Recentemente me convidaram para falar sobre paradoxos da liderança. Reuni aqui algumas ideias. Em primeiro lugar, a definição de paradoxo, que, diferentemente de enigma (que pode ser resolvido) e de dilema (que traz oposição, mas permite solução), o paradoxo inclui elementos que se contradizem e que estão implicados mutuamente, mas são impossíveis de serem solucionados. Paradoxos podem ser encontrados em diferentes esferas. Quanto se trata da nossa pessoalidade, podemos dizer que nosso equilíbrio psicodinâmico é absolutamente instável (a estabilidade absoluta seria a morte, um estado de não necessidade). Corpo e mente estão constantemente em movimentos sejam esses perceptíveis ou não. Do nascimento até a morte, estamos nos transformando. Vida e morte são paradoxos inevitáveis. Quando se estuda a dinâmica do funcionamento dos grupos, a necessidade do “eu” versus o “nós” está sempre presente, novamente um equilíbrio instável. Nas organizações, os paradoxos incluem desde a necessidade de colaboração versus a inevitável competição interna bem como os objetivos divergentes dos diferentes stakeholders. A busca por algum balanceamento entre esses fatores é permanente. Precisamos de alguma estabilidade, mas a mudança é a constante nas organizações. Quando se fala das incertezas que cercam as decisões nas empresas hoje, ainda que certa estabilidade tenha marcado algumas décadas, é melhor considerar que a vida sempre foi movimento. Todos os dias o líder se depara com inúmeras situações paradoxais: o desconforto desconfortável, ou seja, a mudança constante frente a necessidade de alguma estabilidade para manutenção da entrega diária; a coragem cautelosa: que pede equilíbrio entre a coragem para tomar decisões difíceis e a prudência para não agir de forma imprudente. Além disso, precisa manter uma mobilização otimista, que inclui estimular o otimismo para energizar a equipe, mas com realismo suficiente para não negligenciar riscos. Precisa manter a calma sob pressão, sem se tornar passivo ou indiferente aos problemas e oportunidades numa serenidade desassossegada. O líder precisa também ser genuíno e transparente, mas com a prudência de não ser ingênuo ou indiscreto e buscar a excelência ao mesmo tempo que precisa lidar com as imperfeições e aprender com os erros. Nas organizações, os paradoxos incluem desde a necessidade de colaboração versus a inevitável competição interna bem como os objetivos divergentes dos diferentes stakeholders, diz colunista — Foto: Freepik E no caso da liderança feminina? Além dos já mencionados, que naturalmente circundam a posição de número um nas empresas, as mulheres acumulam paradoxos adicionais: o paradoxo da simpatia, já que agressividade natural da liderança não é aceitável por elas num ambiente que pede assertividade; o paradoxo do sucesso, pois precisam enfrentar a dupla jornada, já que o papel do cuidado continua com ela; o paradoxo do “pense líder, pense homem”, pois a liderança naturalmente está associada com a figura masculina e ainda há um estranhamento com a figura feminina no exercício do poder; além do paradoxo do excesso, já que as mulheres precisam trabalhar mais do que os homens para alcançar as posições de liderança. E, estranhamente, apesar de sua suposta docilidade, as mulheres não conseguem dulcificar as organizações. A vida amorosa também inclui o paradoxo de um louco amor sensato: as pessoas continuam a desejar um louco amor e, ao mesmo tempo, a sensatez de um cotidiano compartilhado na divisão de tarefas, recursos financeiros e cuidado com os filhos, numa doce harmonia. Mas, como diz meu colega Miguel Pina e Cunha em seus estudos sobre o tema, não havendo paradoxos talvez a liderança não fosse necessária. E, no cotidiano, precisamos conviver com o caos normal do amor.