Na disputa pela liderança em inteligência artificial está mais que uma corrida tecnológica. É o confronto entre dois sistemas — e o que está em jogo é a futura arquitetura do poder global. O resumo é do norueguês Jon-Arild Johannessen, autor de um livro recém-lançado sobre essa rivalidade que tende a moldar a vida humana. Em “O campo de batalha da IA entre os EUA e a China”, Johannessen, professor de inovação do Kristiania University College, em Oslo, destrincha as estratégias que transformaram a China numa potência tecnológica e desconstrói as políticas de contenção dos EUA. Em entrevista ao GLOBO, ele aponta os riscos da crescente competição entre os dois países e as lições do modelo chinês. “A exportação de plataformas digitais nunca é politicamente neutra”. A ascensão da China não pode ser explicada só pela tecnologia. É resultado de uma conexão sistêmica entre três processos: o longo investimento em educação após a Revolução Cultural [1966-1976], o surgimento de uma grande classe média e a construção das Novas Rotas da Seda. Esses processos se reforçam mutuamente. Eles criam mercados, empregos, dados, infraestrutura, ambição política e capacidade tecnológica. A IA não é meramente um setor na China; é uma condensação estratégica de mudanças sociais e geoeconômicas mais amplas. Os EUA entenderam essa ligação. A estratégia americana de contenção tecnológica é uma resposta ao sistema por trás dela. É por isso que a IA virou campo de batalha. Não se trata apenas de quem tem o melhor algoritmo, mas de qual sociedade consegue gerenciar conhecimento, capital, infraestrutura e ambição política. Chinesa DeepSeek lança novo modelo de IA: 'Supera significativamente outros modelos' O sistema chinês pode ser reproduzido por países em desenvolvimento? O modelo chinês pode inspirar países do Sul Global, mas não pode ser copiado. Ele surgiu de condições históricas, institucionais e demográficas muito específicas: Estado forte, capacidade de planejamento, grande mercado interno, investimento em educação, acesso a capital e tecnologia estrangeiros e capacidade de mobilizar infraestrutura global. O elemento mais transferível é o investimento em capital humano. Outro é a infraestrutura. Aqui, a China pode desempenhar um papel importante. Rodovias, portos, ferrovias, redes de banda larga, centros de dados e plataformas de pagamento digital podem reduzir os custos de transação e permitir que empresas locais participem de cadeias de valor regionais e globais. Mas também há riscos. A transferência de tecnologia pode estar incorporada em padrões chineses e criar dependência. E há a questão política. O modelo chinês se baseia num Estado forte, capaz de coordenar indústria, educação, finanças, infraestrutura e tecnologia. Alguns países podem tentar imitar os instrumentos visíveis — política industrial, plataformas digitais, capacidade de vigilância, infraestrutura liderada pelo Estado — sem a disciplina institucional que os tornou eficazes na China. Nesses casos, o modelo pode produzir corrupção, dívida, autoritarismo digital ou projetos de prestígio ineficientes em vez de desenvolvimento. O que está na essência da competição estratégica China-EUA em IA? A rivalidade é sistêmica. A IA é o campo de batalha visível, mas por trás dela reside uma luta por políticas industriais, poderio militar, padrões, plataformas, cadeias de valor globais, dados, talentos, financiamento, alianças e legitimidade política. É por isso que a competição corre o risco de se tornar um jogo de soma zero. A guerra dos chips é central, porque a IA avançada requer semicondutores avançados. Restrições às exportações de chips avançados e equipamentos para fabricação de chips não são medidas comerciais comuns. São instrumentos de contenção estratégica. O país que liderar em IA moldará a produtividade, os padrões e os mercados em toda a economia da inovação. EUA e China representam maneiras diferentes de organizar a inovação. O modelo americano se baseia em empresas privadas, capital de risco, universidades, redes científicas abertas e alianças globais. O chinês combina estratégia estatal, grandes plataformas domésticas, política industrial, infraestrutura, educação e mobilização de mercados domésticos e internacionais por meio das Novas Rotas da Seda. A competição é, portanto, também uma competição entre sistemas. Minha definição da essência da rivalidade seria a seguinte: é uma luta sistêmica sobre quem organizará os fundamentos tecnológicos da Quarta Revolução Industrial. A IA é a tecnologia central. Mas o conflito é em torno da arquitetura do poder global. Em meio a tamanha rivalidade, há possibilidade de cooperação? Eu distinguiria três níveis de cooperação: declarações simbólicas são prováveis; a gestão prática de riscos é possível; mas a cooperação regulatória profunda é improvável num futuro próximo. A razão é que ambos os países reconhecem os perigos do avanço descontrolado da IA, mas também a veem como uma fonte central de poder nacional. Isso cria um paradoxo: a necessidade de cooperação aumenta ao mesmo tempo que a confiança política diminui. A IA agora é central demais para o planejamento militar, a segurança cibernética, as finanças, a política industrial e a competição estratégica para ser ignorada. A questão mais importante é que tipo de cooperação é politicamente possível. Prevejo um padrão de coexistência competitiva: contenção tecnológica contínua, competição industrial e formação de alianças, combinadas com diálogo seletivo sobre os riscos mais perigosos. Quais os riscos e oportunidades para o resto do mundo dessa corrida tecnológica entre EUA e China? O maior perigo é a fragmentação. Se EUA e China construírem ecossistemas de IA separados, o mundo poderá ser dividido em padrões, plataformas, infraestruturas, cadeias de suprimentos de semicondutores e modelos de governança concorrentes. Isso seria muito custoso para países e empresas menores. Outro risco é a dependência. Muitos países do Sul Global precisam de infraestrutura digital, mas não têm o capital e a expertise para construí-las de forma independente. Há também riscos à democracia. Os sistemas de IA podem melhorar os serviços públicos, mas também fortalecer a vigilância e o controle autoritário. A exportação de plataformas digitais nunca é politicamente neutra. As tecnologias carregam pressupostos sobre governança de dados, privacidade, transparência e poder estatal. Países que importam sistemas de IA sem instituições fortes podem descobrir que a eficiência vem à custa de liberdades civis. Mas também há grandes oportunidades. A concorrência pode reduzir preços, acelerar a inovação e expandir o acesso. Países que antes não tinham infraestrutura avançada podem ganhar estradas, portos, redes de fibra óptica, centros de dados, sistemas de comércio eletrônico, telemedicina e agricultura apoiada por IA. Uma segunda oportunidade é a diversificação estratégica. Os países não precisam aceitar uma escolha binária entre Washington e Pequim. Podem buscar um alinhamento múltiplo: cooperar com a China em infraestrutura, com EUA e Europa em pesquisa e regulamentação, com parceiros regionais em governança de dados e com empresas nacionais em aplicações locais. Os países que se beneficiarão serão os que tratarem a IA não só como tecnologia importada, mas como parte do desenvolvimento nacional. A lição da China é precisamente sistêmica: a tecnologia deve estar conectada à educação, infraestrutura, mercados e mobilidade social. Essa lição é relevante muito além da China.
'Competição entre EUA e China em IA definirá arquitetura do poder global', diz autor de livro sobre a rivalidade entre os países
Autor de 'O campo de batalha da IA entre os EUA e a China’' diz que disputa pela liderança é rivalidade entre modelos de poder, com impacto na economia, na democracia e na ordem mundial
Johannessen (Kristiania University College) define a rivalidade EUA-China em IA como disputa sistêmica — chips, padrões, plataformas — pela arquitetura do poder global. Risco: fragmentação em ecossistemas incompatíveis forçará escolhas de stack com implicações geopolíticas.














