Gerando resumoJuros x Inflação: Entenda a relação entre eles Crédito: Larissa Burchard/Laís NagayamaA disparada do preço do petróleo pegou os bancos centrais no contrapé. Se, na virada do ano, o cenário era de uma inflação mais comportada para 2026 e, portanto, havia uma expectativa de queda das taxas de juros na maioria dos países, o conflito no Oriente Médio levou as principais autoridades monetárias a revisar o seu plano de voo.Nas últimas semanas, importantes bancos centrais passaram a adotar uma postura mais dura numa tentativa de domar a piora no cenário de inflação. Com a guerra, o barril de petróleo chegou a superar o nível de US$ 100, pressionando os preços dos combustíveis e dos fertilizantes. JapãoNa terça-feira, 16, o Banco do Japão subiu os juros para 1% - o nível mais alto em 31 anos. A autoridade japonesa citou os custos mais altos de energia. Zona do EuroNa semana passada, o Banco Central Europeu (BCE) subiu os juros em 0,25 ponto porcentual, para 2,25%. Foi a primeira alta desde 2023.Publicidade“O gatilho (para a alta de juros) foi a guerra. Mesmo quem não subiu, ficou mais hawkish (duro) por causa da piora do balanço de riscos inflacionário”, afirma Gabriel Leal de Barros, economista-chefe da ARX Investimentos.Estados UnidosNa quarta-feira, 17, o Federal Reserve (Fed, banco central norte-americano) manteve inalteradas as taxas de juros do país na faixa entre 3,50% e 3,75%, mas adotou um tom duro em seu comunicado, divulgado depois da decisão. A maioria dos dirigentes do BC dos EUA espera uma subida dos juros neste ano. Cinco projetam que as taxas vão subir para entre 4% e 4,25%, três enxergam uma faixa entre 3,75% e 4%, e um acredita que a taxa pode ir para a faixa entre 4,25% e 4,5%.“Quando se olha especialmente para o Fed, havia uma expectativa, antes da guerra, de dois cortes”, diz Arnaldo Lima, macroeconomista da Polo Capital. “O Banco Central Europeu foi mais forte ainda. Havia uma previsão de corte, mas o BCE já iniciou uma alta.” O cenário de juros mais altos nas principais economias tem reforçado uma preocupação dos investidores com o endividamento público ao redor do mundo. O conflito também deve desacelerar o crescimento econômico global em 2026.PublicidadeBanco Centra do Brasil voltou a reduzir juros, mas destacou cenário de incerteza Foto: Dida Sampaio/EstadãoBrasilNo Brasil, também na quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu, pela terceira vez seguida, a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual, para 14,25%, e destacou o cenário de incerteza.“O ambiente externo permanece incerto em função da indefinição sobre os termos do acordo para cessar os conflitos armados no Oriente Médio e as consequências dos efeitos já materializados desses conflitos até o momento, com reflexos nas condições financeiras globais”, destacou o Copom em seu comunicado.Na virada do ano, quando a taxa de juros estava em 15%, a expectativa era de uma redução bem mais agressiva dos juros. Com base no mais recente relatório Focus, divulgado pelo Banco Central, os analistas estimam que a Selic deve terminar este ano em 13,75% — no entanto, não há quem descarte os juros no nível de 14%. “Caso haja um arrefecimento das tensões geopolíticas e uma reversão dos choques de oferta recentes, abre-se espaço para uma reancoragem das expectativas de inflação, especialmente para 2027″, diz Lima. “Diante desse cenário, continuamos esperando mais dois cortes de 0,25 ponto porcentual nas próximas reuniões, com a taxa Selic encerrando 2026 em 13,75%.”PublicidadeNa virada do ano, a expectativa era de que o ciclo de corte levaria a Selic para 12,25%.Os últimos números divulgados mostraram que a vida do BC brasileiro ficou mais difícil ao longo deste ano. A inflação já está acima bem acima da meta de inflação (3%) e ultrapassou o teto da meta (4,5%). Nos 12 meses até maio, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 4,72%.As projeções para os próximos anos também estão piorando. Com base nas estimativas do Focus, as previsões dos analistas para o IPCA de 2027 são de 4,10% e, para 2028, de 3,68%.Reino UnidoNesta quinta-feira, 18, será a vez do Banco da Inglaterra (BoE) decidir o rumo da sua taxa de juros. A expectativa é de manutenção em 3,75%. PublicidadeQual é o peso do acordo EUA-Irã?Os próximos passos dos bancos centrais devem ficar mais claros a depender da qualidade do acordo entre Estados Unidos e Irã para o fim da guerra. Uma das principais dúvidas é sobre como será o funcionamento do Estreito de Ormuz, uma das rotas mais estratégicas do planeta e por onde passa aproximadamente um quinto de todo o petróleo consumido globalmente.“Precisamos entender o que vai estar nos detalhes”, diz Arnaldo. “Tem toda a questão relacionada à reconstrução e uma questão de quão rápida será a reabertura do Estreito de Ormuz e a sua normalização.”Leia tambémCopom reduz taxa de juros pela 3ª vez seguida; Selic cai 0,25 ponto e vai a 14,25% ao anoCelso Ming: Copom corta o juro, mas despejo de moeda na economia pelo governo federal trabalha contra o BCFed mantém juros entre 3,50% e 3,75% na 1ª decisão sob novo comando, com Kevin WarshEmbora um acordo bem-sucedido represente um alívio importante, os desafios de inflação permanecem. O mundo lida com a ameaça de um super El Niño, o que pode pressionar os preços dos alimentos, e, no caso do Brasil, há uma série de estímulos que mantêm a economia brasileira aquecida, dificultando a ação do BC brasileiro para levar a inflação à meta.Publicidade“Na minha opinião pessoal, o balanço de riscos por conta dos estímulos continua desfavorável para o BC. Eu acho que ele deveria manter uma postura dura”, avalia Barros.
Pressão dos juros: Instabilidade geopolítica leva bancos centrais mundo afora a adotar tom mais duro
Nas últimas semanas, importantes bancos centrais manifestaram uma postura mais rígida; acordo para terminar conflito no Oriente Médio pode ajudar a aliviar cenário













