Temperaturas altas ameaçam a saúde e o desempenho de atletas no Mundial que acontecerá no Canadá, nos Estados Unidos e no México; Fifa poderá adiar partidas se temperatura passar dos 32ºC Espectadores se abanam para se refrescar do calor do sol enquanto assistem ao jogo durante a partida de futebol da UEFA Women's Euro 2022, entre Áustria e Irlanda do Norte, no St Mary's Stadium, em Southampton, Sul da Inglaterra — Foto: JUSTIN TALLIS / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 31/05/2026 - 18:37 Calor extremo na Copa de 2026 desafia saúde e desempenho dos atletas A Copa do Mundo de 2026, a maior de todos os tempos, enfrenta desafios com o calor extremo nos EUA, Canadá e México. Temperaturas acima de 32ºC podem adiar jogos, mas mudar horários não basta. O calor afeta saúde e desempenho dos atletas, com riscos já vistos em 2025. Medidas mais rígidas são urgentes, mas a política da Fifa é limitada, só agindo em WBGT de 32ºC, acima do recomendado por especialistas. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A Copa do Mundo da Fifa de 2026 será a maior edição de todos os tempos do torneio esportivo mais assistido do mundo. As 48 seleções que disputarão a Copa no Canadá, nos Estados Unidos e no México podem descobrir que seu adversário mais difícil será o calor extremo. São esperadas temperaturas muito altas em muitos dos estados americanos onde os jogos da Copa do Mundo serão realizados neste verão no Hemisfério Norte, incluindo Texas, Califórnia e Flórida, com riscos de incêndios florestais destacados em alguns deles. O torneio começa em 11 de junho. Os problemas causados pelo calor durante as partidas ficaram evidentes ao logo da Copa do Mundo de Clubes da Fifa de 2025, disputada nos mesmos meses de verão e em muitos dos mesmos locais da América do Norte. Jogadores e treinadores falaram repetidamente das condições climáticas sufocantes. O técnico do Borussia Dortmund, Niko Kovač, disse após uma partida em Cincinnati que estava “suando como se tivesse acabado de sair de uma sauna”. O meio-campista do Chelsea Enzo Fernández descreveu as condições como “muito perigosas”, acrescentando que “tudo fica muito lento”. O técnico da Juventus, Igor Tudor, revelou que dez jogadores pediram para serem substituídos durante uma partida contra o Real Madrid em Miami, onde as temperaturas chegaram a 30ºC, com 70% de umidade. A última Copa do Mundo na América do Norte (EUA 1994) também produziu cenas memoráveis relacionadas ao calor. O atacante alemão Jürgen Klinsmann relembrou: “Joguei em Dallas a 49°C. Eu estava morrendo” em uma partida contra a Coreia do Sul. Enquanto isso, o técnico da República da Irlanda, Jack Charlton, foi repreendido por dirigentes da Fifa por jogar garrafas de água no campo para ajudar seus jogadores desidratados durante uma partida em Orlando. Rocinha entra no clima da Copa 1 de 8 Pintores e artistas da comunidade da Rocinha participaram da iniciativa — Foto: Márcia Foletto 2 de 8 Artista pinta a Via Ápia para a Copa do Mundo — Foto: Márcia Foletto X de 8 Publicidade 8 fotos 3 de 8 Chão da Via Ápia foi ilustrado com um jogador de futebol — Foto: Márcia Foletto 4 de 8 As pinturas na Via Ápia foram realizadas em 24 horas — Foto: Márcia Foletto X de 8 Publicidade 5 de 8 As cores da bandeira brasileira estampam as pinturas — Foto: Márcia Foletto 6 de 8 35 pintores e artistas participaram do mutirão na Via Ápia — Foto: Márcia Foletto X de 8 Publicidade 7 de 8 Via Ápia será ponto de encontro para torcedores durante a Copa do Mundo — Foto: Márcia Foletto 8 de 8 A decoração com bandeirinhas e pinturas já é considerada tradição e cria o clima festivo durante o torneio — Foto: Márcia Foletto X de 8 Publicidade 35 artistas participaram da pintura da rua O calor extremo não é apenas desconfortável — ele ameaça tanto a saúde quanto o desempenho. O futebol já tem casos documentados de fadiga, desmaios e hospitalizações relacionados ao calor, incluindo o desmaio do árbitro guatemalteco Humberto Panjoj durante uma partida da Copa América de 2024 em Kansas City. O calor também altera o próprio jogo. Estudos mostram que os jogadores percorrem distâncias menores, realizam menos sprints de alta intensidade e se cansam mais rapidamente em condições extremas. Jogadores cansados estão mais propensos a cometer erros e sofrer lesões, enquanto partidas disputadas em climas mais quentes têm sido associadas a mais disputas de pênaltis, já que times exaustos lutam para superar um ao outro na prorrogação. Os cientistas costumam usar a Temperatura Global de Bulbo Úmido (Wet Bulb Globe Temperature no original em inglês, ou WGBT) para avaliar o estresse térmico. Ao contrário da temperatura do ar isoladamente, a WBGT combina temperatura, umidade, radiação solar e vento, tornando-se um indicador melhor de quão perigosas as condições estão para o corpo humano. Várias entidades reguladoras do futebol — incluindo o sindicato mundial dos jogadores Fifpro — consideram uma WBGT acima de 28°C como um limite a partir do qual as partidas devem ser potencialmente adiadas ou canceladas. Soluções possíveis? Um estudo que conduzi em 2025 constatou que 14 das 16 futuras cidades-sede de jogos da Copa do Mundo provavelmente excederão o limite extremo de 28°C de WBGT se as condições neste verão forem típicas. O perigo é maior no meio da tarde, e a Fifa