As suspeitas sobre Zapatero poderão abrir divisões no Governo e comprometer o futuro de Sánchez?Podem. Por enquanto, acredito que não há risco de queda do Governo, porque os partidos ainda estão à espera do depoimento do ex-presidente Zapatero, no dia 16 de Junho, mas há alguma divisão. O segundo partido [da coligação de Governo], o Sumar, está inquieto com os últimos desenvolvimentos, com o que estamos a saber sobre as actividades privadas de Zapatero. Muitos dos dirigentes do Sumar acham que, para além do facto de ser ou não ser legal, a conduta do ex-presidente talvez não seja muito ética. Portanto, acho que não há perigo, e que o Governo continuará, mas pode ter uma pequena divisão. Essa divisão pode aumentar nas próximas semanas se surgirem factos mais problemáticos para Zapatero e o PSOE [Partido Socialista Operário Espanhol].A Guardia Civil fez buscas na sede do PSOE. Podem daí resultar novidades que alterem o curso da actual política espanhola?Os aliados do PSOE, o Sumar, que está no Governo, e os pequenos partidos no Congresso, especialmente os nacionalistas catalães e bascos, falam de uma linha vermelha. Essa linha corresponderia ao surgimento de alguma notícia sobre o financiamento ilegal do PSOE. Mas, por enquanto, não há novos desenvolvimentos. As buscas são por uma situação diferente. São por causa de outra investigação, sobre movimentações de ex-dirigentes do PSOE, para tentarem impedir investigações sobre o partido, que não tem nada que ver com financiamento ilegal. A situação piora a cada semana para o PSOE. Mas não é algo definitivo, que possa derrubar o Governo ou romper a relação do PSOE com os seus aliados.Faz sentido falar sobre judicialização da política ou isso é reduzir a importância das investigações?Com certeza. Isso está a acontecer. Só que há coisas diferentes. Há algumas investigações judiciais muito controversas. Por exemplo, a investigação sobre a mulher do presidente Sánchez. Há um juiz que tem feito coisas realmente estranhas e tomado decisões muito criticadas, mesmo por outras pessoas no mundo jurídico. Parece que andam apenas à procura de encontrar algo contra a mulher do presidente do Governo. Ficou claro que ela não teve um lucro especial pela sua actividade na universidade. Houve também outro processo muito polémico, pelo qual o procurador-geral do Estado foi condenado, com muita discussão, porque não havia provas claras. Mas há também outros casos que envolvem claramente corrupção. José Luis Ábalos, número dois do PSOE, foi julgado e está na cadeia. No caso de Zapatero, há indícios de que possa haver alguma actividade, no mínimo, pouco clara.Escreveu que a corrupção é companheira inseparável da democracia espanhola. Zapatero era até agora o único ex-primeiro-ministro que não havia sido envolvido num grande escândalo. Que impacto é que este caso pode ter na credibilidade do sistema espanhol?A credibilidade do sistema já não estava num momento muito bom e isto, certamente, piorará a situação. Acima de tudo, será muito importante para a percepção de credibilidade por parte das pessoas de esquerda. Zapatero era [até aqui] o único presidente que tinha saído sem nenhum escândalo de corrupção. E ele, não apenas no PSOE, mas em toda a esquerda, era visto como uma pessoa muito ética, com um património moral muito importante. Muitas pessoas ficaram chocadas e surpreendidas, porque quase ninguém achava que Zapatero estivesse envolvido na obtenção das grandes quantias de dinheiro que a investigação judicial está a revelar.E quem ganha mais com esta questão da corrupção?O Partido Popular (PP) de Feijóo tem um problema quando fala sobre corrupção, pois tem um histórico grande de escândalos que não são assim tão antigos. Muitos deles ainda não foram julgados nos dias de hoje. Portanto, até ao momento, acho que essa atmosfera beneficia a extrema-direita, o Vox. As sondagens são bastante claras. O PP não progrediu, está no mesmo nível de há um ano, mas a extrema-direita cresceu. O problema para o PP e para o Vox é que eles não têm como derrubar o Governo, pois não têm maioria no Congresso. E esse é o grande problema actual da política espanhola. O Governo não tem maioria, porque um dos partidos que o apoia, o Junts, partido do ex-presidente catalão Puigdemont, exilado em Bruxelas, rompeu com o Governo. Mas ele também não vai apoiar um movimento do PP e do Vox para derrubar o Governo, porque o Vox é o nacionalismo espanhol e eles são os nacionalistas catalães, e estão em conflito. Portanto, há uma situação de beco sem saída. E isso pode continuar até Julho de 2027, quando as eleições se devem realizar.A Espanha tem uma imagem externa e uma imagem interna completamente diferentes, como se fosse maior por fora e mais pequena por dentro? Como é que essa contradição é vista em Espanha?É uma contradição muito estranha, sim. De facto, o presidente Sánchez fica feliz quando está fora de Espanha. Quarta-feira, esteve com o Papa em Roma. Terça-feira, esteve numa reunião na FAO [Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura], na qual foi aclamado. Há algumas semanas, reuniu líderes de esquerda de todo o mundo, incluindo Lula da Silva, e foi reconhecido como o grande líder da esquerda internacional. Mas quando volta [a Madrid], tem muitos problemas. Há também outra situação contraditória em Espanha: os dados económicos são muito bons, o Governo está sempre a falar sobre o facto de sermos o país que mais cresce na Europa, e a oposição fala de um país que é uma catástrofe, um país que vai naufragar. A polarização é muito alta. Às vezes, lembro-me de Gorbatchov, que era uma pessoa muito admirada no exterior e de quem os soviéticos não gostavam.
“Pedro Sánchez fica feliz quando está fora de Espanha”
Xosé Hermida, correspondente parlamentar do El País: “O Governo está sempre a falar sobre o facto de sermos o país que mais cresce na Europa. E a oposição fala de um país que é uma catástrofe.”














