O Serviço Nacional de Meteorologia americano tem emitido uma série de alertas de calor extremo na costa leste do país para os próximos dias. Argentina x Cabo Verde, em Miami, Colômbia x Gana, em Kansas City, Paraguai x França, na Filadélfia, e Brasil x Noruega, em Nova Jersey, devem ocorrer sob índices de calor acima dos 40°C. Sendo o duelo na Filadélfia com as condições mais severas, com sensação térmica acima dos 42°C. O cenário preocupa médicos porque o futebol reúne diversos fatores que sobrecarregam o organismo humano: esforço intenso, atividade contínua, decisões rápidas e exposição direta ao calor. Em campo, o cérebro, o coração, os músculos e o sistema de controle da temperatura passam a trabalhar próximos do limite fisiológico. Especialistas ouvidos pelo GLOBO afirmam que atletas de alto rendimento suportam melhor essas condições do que outras pessoas, mas ressaltam que nem mesmo um organismo treinado escapa das consequências do calor extremo. Coração no limite Ex-presidente da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (Sobrac), o cardiologista arritmologista Alexsandro Fagundes explica que a principal missão do organismo durante o exercício é fornecer mais oxigênio e energia aos músculos. Para isso, o coração aumenta tanto o volume de sangue bombeado quanto a frequência dos batimentos. Em uma partida disputada sob calor intenso, o fluxo sanguíneo pode chegar a sete vezes mais do que em repouso. — O coração recebe mais sangue e precisa devolvê-lo ao organismo na mesma proporção. Quando adicionamos temperaturas muito elevadas, toda essa demanda aumenta ainda mais. Existe um momento em que essa capacidade chega ao limite, principalmente se não houver descanso, hidratação e resfriamento corporal — afirma. O cérebro reduz o ritmo Ao mesmo tempo, ocorre uma vasodilatação dos vasos da pele para facilitar a perda do calor. Esse mecanismo desvia parte do sangue para a periferia do corpo, reduzindo a irrigação de órgãos como os rins. — A periferia do corpo é a região mais próxima da pele e das extremidades, onde os vasos sanguíneos se dilatam para levar mais sangue à superfície e facilitar a disposição do calor — diz o médico cardiologista Marcelo Bergamo. O impacto também chega ao sistema nervoso central. Para o neurologista Renato Gama, professor de pós-graduação em Neurologia da Afya Educação Médica, o esforço físico aumenta simultaneamente a necessidade de oxigênio, energia e líquidos. — Os níveis de atenção ficam elevados, os desgastes cognitivo e emocional também aumentam. Em situações extremas, os mecanismos de regulação da temperatura podem se esgotar, levando desde redução da atenção e do desempenho motor até a perda da consciência — alerta. Esse processo, resume o nutrólogo e médico do esporte Eduardo Rauen, é conhecido como fadiga central. Segundo ele, quando a temperatura corporal ultrapassa os 38°C (e 40º de temperatura ambiente), decisões táticas, tempo de reação, velocidade de raciocínio e potência muscular começam a ser prejudicados: — O cérebro reduz deliberadamente o desempenho para proteger o organismo. Ele faz o atleta ficar mais lento, diminui a capacidade de tomada de decisão e reduz a intensidade do esforço para evitar um colapso por excesso de calor. Aceleração da fadiga Atacante Matheus Cunha se hidrata em partida contra o Haiti, pela segunda rodada da Copa do Mundo — Foto: Kevin C. Cox/Getty Images/AFP Durante uma partida, a musculatura multiplica o consumo energético e produz grande quantidade de calor. De acordo com Rauen, mesmo em condições normais, um jogador pode terminar o jogo com temperatura corporal próxima dos 39°C. Esse calor precisa ser dissipado por meio do aumento do fluxo sanguíneo na pele e da evaporação do suor. O problema é que, quando a temperatura ambiente supera a do próprio corpo, resta apenas a evaporação como mecanismo de resfriamento. Embora a temperatura receba grande atenção, ela não deve ser analisada de forma isolada. Ambientes muito úmidos dificultam a evaporação do suor, reduzindo justamente o principal mecanismo de resfriamento do organismo. — Se houver