Disputa entre Iván Cepeda e Abelardo de la Espriella opõe continuidade da política de ‘paz total’ de Gustavo Petro a propostas de linha-dura; atentado que matou Miguel Uribe elevou tensão da campanha Iván Cepeda, do governista Pacto Histórico, faz campanha em Barranquilla, na Colômbia: primeiro nas pesquisas — Foto: Vanessa ROMERO/AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 29/05/2026 - 14:59 Eleições na Colômbia: Violência e Polarização Marcam 1º Turno O primeiro turno das eleições colombianas é marcado por violência e polarização, com a morte do senador Miguel Uribe intensificando a tensão. A disputa centraliza-se entre Iván Cepeda, defensor da "paz total" de Gustavo Petro, e Abelardo de la Espriella, de linha-dura. Cepeda lidera nas pesquisas, mas enfrenta desafios para conquistar eleitores de centro e indecisos, enquanto a direita precisa unificar a oposição. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A morte do senador e então pré-candidato presidencial colombiano Miguel Uribe Turbay, em agosto de 2025, após sofrer um atentado a tiros, marcou a campanha eleitoral colombiana, cujo primeiro turno acontece neste domingo. Em meio à pior onda de violência da última década, a questão sobre como enfrentar os grupos armados divide o país entre duas visões irreconciliáveis. De um lado, a continuação da política de “paz total”, iniciada por Gustavo Petro, o primeiro presidente de esquerda da História da Colômbia; do outro, a adoção de uma postura linha-dura contra guerrilhas, dissidências e organizações criminosas para reduzir a violência no país. Segundo as pesquisas, a maioria da população colombiana parece estar, pelo menos no primeiro turno, ao lado da primeira opção. Iván Cepeda, candidato de esquerda apoiado pelo partido governista, está confortavelmente em primeiro lugar nas sondagens, um apoio que permanece estável desde o início da campanha, demonstrando um eleitorado leal e consolidado — e que reforça a popularidade de Petro. Em segundo, aparece Abelardo de la Espriella, candidato da extrema direita que vem ganhando terreno. Em terceiro, e com proposta similar à de Espriella para o combate à criminalidade, está Paloma Valencia, candidata da direita tradicional, próxima ao ex-presidente Álvaro Uribe, que estagnou nas últimas pesquisas. Conhecido como “El Tigre”, Espriella prometeu o endurecimento do combate ao crime e aos grupos armados, com expansão da presença militar e construção de megaprisões, ao estilo de Nayib Bukele, presidente de El Salvador. A campanha do outsider, que critica a classe política e rejeita alianças com partidos tradicionais, tem sido tensa e culminou no assassinato a tiros de dois membros de sua equipe, o que forçou o candidato a usar colete à prova de balas e discursar atrás de vidros blindados em seus comícios. Abelardo de la Espriella, o ‘El Tigre’, protegido por um vidro blindado durante comício em Bogotá, na Colômbia — Foto: Raul ARBOLEDA/AFP Para Katherin Galindo Ortiz, cientista política colombiana e membro da rede de especialistas em segurança Amassuru, o assassinato de Miguel Uribe “despertou uma memória histórica de campanhas passadas, especialmente durante o auge do conflito armado” — quando era comum que candidatos, especialmente da esquerda, fossem mortos. — Para os políticos locais e regionais, exercer a política jamais deixou de ser violento. Muitos dos prefeitos eleitos precisam exercer seus mandatos fora de seus territórios, por exemplo. Mas há mais de 30 anos não acontecia algo em escala nacional como foi o assassinato de um candidato presidencial — afirma ao GLOBO. Desinformação em alta Em meio ao aumento da violência durante a campanha, a desinformação relacionada a grupos armados tem encontrado terreno fértil. Conteúdos falsos que associam Cepeda a narcotraficantes e guerrilheiros viralizaram nas redes sociais nas últimas semanas. Ao mesmo tempo, Espriella vem crescendo nas pesquisas, conquistando parte dos votos conservadores tradicionais, que parecem migrar para o candidato com maior probabilidade de derrotar Cepeda. E, embora a popularidade de Petro continue alta o suficiente para sustentar uma candidatura governista, ela não é majoritária: o instituto Invamer registrou recentemente 45,8% de aprovação contra 50,4% de desaprovação. — Isso mostra duas coisas ao mesmo tempo: Petro não chega destruído ao fim do mandato, mas também não tem uma maioria nacional clara. Dessa forma, embora sua aprovação funcione como base eleitoral para Cepeda, não garante sua vitória no primeiro turno — explica Jenny Paola Lis-Gutiérrez, economista, pesquisadora e professora universitária colombiana. Cepeda, porém, tem outros trunfos a seu favor, explicam especialistas. Ele não é apenas “o candidato de Petro”. Defensor dos direitos humanos, foi deputado e senador e ficou conhecido nacionalmente pelo embate político e judicial com Álvaro Uribe, ao investigar supostos vínculos de aliados do ex-presidente com grupos paramilitares envolvidos no conflito armado colombiano. Em 2020, a Suprema Corte colombiana concluiu que havia indícios de que Uribe teria tentado influenciar testemunhas no caso, e ele chegou a ficar em prisão domiciliar. Jovens eleitores Além disso, o candidato herda uma organização política mais consolidada do que a que Petro tinha em 2022. Seu partido, Pacto Histórico, já não orbita mais em torno de uma figura: tem bancadas, redes territoriais, respaldo no Congresso e uma estrutura de mobilização mais clara. — Isso lhe permite manter o eleitor petrista sem depender completamente do estilo pessoal do presidente. Mas também traz um problema: para muitos eleitores de centro e de direita, ele representa a continuidade mais dura do governo, incluindo a “paz total” e sua agenda de reformas. Essa é a barreira que aparece no segundo turno — afirma Lis-Gutiérrez. — A chave será o voto que hoje não está nem com Cepeda nem com Espriella, ou seja, o centro, os indecisos e os eleitores de Valencia. A direita, por outro lado, terá que lidar com a fragmentação do voto, dividido entre dois candidatos, aponta Maria Alejandra Santos, politóloga da Universidade de Rosario. — Enquanto Cepeda precisará convencer os eleitores de centro e indecisos, seu adversário terá o desafio de unificar a oposição — afirma. Lis-Gutiérrez pondera ainda que uma parte importante do eleitorado ainda não definiu seu voto, o que pode afetar o resultado em relação ao que foi apontado pelas sondagens. — Há fenômenos não medidos pelas pesquisas, entre eles, a mobilização atípica de eleitores na periferia do país. Podemos citar ainda a incapacidade das pesquisas de captar a intenção de voto dos eleitores de primeira viagem, ou seja, jovens entre 18 e 21 anos.