Gerando resumoQuando saírem os resultados do primeiro turno das eleições na Colômbia neste domingo, 31, duas perguntas serão respondidas. A mais óbvia será com os nomes dos dois candidatos que avançarão para o segundo turno em 21 de junho. A segunda, mais sutil, será sobre o futuro da direita tradicional no cenário político colombiano.PUBLICIDADEO senador de esquerda Iván Cepeda, do partido Pacto Histórico, já é um nome certo para a segunda rodada de votação, de acordo com as pesquisas de intenção de votos. Conhecido por ser o arquiteto do ambicioso plano de Paz Total de Gustavo Petro, ele é o candidato da situação e parece surfar no repique de popularidade do presidente.A segunda vaga, no entanto, é disputada por dois candidatos da direita. Pelo espectro mais moderado está Paloma Valencia, do partido Centro Democrático, que busca reviver o uribismo, um movimento conservador liderado pelo ex-presidente Álvaro Uribe. Já pelo lado da direita radical está Abelardo de la Espriella que se propõe a ser o “Bukele colombiano”.Uma faixa com a imagem do candidato presidencial colombiano Abelardo de la Espriella em um comício em Medellín Foto: JAIME SALDARRIAGA/AFPA Colômbia está repetindo um cenário eleitoral que ocorreu em várias das últimas eleições na América Latina. A esquerda consegue se articular em torno de uma única candidatura, o que a torna mais competitiva no primeiro turno, enquanto a direita vê seus votos pulverizados entre vários candidatos. Foi assim no Chile, no Uruguai e na própria Colômbia em 2022.PublicidadeSobrevida ao uribismoEnquanto Petro já havia apontado no começo do ano que Cepeda seria o seu candidato a sucessor, a direita batalhava entre uma dezena de nomes para indicar. Os partidos, então, decidiram dar esta escolha à população, que votou em uma espécie de “primárias” chamadas de Gran Consulta por Colombia, realizadas junto com as eleições legislativas em 8 de março.Paloma Valencia saiu vitoriosa entre nove competidores e foi apontada oficialmente como candidata. Só então seu nome começou a subir nas pesquisas e se aproximou do candidato De la Espriella, que montou uma candidatura independente. Neste momento, Cepeda já estava disparado na frente com quase 40% dos votos.Valencia é a principal opositora do governo Petro no Senado. Sua família tem uma longa trajetória na política. É neta por parte de pai do ex-presidente Guillermo León Valencia e por parte de mãe do ex-embaixador Mario Laserna, que fundou a Universidad de los Andes. Sua tia, Josefina Valencia, foi a primeira mulher a se tornar ministra no país. Seu pai é o ex-congressista Ignacio Valencia.Embora ela seja a candidata, quem tem se destacado na campanha é o ex-presidente Álvaro Uribe, seu padrinho político. Uribe foi o único presidente na história recente da Colômbia a ganhar em primeiro turno nas eleições que concorreu. Depois do fenômeno Uribe, a reeleição foi proibida no país.PublicidadeO ex-presidente tenta colar sua popularidade em Paloma Valencia. O uribismo ficou de fora do segundo turno nas eleições de 2022 pela primeira vez desde que surgiu, em 2002. Ele busca agora evitar que o cenário se repita.A candidata a presidente Paloma Valencia e seu vice Daniel Oviedo em Bogotá Foto: RAUL ARBOLEDA/AFP“Essa é a decisão em jogo no próximo domingo”, afirma Patricia Muñoz Yi, cientista política pela Pontifícia Universidade Javeriana, de Bogotá. “Se o Centro Democrático, com suas estruturas políticas, a presença do ex-presidente Álvaro Uribe, que está apostando tudo nesta campanha, e o apoio dos outros candidatos das primárias serão suficientes para avançar para o segundo turno.”Para se diferenciar de De la Espriella, Valencia busca se apresentar como centro-direita em vez de apelar mais fortemente ao conservadorismo. A expressão disso foi a escolha de seu vice, Daniel Oviedo, visto como de centro e com quem disputou nas primárias. “Com Oviedo, ela busca eleitores mais independentes, especialmente da capital, Bogotá, que possui um significativo potencial eleitoral”, completa a cientista política.