muita umidade e pouco vento, esse mecanismo também perde eficiência e o sistema de resfriamento pode entrar em colapso — completa o especialista. Risco de Colapso Segundo Rauen, o índice WBGT (Wet Bulb Globe Temperature), utilizado internacionalmente para medir o estresse térmico em atividades esportivas, considera temperatura, umidade, radiação solar e vento. Pelas recomendações do American College of Sports Medicine, valores acima de 28 já indicam situação crítica para as competições. Na tentativa de controlar a temperatura, o organismo perde grande volume de líquido. Um jogador pode eliminar cerca de dois litros de suor por hora, chegando até a quatro litros ao longo de uma partida. Mas não é apenas água que vai embora. O atleta perde também sódio, potássio, cloro e outros eletrólitos fundamentais para o funcionamento muscular e cardiovascular. Os especialistas também esclarecem que existe diferença entre fadiga esperada e os sinais de que o organismo está entrando em colapso. Segundo Renato Gama e Marcelo Bergamo, os primeiros sintomas costumam ser tontura, queda da atenção e redução da coordenação motora. Alexsandro Fagundes ainda alerta para falta de ar desproporcional, dores musculares intensas, visão embaçada e, em alguns casos, alterações do estado mental. Nas situações mais graves, podem ocorrer rabdomiólise (síndrome grave caracterizada pela rápida destruição das fibras musculares), insuficiência renal aguda, arritmias cardíacas e perda de consciência. Quem sofrerá mais com o calor extremo? Os confrontos decisivos da Copa do Mundo entre esta quinta-feira e domingo serão disputados sob a influência da onda da "heat dome", fenômeno que mantém uma massa de ar quente estacionada sobre o centro e o leste dos Estados Unidos e promete elevar a temperatura e sensação térmica para acima dos 40°C em diferentes sedes da competição. O cenário coloca em alerta principalmente as seleções que entrarão em campo durante a tarde, quando o calor chega ao seu pico. Kylian Mbappé é atingido por jato de água durante volta da pausa para hidratação em partida contra Suécia — Foto: Dan Mullan/Getty Images/AFP Argentina x Cabo Verde - Miami Uma das seleções que deve enfrentar as condições mais severas é a atual campeã mundial, a Argentina. A equipe encara Cabo Verde nesta quinta-feira, às 18h no horário de Miami. Embora o jogo comece no início da noite, a cidade segue sob influência da onda de calor, com temperaturas acima dos 36°C e sensação térmica que pode passar dos 40°C. Colômbia x Gana - Kansas Colômbia e Gana entram em campo na sexta-feira, às 20h30 (horário local), em Kansas City, escapando do pico do calor — previsto para o período da tarde. No entanto, o calor acumulado ao longo do dia deve manter os termômetros acima dos 33°C durante toda a partida. Paraguai x França - Filadélfia Já na Filadélfia, deve ocorrer o duelo com as seleções mais afetadas pelas condições extremas. Paraguai e França se enfrentam no sábado às 17h (horário local). A previsão indica temperaturas na casa dos 38°C, com sensação térmica podendo ultrapassar os 42ºC por causa da umidade. Brasil x Noruega - Nova Jersey tivaDe acordo com o Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos, a expectativa é que no domingo, Nova Jersey receba as temperaturas mais altas da última década. Assim, Brasil e Noruega, que se enfrentam às 16h (horário local), devem encarar temperaturas de aproximadamente 34°C e sensação térmica acima dos 38°C. Pausa para hidratação Seleção Brasileira durante pausa para hidratação em partida contra o Japão — Foto: Molly Darlington/Getty Images/AFP A onda de calor extremo é mais um ponto de alerta para os benefícios da polêmica pausa para hidratação. Instituida pela Fifa na atual edição da Copa do Mundo, ela é uma parada obrigatória de três minutos em cada tempo de partida. Nela, além de ouvir comissões técnicas, os jogadores ganham mais uma chance de repor líquidos e nutrientes necessários para o alto rendimento. A pausa para mitigar os efeitos do calor não é uma novidade em si. Desde 2010 o Campeonato Carioca tem esse tipo de respiro.