O intelectual francês Edgar Morin, que participou da Resistência durante a Segunda Guerra Mundial e dedicou a vida a estimular o pensamento crítico e combater a intolerância, morreu aos 104 anos. Autor de uma obra vasta e multidisciplinar, Morin transitou entre história, filosofia, sociologia e ciência, tornando-se uma das principais referências intelectuais da França no século XX e início do XXI. A morte, ocorrida na sexta-feira, foi confirmada no sábado à AFP por sua esposa, Sabah Abouessalam Morin. Nascido Edgar Nahoum em 8 de julho de 1921, em Paris, Morin era filho único de uma família judaica sefardita originária da cidade grega de Tessalônica. Aos dez anos, perdeu a mãe — episódio que sua família tentou esconder dele por semanas e que mais tarde descreveu como sua "Hiroshima pessoal". Em 1941, ingressou no Partido Comunista e entrou para a Resistência usando o pseudônimo Morin. Filho de imigrantes judeus laicos, Morin formou-se em sociologia, mas preferia definir-se como um "humanólogo", reunindo elementos da filosofia, psicologia, etnografia e biologia para compreender a condição humana. O jornal Libération o definiu, em perfil publicado em 2021, como "o avô de todos os franceses e a memória do século passado". Fora da França, ganhou projeção como um dos criadores do chamado cinéma vérité, movimento documental associado ao filme Chronique d’un été ("Crônica de um verão"), lançado em 1961 em parceria com o cineasta Jean Rouch. Edgar Morin — Foto: AFP A produção partia da pergunta "você é feliz?" para registrar conversas espontâneas sobre classe social, raça e colonialismo, em método que influenciou profundamente o cinema documental. Na França, porém, Morin era sobretudo reconhecido por sua abordagem multidisciplinar aplicada às grandes questões contemporâneas. "O que significa ser humano? O que é a globalização? O que é a vida? Essas perguntas exigem que conectemos conhecimentos atualmente dispersos em diferentes campos de pesquisa", explicou em 2020 ao canal TV5 Monde. Mesmo após completar cem anos, continuava participando do debate público e compartilhando reflexões com seus cerca de 220 mil seguidores no X sobre temas como mudanças climáticas e a guerra na Ucrânia. Segundo sua esposa, "até seus últimos dias, Edgar Morin permaneceu atento ao mundo, aos outros e aos grandes desafios humanos que alimentaram seu pensamento". — Hoje, o vazio que ele deixa é imenso. Mas sua coragem, sua fidelidade às pessoas e às ideias, sua exigência moral e sua esperança continuam nos acompanhando — disse ela. Pensamento complexo e trajetória política Doutor honoris causa por 38 universidades estrangeiras, incluindo instituições do Brasil, México, Colômbia, Chile e Espanha, Morin escreveu cerca de 40 livros traduzidos para diversos idiomas. Entre as obras publicadas em português e espanhol estão "Introdução ao pensamento complexo", "O Método", "Lições da história" e "A cabeça bem-feita". Edgar Morin — Foto: AFP Em "O Método", considerado um de seus trabalhos centrais, escreveu: "Quanto mais conhecemos o ser humano, menos o compreendemos. As dissociações entre disciplinas o fragmentam, o despojam de vida, de carne, de complexidade, e certas ciências supostamente humanas chegam inclusive a esvaziar a noção de homem". Inicialmente defensor de uma resistência pacífica contra os nazistas, posição que depois classificou como um erro, Edgar também reconheceu ter apoiado Stalin no início de sua trajetória política. Em 1959, publicou Autocrítica, obra em que relatou sua expulsão do Partido Comunista Francês, do qual havia sido dirigente. Também participou da fundação de um comitê de intelectuais contrário à guerra da Argélia. Críticas ao nacionalismo e à crise ambiental A partir dos anos 1970, Morin passou a alertar para os riscos do crescimento econômico descontrolado e desenvolveu críticas ao tratamento dado por Israel aos palestinos. Em 2002, foi coautor de artigo que afirmava que "os judeus, que foram vítimas de uma ordem implacável, impõem sua ordem implacável aos palestinos". O texto motivou denúncia por antissemitismo apresentada por duas associações, mas Morin venceu o processo na mais alta instância judicial francesa. O intelectual publicou dezenas de livros ao longo da vida, incluindo uma obra lançada em 2025 dedicada aos riscos das mudanças climáticas e ao avanço do nacionalismo. Em entrevista a uma rádio francesa em 2021, lamentou a "ausência de consciência de que estamos caminhando para o abismo", mas afirmou que não era "fatalista".