de tendências demográficas desfavoráveis para os custos da seguridade social e do Medicare, acrescenta Shenfeld.Publicidade