Morreu nesta sexta-feira (29), em Mointpellier, sul da França, o sociólogo e filósofo francês Edgar Morin, aos 104 anos. A morte foi confirmada por dois pesquisadores amigos de Morin. Ele foi um pensador crítico das formas convencionais de conhecimento: em vez do saber acadêmico compartimentado, recomendava a alternativa da interdisciplinaridade e o enfoque orientado para as complexidades observadas. Eram exigências não compreendidas nem admitidas, dizia, pela maioria dos políticos, economistas, tecnocratas e empresários, e ignoradas pela maioria dos franceses, seus concidadãos. “O que temos diante de nós? Consciências dispersas, revoltas reprimidas, associações de solidariedade, um pouco de economia social e solidária, mas nenhuma força política coerente com um pensamento orientador, como o que preconizo”, escreveu no livro “Lições de um Século de Vida” (2021). “Sempre tive o sentimento complexo de que uma verdade parcial é um erro, sendo necessário buscar uma verdade complexa. Isto, naturalmente, sem ter consciência da problemática da complexidade, que se me apresentou bem mais tarde, mas que se apresentou porque correspondia à minha própria tendência”, diz em “Minha Paris, Minha Memória” (2015). Opunha-se, assim, ao pensamento tradicional, cartesiano, que trata um problema dividindo-o em partes. “O pensamento complexo foi bem formulado por Pascal, que disse: ‘Todas as coisas estão ligadas, são causas e consequências, mediatas e imediatas, e tudo se associa através de um laço insensível, o mais distante e o mais próximo’. A chave do pensamento complexo é a inter-relação. Não podemos tudo saber, mas precisamos de um conhecimento que conheça seus limites e que trabalhe com a incerteza própria do real e antagônica aos determinismos.” Em “O Homem e a Morte” (1951), empregou pela primeira vez o enfoque transdisciplinar de observação, integrando ângulos de sociologia e psicologia em considerações sobre atitudes humanas paradoxais diante da morte. Trabalhou na mesma linha de interação temática em “O Cinema ou o Homem Imaginário” (1956) e outros livros de sua bibliografia de mais de 30 obras. Obra mais marcante Sua forma de pensar foi criticada por acadêmicos de saber especializado (“donos de áreas de conhecimento”, ele dizia), que o qualificaram de incompetente e vulgarizador, principalmente a partir da publicação do primeiro volume de “O Método”, intitulado “A Natureza da Natureza”, em 1977, que se tornaria sua obra mais marcante. Publicou outros cinco volumes, até 2004, totalizando 2.148 páginas, distribuídas pelos títulos “A Vida da Vida”, “O Conhecimento do Conhecimento”, “As Ideias”, “A Humanidade da Humanidade”, “Ética”. Com “O Método”, Morin deu sequência a um trabalho independente de teoria política sistematizado ao longo de mais de 30 anos, que iniciou com o livro “O Paradigma Perdido – A Natureza Humana” (1973). Também fariam parte de sua agenda as propostas contidas em “A Via” (2013) e, depois, em “É Hora de Mudarmos de Via – As Lições do Coronavírus” (2020), que escreveu com sua mulher, a socióloga Sabah Abouessalam, com foco na natureza da crise sanitária e humanitária, passando por temas como a condição humana, solidariedade, desigualdade social, ciência e medicina. Alertava então que “o futuro imprevisível está em gestação hoje. Tomara que seja para a regeneração da política, para a proteção do planeta, para a humanização da sociedade”. E insistia: “Está na hora de mudar de via”. Escreveu ainda quatro livros em que recomenda reformas da educação, que considerava essenciais na ampla revisão epistemológica e pedagógica que propunha: “A Cabeça Bem Feita” (2000); “A Religação dos Saberes” (2000); “Os “Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro” (2000); “Ensinar a Viver” – Manifesto para Mudar a Educação” (2015). Queria saber o que o conhecimento humano pode “conhecer” do próprio homem. Nessa procura de conscientização das complexidades da “aventura humana”, Morin acompanhou de perto alguns dos principais acontecimentos de seu tempo – as guerras, as lutas sociais, as transformações políticas – que tomou para temática de pesquisas e reflexões. Foi esse também o ambiente de sua formação e militância ativista. Trajetória Nascido em 21 de julho de 1921, em Paris, em 1938, entrou para o pequeno Partido Frontista, de oposição ao stalinismo, ao hitlerismo e à guerra, que irromperia no ano seguinte. Na mesma época, começou a ler Marx. “Descobri que toda política deve se basear numa concepção do homem, da sociedade e da história. Enveredei nessa direção ao me matricular na