A piora recente dos indicadores de inadimplência no crédito ao consumidor no Brasil tem sido concentrada em fintechs e instituições financeiras menores, segundo relatórios do Itaú BBA e do Goldman Sachs. Por outro lado, os bancos incumbentes mostram maior resiliência em suas carteiras. O Itaú BBA afirma que há uma “desconexão aparente” entre os indicadores agregados de inadimplência do sistema financeiro e o desempenho observado nos grandes bancos. O relatório, divulgado na última segunda-feira (25), faz uma análise com base em séries históricas de inadimplência com dados do Banco Central (BC) dos quartos trimestres dos últimos anos. Os números, segundo o Itaú BBA, estão sendo cada vez mais influenciados pelo avanço de instituições não classificadas como S1 (grupo que reúne os maiores bancos do País) e em segmentos de maior risco, como cartão de crédito e empréstimo pessoal. “Instituições não-S1 responderam pela maior parte das formação de NPL [inadimplência] do sistema, principalmente via cartões de crédito e empréstimos pessoais”, diz o banco. O relatório destaca que fintechs e bancos digitais “operam (muitas vezes de forma muito lucrativa) com índices de NPL mais elevados”, refletindo perfil de clientes de renda mais baixa e produtos mais arriscados. Segundo o Itaú BBA, cerca de 45% do volume adicional de crédito entre 2023 e 2025 vieram de instituições fora do grupo S1, que também representam 75% do aumento do volume de inadimplência. O Goldman Sachs, em relatório da última terça-feira (26), com base nos dados preliminares de abril — os dados efetivos foram divulgados nesta quinta (28) pelo Banco Central (BC) — afirmou que “a maior parte da deterioração da qualidade dos ativos não está nas instituições S2”, grupo que inclui o Nubank, por exemplo. O banco americano afirmou que a inadimplência dos cartões de crédito teria subido 20 pontos-base em abril frente a março, chegando a 10,3%, enquanto os empréstimos pessoais teriam piora de 60 pontos-base, para 10,9%. O relatório mostrou que, naquele momento, a deterioração parecia mais concentrada em instituições S3 e S4 (menores) nos cartões de crédito e nos bancos S1 (maiores) no crédito pessoal. Nesta quinta, porém, o Goldman divulgou um novo relatório após o BC divulgar os dados de abril. O banco revisou parte das conclusões e passou a apontar deterioração mais forte da inadimplência no sistema financeiro como um todo. Com a atualização, os dados passaram a mostrar alta de 60 pontos-base na inadimplência dos cartões de crédito em abril, ante março. A piora foi mais intensa na faixa de renda média, entre três e dez salários mínimos, cuja inadimplência subiu 90 pontos-base, para 9,2%. Entre os clientes de baixa renda, a inadimplência chegou a 14%. O Goldman também afirmou que “a deterioração da qualidade dos ativos em cartões parece mais pronunciada para a indústria”. Já nos empréstimos pessoais, os dados de abril passaram a indicar alta de 40 pontos-base na inadimplência do setor, com deterioração mais forte nos bancos S1, cuja inadimplência subiu 70 pontos-base, para 10,3%. Os relatórios também mostram avanço das instituições S2 em participação de mercado. Segundo o Goldman Sachs, essas instituições ganharam 100 pontos-base de participação em cartões de crédito no acumulado de 2026 até abril, chegando a 20,6% da carteira total. Nos empréstimos pessoais, o ganho foi de 110 pontos-base, para 23%. Grande parte desse avanço ocorreu nas faixas de menor renda. No cartão de crédito, as instituições S2 ganharam 150 pontos-base de participação entre clientes de baixa renda em 2026, alcançando 31,9% do mercado. O Itaú BBA avalia que essa mudança estrutural ajuda a explicar a elevação dos indicadores agregados de inadimplência sem necessariamente significar deterioração relevante nas carteiras dos grandes bancos tradicionais. “Os próprios bancos podem estar reduzindo sua exposição a tomadores de empréstimo de maior risco.” Segundo o relatório, as carteiras de crédito ao consumidor dos grandes bancos vêm diminuindo como proporção do PIB, enquanto cresce a participação de linhas com garantia e menor risco. A Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) afirmou, em nota, que os dados de abril mostram que os indicadores de inadimplência refletem um movimento mais amplo no crédito às pessoas físicas, “não restrito ao cartão de crédito”. A entidade destacou que a inadimplência no cheque especial atingiu 15,5% em abril, alta anual de 2,6 pontos percentuais (p.p). No crédito pessoal não consignado, a taxa chegou a 9,3%, avanço de 2,3 p.p. Já no financiamento de veículos, a inadimplência foi de 6,1%, alta de 1,2 p.p. No cartão de crédito total, o índice ficou em 9,3%, avanço de 1,1 p.p. em um ano. A associação também argumenta que o cartão de crédito é utilizado majoritariamente como meio de pagamento, e não como instrumento de financiamento com juros. A entidade ressalta que os dados do BC mostram que 74,3% do saldo da carteira de cartões em abril não tinham incidência de juros, por corresponderem a compras à vista ou parceladas sem juros. Sobre os juros do rotativo, a Abecs destacou que representam apenas 2,7% do endividamento total das famílias brasileiras em abril. A associação lembrou que “o consumidor não pode ficar mais do que 30 dias na modalidade de crédito rotativo, o que impossibilitaria aos juros cobrados chegarem ao patamar anual divulgado”. A Abecs lembrou ainda que, desde janeiro de 2024, a regulamentação limita o valor total da dívida do rotativo ao montante original do débito. A entidade destacou que o período médio de permanência do consumidor no rotativo do cartão era de 12,8 dias em abril, com base em dados do BC.
Fintechs e bancos menores puxam alta da inadimplência, apontam analistas
Associação de Cartões de Crédito diz que a inadimplência no cheque especial atingiu 15,5% em abril, alta anual de 2,6 pontos percentuais












