A surpreendente vitória do candidato de extrema direita Abelardo de la Espriella na disputa do primeiro turno das eleições presidenciais da Colômbia, com 43,7% dos votos, teve a primeira repercussão ainda na noite de domingo. Tanto o presidente colombiano, Gustavo Petro, quanto o candidato de esquerda, Iván Cepeda, questionaram os resultados apresentados pela pré-contagem — sistema preliminar de apuração —, sugerindo uma possível fraude eleitoral. Embora Cepeda tenha baixado o tom em novas declarações nesta segunda-feira, alegando não ter encontrado evidências que sustentassem qualquer suspeita de irregularidade, analistas apontam que o episódio antecipa uma disputa polarizada e que pode ter impacto profundo nas instituições venezuelanas. — A disputa já não será apenas sobre quem ocupará a Casa de Nariño [sede da Presidência] a partir de 7 de agosto [dia da posse do futuro presidente] — afirmou Daniel Zovatto, diretor e editor do Radar Latam 360. — Também estará em jogo a capacidade do país de processar democraticamente suas profundas diferenças políticas em um contexto de crescente confrontação. Espriella, um advogado de 47 anos que fez campanha em cima da promessa de uma campanha linha-dura contra o crime organizado e grupos armados do país, foi a grande surpresa do pleito ao sair da terceira posição nas pesquisas para superar tanto Cepeda quanto a candidata da direita tradicional, Paloma Valencia — que era apoiada pelo ex-presidente Álvaro Uribe. — Paloma Valencia venceu a 'Grande Consulta' da direita colombiana com 3.236.286 votos. Em 2º lugar ficou Juan Daniel Oviedo, com 1.255.510 votos — observou a jornalista e pesquisadora Danna Urdaneta, venezuelana especializada no conflito armado e nos processos de paz na Colômbia, em entrevista ao GLOBO, apontando que ambos formaram uma chapa ao fim do equivalente às primárias da direita, mesmo discordando em temas centrais. — A fórmula não foi bem-sucedida, porque Paloma obteve 1.639.685 votos no primeiro turno presidencial, quando contava com um total potencial de 4.491.796 votos. O candidato à presidência da Colômbia, Abelardo de la Espriella, do movimento Salvadores de la Patria, cumprimenta apoiadores ao chegar para votar com sua esposa, Ana Lucia Pineda, em uma seção eleitoral durante a eleição presidencial em Barranquilla, Colômbia, em 31 de maio de 2026. — Foto: RODRIGO BUENDIA / AFP Os votos da dupla, analisou a pesquisadora, migraram para Espriella, que se autointitula como 'El Tigre', e obteve 10.361.499 votos, segundo a pré-contagem. Na avaliação de analistas, o crescimento parece relacionado à defesa da pauta de segurança mais rigorosa e da candidatura "outsider", que mimetiza outros fenômenos políticos recentes da América Latina, como os presidentes de El Salvador, Nayib Bukele, e da Argentina, Javier Milei. — O que pesou para o Espriella foi ter conseguido avançar sobre a centro-direita, fortalecendo sua campanha ao trazer a temática da segurança como central, em uma perspectiva de aumento da repressão — disse a professora de Relações Internacionais da ESPM, Denilde Holzacker. — Ele também demonstrou capacidade de se apresentar como uma novidade para o eleitor. Um outsider que a maioria dos insatisfeitos acabou seguindo. Um teto para a esquerda? Quando Petro foi eleito, em 2022, a esquerda chegou pela primeira vez à Presidência da Colômbia na democracia moderna do país. A candidatura de Cepeda esperava repetir o feito, tendo como referência pesquisas de opinião que apontavam margens de liderança que chegaram a fazer o senador sonhar com uma vitória em primeiro turno. — A base dele estava muito confiante e o segundo lugar acaba sendo um banho de água fria — disse a professora Flávia Loss, docente de Relações Internacionais no Instituto Mauá de Tecnologia. — Apesar disso, ele está bem posicionado. Como toda