O que o CEO do Google diz sobre o futuro da IASundar Pichai vê integração mais profunda do smartphone com a tecnologia generativa. Crédito: Lucas AgrelaA inteligência artificial avança de forma impressionante nos Estados Unidos, talvez mais que em qualquer outra parte do planeta, mas não seria um exagero dizer que a desconfiança em relação à tecnologia cresce ainda mais rapidamente. PUBLICIDADEUma pesquisa recente do instituto Gallup ilustra bem a extensão desse fenômeno. O temor de perda de empregos em massa é majoritário na população do país. A rejeição a data centers de IA supera até a resistência histórica às usinas nucleares — sete em cada dez se opõem à sua construção nas proximidades de onde vivem. A maioria desconfia da tecnologia não apenas pelo impacto no mercado de trabalho, mas também por possíveis vieses ideológicas dos sistemas, a disseminação de informações falsas e o potencial de interferência nos processos eleitorais. O avanço da IA, nesse sentido, é visto mais como transformação imposta e menos como oportunidade.Consumidora usa app de IA em mercado Foto: Pavel/Adobe StockEssa hostilidade se manifesta de formas cada vez mais visíveis. No início deste mês, o ex-CEO do Google, Eric Schmidt, foi recebido com vaias ao mencionar a IA em um discurso de formatura na Universidade do Arizona. Outro executivo passou pela mesma situação na Universidade da Flórida Central. A geração que está ingressando no mercado de trabalho em 2026 não compartilha o otimismo do Vale do Silício. A inquietação, porém, não se limita aos jovens recém-formados: o papa Leão XIV dedicou sua primeira encíclica à defesa da dignidade humana diante do avanço da inteligência artificial. Não se trata de uma preocupação irracional. Só no mês passado, Meta e Microsoft anunciaram mais de 20 mil demissões — ao mesmo tempo em que investem centenas de bilhões de dólares em infraestrutura de IA. No total, quase 900 mil trabalhadores da área de tecnologia perderam o emprego desde 2020. E o fenômeno está se espalhando para além do setor: Nike, Salesforce e Amazon figuram entre as empresas que, nos últimos meses, cortaram milhares de postos enquanto expandiam seus investimentos em IA.PublicidadeUm aspecto especialmente revelador dessa situação é o caráter cada vez mais bipartidário da preocupação com a IA. Para os representantes do Partido Democrata, as gigantes de tecnologia concentram poder excessivo e ameaçam os trabalhadores. Quanto ao Partido Republicano, apesar de a Casa Branca, sob o comando de Donald Trump, ainda apostar em desregulamentação e aceleração tecnológica, uma parte crescente da coalizão MAGA – incluindo Josh Hawley, senador republicano pelo Missouri e um dos nomes cotados para concorrer à presidência em 2028 – começa a questionar se essa aposta não vai custar caro nas urnas. Hawley alerta que a influência das big techs em Washington está silenciando vozes dentro do próprio partido: grupos de interesse ligados à IA já mobilizaram mais de 300 milhões de dólares para as eleições de meio de mandato, financiando candidatos contrários à regulamentação do setor. A indústria tecnológica está perdendo uma vantagem política que durante décadas considerou garantida.Leia tambémConselho de Segurança da ONU convoca reunião de emergência sobre conflito no LíbanoTrump envia condições mais duras ao Irã para acordo de paz, dizem autoridadesExplosão em prédio em Mianmar matou mais de 45 pessoas, dizem equipes de resgateNo entanto, nem todos enxergam a presença cada vez mais difundida da IA no cotidiano como algo necessariamente negativo. Para o colunista John Burn-Murdoch, do Financial Times, a IA pode produzir um efeito oposto ao das redes sociais: enquanto estas premiam o sensacionalismo e empurram seus usuários para extremos, os modelos de linguagem tenderiam a fazer o movimento inverso, aproximando as pessoas de posições mais moderadas e alinhadas ao consenso dos especialistas.Não por acaso, as próprias empresas de tecnologia apostam nessa face benevolente para reconquistar a opinião pública. Sob rótulos como “IA para o bem”, a Meta e outras empresas reúnem ferramentas voltadas à conservação ambiental, ao mapeamento de desastres e a projetos humanitários -- medidas destinadas a suavizar a imagem da IA diante de um público cada vez mais arredio.Há, porém, motivos para duvidar de que esse esforço baste para virar o jogo. O receio dominante continua sendo o do desemprego — a perspectiva de que a automação elimine postos de trabalho em larga escala.PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADEO problema é que o otimismo de analistas como Burn-Murdoch repousa sobre a suposição frágil de que a IA adota uma posição neutra, equilibrada e universal. A repórter Lingling Wei, do Wall Street Journal, argumenta justamente o contrário: aquilo que um sistema de IA responde é moldado tanto pelo material que absorveu durante o treinamento quanto pelas instruções que recebeu depois sobre o que pode ou não dizer. O caso do DeepSeek é eloquente: acessado dentro da China, o modelo chinês redige um manifesto nacionalista; consultado do exterior, o mesmo sistema desmonta esse texto ponto a ponto, denunciando dados escolhidos a dedo e falácias. Em outras palavras, a resposta muda conforme o lugar de onde se pergunta.Aí está o limite da aposta otimista. Um árbitro cujo veredicto se altera segundo a jurisdição dificilmente servirá de terreno comum. Ele corre o risco de apenas reproduzir, com verniz tecnológico, as relações de poder já existentes. Os ganhos da IA para a ciência e a produtividade podem ser imensos, e ainda estamos nos primeiros capítulos dessa história. Mas o clima político já se desenha — e não sopra a favor da indústria. Ao menos por enquanto.