universidade em história, sociologia, filosofia, ciência econômica, ciências políticas. Essa busca não me abandonou e é o fermento de toda minha obra”, relembra no livro “É Hora de Mudarmos de Via – As lições do Coronavírus”. Na Resistência, durante o período da ocupação da França pela Alemanha, adotou o pseudônimo Morin para uso entre seus camaradas. Na carteira de identidade que apresentava à polícia era Gaston Poncet. Terminada a guerra, manteve em seus documentos o sobrenome Nahoum do registro civil e pediu que se acrescentasse “vulgo Morin”. Com a libertação da França da ocupação nazista, foi enviado em 1945 à Alemanha como adido ao estado-maior do Exército Francês (era subtenente das Forças Francesas Combatentes) e em 1946 passou a chefiar o departamento de propaganda do governo militar francês no país dividido entre os aliados. Em seu primeiro livro, “L'An Zéro de l’Allemagne”, publicado em 1946, descreve a situação do povo alemão no pós-guerra. Filiou-se em 1941 ao Partido Comunista, em que imaginava potencialidades de oposição ao nazismo. Militou até 1951, quando foi expulso por voltar-se contra as práticas stalinistas. “A autocrítica que se seguiu à minha ruptura [com o partido] proporcionou-me a sorte de fazer uma faxina mental, de conquistar autonomia intelectual [e] buscar obstinadamente um pensamento político agora complexo (...). Converti-me à autonomia política total. (...) Precisei realizar a integral e radical autocrítica de seis anos de cegueira e ilusões, o que fiz em 1958.” [Em “Lições de Um Século de Vida”]. No ano seguinte, publicou o livro “Autocrítica”, sobre o que chamava sua “desconversão”. Nessa revisão de princípios, tornou-se “um direitista de esquerda”, posição que definia assim: “Direitista, porque valorizo muito as liberdades, mas, ao mesmo tempo, sou muito esquerdista, pois tenho a convicção de que nossa sociedade precisa de transformações profundas e radicais. Tornei-me um conservador revolucionário. Precisamos revolucionar tudo, mas conservando os tesouros da nossa cultura”. [Em epígrafe no seu livro “A Minha Esquerda”, coleção de ensaios de 2011] Com a “desconversão”, perdeu o emprego na redação do “Patriote Resistant”, periódico da Fondation Nationale des Déportés, Internés Résistants et Patriotes, controlada pelo partido. Logo passou a outro plano de atividade intelectual: conseguiu trabalho como pesquisador no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), numa carreira em que chegou a diretor de pesquisa e terminou como pesquisador emérito. Em dezembro de 1956, foi um dos fundadores de “Arguments”, revista de filosofia política de inspiração marxista revisionista, anti-stalinista, dedicada a ensaios de sociologia, antropologia e epistemologia. Foram publicados 28 números, até 1962. Em 1960, fundou, na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS, em francês), o Centro de Estudos de Comunicação de Massa (CECMAS), com Georges Friedmann e Roland Barthes (também fundador da “Arguments”), que teria como linha de pesquisa uma abordagem transdisciplinar de questões da comunicação. No mesmo ano, criou a revista “Communications”. Entre 1973 e 1989, foi um dos diretores do Centro de Estudos Transdisciplinares da EHESS, sucessor do CECMAS. Nos últimos anos, via a esquerda francesa sem liderança que pudesse conduzir a uma necessária recomposição de forças, em meio à decadência do Partido Socialista. Olhava mais para trás: “Marx acertou na previsão de que haveria uma expansão global do capitalismo. Isso está acontecendo agora. Mas a sua visão do homem e da história era estreita demais, datada. Nela tudo era luta de classes e economia. Havia pouco espaço para o simbolismo e para a singularidade”, disse ao sociólogo e jornalista Juremir Machado da Silva, seu orientando em doutorado na Sorbonne, em 21 de setembro de 2023, que o entrevistava para a plataforma digital “Matinal”. Vivia em Mointpellier, no Sul da França, com a quarta mulher, a socióloga Sabah Abouessalam (65 anos), sua parceira intelectual desde antes do casamento, em 2012. “Ela está presente em minha obra, muitas vezes invisível, por meio de indicações, sugestões, correções, críticas. Sacrificou sua contribuição criativa para a sociologia urbana a fim de se dedicar à minha existência e a um pensamento meu que se tornou comum a nós dois.” Pensava em vir ao Brasil (aqui tinha estado várias vezes, para conferências), numa viagem de navio (os médicos não aconselhavam que viajasse de avião). Talvez voltasse a morar em Paris, onde tinha um pequeno apartamento na rua do Cherche-Midi.