Para os torcedores que planejam acompanhar a Copa do Mundo de 2026 pessoalmente, o adversário mais imprevisível pode não estar em campo. O calor extremo, agravado pelas mudanças climáticas, representa risco real para quem vai encarar filas, zonas de torcida, transporte público e celebrações ao ar livre nas cidades-sede dos Estados Unidos, Canadá e México. O alerta é da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês), que divulgou nesta semana um pacote informativo destinado a emissoras, jornalistas e comentaristas para orientar a cobertura do torneio sob a perspectiva climática e aproveitou para fazer alertas também ao público que vai aos estádios ou assistirão aos jogos na rua. Ao contrário dos jogadores, que contam com equipes médicas, coletes de gelo, pausas para resfriamento e ambientes controlados, os torcedores fora dos estádios podem ficar expostos ao calor por períodos muito mais longos , sem qualquer suporte estruturado. E o problema não se resolve nem dentro dos estádios: apenas 3 dos 16 arenas-sede contam com sistema de ar-condicionado. O risco se estende inclusive às cidades consideradas mais frias do torneio. Em 2021, uma onda de calor no final de junho na Colúmbia Britânica, estado canadense cuja capital, Vancouver, é uma das sedes, atingiu 49,6°C e causou mais de 600 mortes. Segundo a ciência climática, aquele evento não teria sido possível sem as mudanças climáticas. No ano passado, Toronto, outra sede, registrou um de seus verões mais quentes, com seis ondas de calor com temperaturas acima de 36°C. Um quarto dos jogos em risco Segundo análise da World Weather Attribution (WWA), 26 das 104 partidas previstas — um em cada quatro jogos — devem ocorrer em condições que especialistas da FIFPRO, sindicato global dos jogadores profissionais, classificam como de risco real de estresse térmico. A métrica utilizada é a Temperatura de Globo Úmido (WBGT), que considera não apenas a temperatura do ar, mas também umidade, radiação solar e vento — fatores que, combinados, elevam significativamente o impacto do calor sobre o organismo. Entre as partidas com maior exposição estão a final, prevista para o MetLife Stadium, em Nova York/Nova Jersey, duas quartas de final e a disputa pelo terceiro lugar. Outros cinco jogos podem atingir o limiar a partir do qual especialistas recomendam o adiamento das partidas. Cidades no sul e interior dos EUA e no México concentram os maiores riscos, com estádios ao ar livre como os de Miami, Kansas City e Filadélfia entre os mais vulneráveis. Impacto em campo O calor não afeta apenas a saúde dos atletas, mas pode mudar o jogo. Pesquisa realizada durante a Copa do Mundo de Clubes de 2025, que analisou 57 partidas e mais de mil observações de jogadores, constatou que temperaturas elevadas estavam associadas a menor distância percorrida pelos atletas em diferentes velocidades de corrida. Quase metade das partidas daquele torneio registrou WBGT médio acima de 28°C, nível considerado de risco extremo à saúde. As consequências práticas já foram observadas: desmaios de jornalistas, torcedores e um árbitro assistente; reservas que permaneceram no vestiário durante os jogos; jogadores que pediram substituição or causa do calor; e adiamentos no início de partidas. Um levantamento mais amplo citado pela UNFCCC indica que 75% dos atletas de alto rendimento afirmam que o aquecimento global já afeta seu desempenho. Infraestrutura sob pressão Além do calor, 14 dos 16 estádios-sede já ultrapassam parâmetros considerados seguros para pelo menos três grandes riscos climáticos, incluindo calor extremo, chuvas intensas e enchentes. Projeções apontam que, até 2050, as condições em 11 desses estádios poderão se tornar "incompatíveis com a realização de jogos" sem grandes adaptações de infraestrutura. Cidades no sul e no interior dos Estados Unidos e no México concentram os maiores riscos. Estádios ao ar livre como os de Miami, Kansas City e Filadélfia foram destacados como especialmente vulneráveis. Contexto climático Para Simon Stiell, secretário-executivo da UNFCCC, o torneio é uma oportunidade de visibilidade para uma crise que vai além do esporte. "O aquecimento global afeta tudo, incluindo o futebol. Esse mesmo calor extremo que estamos vendo mudar o esporte também está ameaçando vidas, meios de subsistência, abastecimento alimentar e economias", disse em declaração divulgada pela organização. A UNFCCC ressalta que a adaptação ao calor — como pausas para resfriamento e protocolos de segurança — é necessária, mas insuficiente. A redução das emissões de gases de efeito estufa provenientes da queima de carvão, petróleo e gás é apontada como condição estrutural para proteger tanto o esporte quanto a população global. Pesquisa de opinião citada no documento indica amplo apoio dos torcedores à agenda climática: 96% dos mexicanos, 90% dos canadenses e 87% dos norte-americanos que acompanharão o torneio acreditam que a Copa do Mundo deve servir de exemplo global de sustentabilidade no esporte.
Copa do Mundo de 2026 terá calor extremo como adversário em campo, alerta ONU
Um quarto das 104 partidas do torneio deve ocorrer sob condições de estresse térmico perigoso; final em Nova York está entre os jogos mais expostos