“Essa coalizão está ganhando força e está buscando mais aliados. Tem alguns representantes que são do centro, como do Partido Verde, que estão se somando à campanha de Paloma Valencia e Daniel Oviedo”, aponta Andrés Londoño, doutor em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.PublicidadeA candidata confia que pode ser salva por uma sobrevida que o uribismo teve este ano. Nas eleições legislativas de 8 de março, o movimento conseguiu recuperar assentos em ambas as Casas e hoje é a maior força da Câmara. No Senado, o governo tem o maior número de assentos. Ninguém tem a maioria, mas foi uma boa notícia para o Centro Democrático voltar a ser a maior oposição depois de ver os independentes dominarem.O Bukele colombianoA má notícia para Paloma Valencia é que Abelardo de la Espriella disputa os mesmos votos que ela. Ele até mesmo elogia Álvaro Uribe, dizendo que é um admirador do ex-presidente, mas sem ser vítima da rejeição que o uribismo vem sofrendo.“Apesar de ser de direita, De la Espriella não segue diretamente ao Uribe”, aponta Andrés Londoño. “Isso faz com que seja um candidato que vai contra algumas instituições internacionais como a ONU, em linha essa onda de direita mais radical que está no mundo. Ele se assemelha mais a Donald Trump, Jair Bolsonaro e Javier Milei”.PublicidadeO inspirador de De la Espriella é, na verdade, Nayib Bukele, o presidente de El Salvador que se tornou popular na direita radical por ser o representante da segurança linha-dura. Há quem aponte semelhanças físicas entre o colombiano e o salvadorenho, com os cabelos penteados em gel para trás e uma barba perfeitamente desenhada, além do uso frequente de bonés.“Muitos o consideram fisicamente semelhante a Bukele e seu governo. Sua linguagem é tão disruptiva e confrontadora quanto a de Bukele em El Salvador, com todo o simbolismo em torno da ‘firmeza na pátria’”, aponta Patricia Muñoz Yi. O candidato a presidente Abelardo de la Espriella em Palmira, perto de Cali Foto: JOAQUIN SARMIENTO/AFP“É a imagem do advogado bem-sucedido que pode chegar de helicóptero para se apresentar em uma universidade na cidade – toda uma série de elementos que se somam e tentam construir essa imagem do líder forte e bem-sucedido que teve o privilégio de rejeitar partidos políticos em sua campanha", completa.De la Espriella é um advogado criminalista e empresário. Sua lista de clientes reúne jogadores de futebol e narcotraficantes conhecidos. O mais chamativo deles é Alex Saab, acusado de ser o operador financeiro de Nicolás Maduro que foi recentemente extraditado da Venezuela para os Estados Unidos.PublicidadeSua principal bandeira, assim como Bukele, é a da segurança, propondo decretar Estado de emergência para conter o crime e bombardear locais de cultivo de droga e acampamentos de narcotraficantes. Ele se utiliza do fato de que o ambicioso plano de Paz Total de Petro decepcionou grande parte do eleitorado. Mas, em matéria econômica, se vê pouca diferença entre eles. “Ao analisar os discursos econômicos desses três candidatos, parece que eles tentam, em certa medida, apagar suas diferenças”, afirma Remi Stellian, professor da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade Javeriana.“Seus discursos são lamentavelmente vazios, pois mencionam crescimento, emprego formal, solução dos problemas do sistema de saúde, fortalecimento da economia diante das mudanças climáticas e dos consequentes desafios energéticos, entre outras coisas, mas não vi muitas soluções concretas”, conclui.
Herdeira de Uribe e ‘Bukele colombiano’ duelam pela vaga da direita no 2º turno das eleições
Iván Cepeda, candidato do presidente Gustavo Petro, é um nome certo para avançar nas eleições de 31 de maio, enquanto a direita tradicional e a radical batalham para seguir na disputa