claramente tentou reduzir parte do risco por meio da programação. Em comparação com a Copa do Mundo de Clubes, as partidas nas cidades mais quentes e em estádios sem ar-condicionado foram, em grande parte, transferidas para fora das horas mais perigosas do dia. Isso ajudará – mas não eliminará o problema. Ainda restam alguns jogos de alto risco. Partidas no final da tarde (17h) e início da noite (18h) em Miami e Kansas City apresentam um risco superior a 30% de que a WBGT ultrapasse 28°C se as temperaturas de verão forem normais, subindo para mais de 50% se as condições forem mais quentes do que a média. A final no MetLife Stadium, em Nova Jersey, começa às 15h, quando a probabilidade de calor extremo é de cerca de 30% em um verão típico e de 55% em um verão quente. Essas estimativas podem até se revelar conservadoras. Ondas de calor estão se tornando mais frequentes e intensas globalmente. A onda de calor de 2021 no oeste da América do Norte quebrou recordes em mais de 4°C em alguns locais. Um evento extremo semelhante durante a Copa do Mundo poderia levar cidades de menor risco, como Seattle, Toronto e Vancouver, a uma situação perigosa, ao mesmo tempo em que prolongaria o calor extremo à noite em locais mais vulneráveis, como Miami, Kansas City e Filadélfia. E mesmo os estádios com ar-condicionado não eliminam o risco mais amplo à saúde pública. Nas cidades mais quentes, como Dallas e Houston, os estádios cobertos podem proteger jogadores e árbitros durante a partida em si. Mas dezenas de milhares de espectadores ainda passarão horas viajando, fazendo fila e comemorando sob um calor perigoso ao ar livre. Muitos torcedores são mais velhos, menos aptos fisicamente do que atletas de elite, desidratados pelo consumo de álcool ou vindos de climas mais frios, com pouca aclimatação. O risco, portanto, se estende muito além do campo. Mas a atual política da Fifa em relação ao calor continua limitada. Todas as partidas terão intervalos de hidratação de três minutos no meio de cada tempo, mas o limite para medidas mais rigorosas continua extremamente alto. As orientações atuais da Fifa só exigem precauções adicionais quando a WBGT atinge 32°C. Onda de calor atinge a Europa no início do verão 1 de 10 Pessoas se refrescam sob fontes de água na área de lazer Madri por conta da primeira onda de calor do verão. — Foto: Thomas Coex / AFP 2 de 10 Mulher usa um leque para se refrescar em parque de Madri durante a primeira onda de calor do verão — Foto: Thomas Coex/ AFP X de 10 Publicidade 10 fotos 3 de 10 Pessoas caminham pela rua enquanto um termômetro indica temperatura de 36ºC durante onda de calor no centro de Nantes, oeste da França — Foto: Loic Venance/AFP 4 de 10 Torcida se reúne sob forte calor para acompanhar torneio de Wimbledon — Foto: Henry Nicholls/AFP X de 10 Publicidade 5 de 10 Público e atletas enfrentam forte calor em Wimbledon; Aryna Sabalenka se refresca durante partida — Foto: Adrian Dennis/AFP 6 de 10 Uma mulher segura um guarda-chuva para se proteger do sol em um dia quente de verão, em Roma. — Foto: Tiziana Fabi / AFP X de 10 Publicidade 7 de 10 Termômetros a 44°C põem Europa em alerta para onda de calor recorde no continente — Foto: Thomas Coex/AFP 8 de 10 Termômetros a 44°C põem Europa em alerta para onda de calor recorde no continente — Foto: Thomas Coex/AFP X de 10 Publicidade 9 de 10 Público enfrenta calor para acompanhar partidas em Wimbledon — Foto: Henry Nicholls/AFP 10 de 10 Mulher abana casal durante partida em Wimbledon — Foto: Henry Nicholls/AFP X de 10 Publicidade Regiões da Itália proibiram trabalho ao ar livre nas horas mais quentes Esse número alarmou cientistas e especialistas médicos, que enviaram uma carta aberta instando a Fifa a reforçar suas medidas de proteção contra o calor antes do início do torneio. Suas recomendações incluem dobrar o tempo das pausas de resfriamento para seis minutos, reduzir o limite da WBGT para intervenção e introduzir regras mais claras para adiar ou postergar partidas em condições perigosas. É possível que as partidas sejam adiadas ou postergadas se a WBGT ultrapassar 32°C. Essa seria uma decisão da Fifa — e é algo que ela nunca fez antes. Vale a pena notar que o limite de 32°C também está consideravelmente acima dos níveis que muitos especialistas consideram perigosos. É provável que, no futuro, mais Copas do Mundo sejam disputadas fora dos meses tradicionais de verão. Esse foi o caso da Copa do Mundo do Catar em 2022, que passou de junho/julho para novembro/dezembro e é quase certo que será o caso do torneio de 2034 na Arábia Saudita. A Copa do Mundo de 2026 pode acabar se tornando um teste decisivo para ver como o esporte global se adapta a um mundo em aquecimento. Programar partidas fora dos horários mais quentes é um começo sensato. Mas, à medida que as temperaturas continuam a subir, o horário por si só pode não ser mais suficiente. *Donal Mullan é professor sênior de Geografia Física da Universidade Queen's de Belfast.*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
Copa do Mundo e clima: por que mudar os jogos para a noite não é suficiente para enfrentar o calor extremo
Temperaturas altas ameaçam a saúde e o desempenho de atletas no Mundial que acontecerá no Canadá, nos Estados Unidos e no México; Fifa poderá adiar partidas se temperatura passar dos 32ºC








