Apesar de o Banco Central ter cortado ontem a taxa básica de juros, a Selic, em 0,25 pontos percentuais no Brasil, os países ao redor do mundo correm contra o tempo para fazer ajustes em suas políticas monetárias. O motivo da cautela — traduzida na manutenção de taxas altas de juros e até mesmo aumento delas — ainda tem raiz na disparada do petróleo provocada pela guerra no Oriente Médio, ainda que EUA e Irã se encaminhem para a assinatura de um acordo de paz. A extensão do conflito, que ultrapassou três meses, fez o preço do barril do petróleo se manter acima dos US$ 100 e se traduzir em aumento da inflação em diversas economias. Ontem, o barril do tipo Brent terminou o dia em torno de US$ 80. A guerra no Irã interrompeu parte do tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, rota estratégica para cerca de 20% do comércio marítimo global de petróleo e gás natural liquefeito (GNL), além de aproximadamente um terço dos embarques mundiais de fertilizantes. O choque na oferta de produtos essenciais elevou os preços dessas commodities e dos alimentos, tornando mais complexo o cenário inflacionário para os bancos centrais em todo o mundo. As autoridades monetárias, então, revisaram seus planos de afrouxamento monetário, e o governo de diversas economias impôs limites aos preços da energia e reduziu impostos sobre combustíveis. O fato de o BC brasileiro ter deixado em aberto os seus próximos passos é também um reflexo dessa preocupação diante de um cenário ainda incerto. EUA mantém juros altos mesmo sob pressão de Trump Nos EUA, que manteve os juros nesta quarta-feira pela quarta reunião seguida no atual patamar, entre 3,5% e 3,75%, a escalada da inflação preocupa. Metade do comitê de política monetária vê a possibilidade de uma alta nos juros por lá até o fim do ano diante da pressão nos preços. Antes do conflito, investidores estimavam até duas quedas no juro por lá. Kevin Warsh, à esquerda, e o presidente Donald Trump durante uma cerimônia de posse no Salão Leste (East Room) da Casa Branca, em 22 de maio — Foto: Al Drago/Bloomberg. A decisão frustrou quem pensou que o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, conseguiria logo mudar o rumo da instituição para a qual foi indicado pelo presidente Donald Trump, que pressiona por corte nos juros desde o início de seu segundo mandato. No Japão, nível mais alto em três décadas No Japão, situado no continente que mais sofreu com o choque de petróleo diante da interrupção do fluxo pelo Estreito de Ormuz pelo longo período, o Banco Central do Japão (BoJ) elevou a taxa para 1% nesta semana, o maior nível para o juro japonês desde 1995. O país ainda sinalizou que novas altas estão a caminho. O BOJ destacou que os elevados preços do petróleo vêm sendo rapidamente repassados nas transações entre empresas e podem se disseminar, provocando aumentos em uma ampla gama de preços ao consumidor, com "risco de que a inflação atinja um nível superior à meta de 2%". Banco Central do Japão — Foto: Shoko Takayasu / Bloomberg — O Banco do Japão parece estar preparando o terreno para um ritmo mais acelerado de altas de juros, em vez de agir apenas uma vez a cada seis meses — disse Nobuyasu Atago, economista-chefe do Instituto de Pesquisa Econômica da Rakuten Securities e ex-funcionário do banco central do país. Ele, que estimava o próximo aumento só em dezembro, passou a ver alta na taxa japonesa já em outubro. Europa foi primeira a subir Depois de quase três anos, o Banco Central Europeu (BCE) foi o primeiro dos grandes bancos centrais a elevar os juros, de 2% para 2,25%, por conta dos impactos da guerra. Por lá, inclusive, os economistas ainda estimam mais uma alta da mesma magnitude em setembro. — A guerra no Oriente Médio está pesando sobre a atividade econômica, e as pesquisas apontam para uma desaceleração, especialmente no setor de serviços. O aumento dos preços da energia elevará ainda mais a inflação durante o verão europeu e a manterá bem acima da meta até o primeiro semestre de 2027 — disse Christine Lagarde, chefe do BCE na semana passada. Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu — Foto: Liesa Johannssen/Bloomberg Por lá, o comitê ainda guarda lembranças de 2022, quando a invasão da Ucrânia pela Rússia desencadeou uma disparada histórica da inflação e o BCE foi acusado de reagir com lentidão. Naquele episódio, a taxa básica do bloco chegou a atingir 4% antes de iniciar um ciclo de cortes a partir de meados de 2024. Desta vez, os dirigentes monitoram com ainda mais atenção as expectativas de inflação, que aumentaram significativamente. Apesar do acordo para o fim do conflito estar próximo, alguns temem que a situação piore devido aos danos causados à infraestrutura energética do Golfo Pérsico e aos novos gargalos nas cadeias globais de suprimentos. Tendência se repete em economias em desenvolvimento A situação para tentar equilibrar os efeitos do conflito é semelhante em mercados emergentes. Desde o início dos combates, no fim de fevereiro, pelo menos dez bancos centrais de mercados emergentes e de fronteira elevaram suas taxas de juros. Indonésia, Ruanda, África do Sul e Sri Lanka aumentaram os juros nas últimas duas semanas. As altas refletem “o desejo dos formuladores de política monetária de preservar a credibilidade conquistada com muito esforço”, afirmou Lauren van Biljon, gestora sênior de portfólio da Allspring Global Investments. Visual de Jacarta, a capital da Indonésia — Foto: IqbalStock / Pixabay / Reprodução Segundo ela, os bancos centrais dos mercados emergentes estão aplicando as lições do último ciclo global de aperto monetário, quando muitos deles se anteciparam aos bancos centrais das economias desenvolvidas para combater o choque inflacionário pós-Covid e foram mais cautelosos na hora de cortar juros, à medida que as pressões sobre os preços diminuíam. Há duas semanas, o banco central da Indonésia promoveu uma alta de juros fora do calendário regular de reuniões, subindo a taxa local a 5,5%, para reverter uma liquidação nos mercados e dar suporte à moeda local. — A inflação exerce um impacto significativo sobre o crescimento econômico quando não é controlada, pois a atividade está fortemente ligada ao consumo das famílias — disse Gina Schoeman, economista para a África do Sul do Citi.