campanha política, vai exigir um reposicionamento para o segundo turno. O candidato presidencial da Colômbia pelo partido governista Pacto Histórico, Iván Cepeda, chega para votar em uma seção eleitoral durante a eleição presidencial em Bogotá, em 31 de maio de 2026 — Foto: RAUL ARBOLEDA / AFP Urdaneta aponta que o resultado de Cepeda foi o melhor entre candidatos de esquerda nas últimas eleições. Com 9.688.361 votos, cerca de 40% dos votos válidos, ele superou o número de eleitores conquistados por Petro em 2018 e 2022, o que, segundo a pesquisadora, demonstra um aumento da participação eleitoral em favor da esquerda colombiana. Por outro lado, há receios de que mesmo com a mobilização, suas chances sejam reduzidas na disputa direta. — Havia um temor por parte da campanha de que Cepeda tivesse chegado em seu teto em termos de apoio — afirmou Holzacker. — Ele aglutinou os apoiadores da esquerda, principalmente os grupos que apoiam o governo Petro, mas também havia essa perspectiva de que talvez ele não conseguisse avançar entre eleitores moderados. E ele não conseguiu avançar os eleitores indecisos. Segundo turno e desafio institucional As primeiras movimentações mirando o segundo turno foram agressivas. Cepeda, que evitou debates no primeiro turno enquanto era líder perante as pesquisas, imediatamente desafiou Espriella para um encontro frente a frente — que respondeu nas redes sociais chamando o adversário de "covarde". Petro afirmou que tomaria a frente da campanha do aliado, ignorando restrições legais sobre manifestação no processo eleitoral enquanto ocupa o cargo. Paloma Valencia declarou apoio ao candidato da extrema direita. Os analistas apontam que a eleição segue competitiva. Holzacker avalia que a diferença entre Espriella e Cepeda "não é tão expressiva", apontando vantagem do extremista pelo apoio recebido da candidata terceira colocada e a maior capacidade de agregar eleitores de direita. Acrescenta que o outsider também precisará de ajuda da direita convencional para governar. Urdaneta, em contrapartida, vê chances reais de Cepeda crescer a partir de uma indicação de plano de governo mais ao centro, com a construção de uma aliança incluindo o candidato de centro Sergio Fajardo, que obteve mais de 1 milhão de votos, a candidata Claudia López e Juan Daniel Oviedo, vice de Paloma. Homem lê um jornal em Barranquilla, na Colômbia, após o primeiro turno presidencial, vencido por Abelardo de la Espriella por estreita margem — Foto: Rodrigo Buendia/AFP Há preocupações, porém, com as pressões institucionais e a governabilidade do país após as eleições. Loss apontou com preocupação a tendência seguida por Petro e Cepeda, ao menos inicialmente, de questionar o resultado eleitoral — sobretudo em um processo observado pela OEA e que, durante o período eleitoral, era acusado pela oposição. Zovatto afirma que o nível de polarização da campanha representa um risco para além do aprofundamento das divisões já existentes, mas também "uma erosão ainda maior da confiança nas instituições e na própria legitimidade do resultado eleitoral". — As próximas três semanas serão decisivas não apenas para definir o próximo presidente, mas também para colocar à prova a governabilidade e a solidez da democracia colombiana — afirmou.
Polarização entre extrema direita e esquerda no segundo turno força limites institucionais na Colômbia
Analistas apontam que governabilidade e estabilidade institucional do país sul-americano também está em jogo na disputa travada por Iván Cepeda e Abelardo de la Espriella
Abelardo de la Espriella (extrema direita) vence primeiro turno Colombia com 43,7%, superando Cepeda (esquerda, 40%) e Valencia. Outsider populista amplifica instabilidade institucional na América Latina, elevando risco regulatório e policy volatility para operações tech/business.











