Atraso nos pagamentos em modalidades como cartão de crédito e cheque especial levou o índice a subir 7,6% 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Inadimplência voltou a subir entre as famílias — Foto: Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 01/07/2026 - 22:21 Inadimplência no Brasil atinge recorde mesmo com Desenrola A inadimplência no Brasil atingiu um patamar recorde em maio, mesmo com a renegociação de R$ 15 bilhões em dívidas pelo programa Desenrola Brasil. A taxa média de atrasos subiu para 4,7%, com destaque para modalidades como cartão de crédito e cheque especial, que alcançaram 7,6%. Especialistas apontam que o aumento do custo de vida e altas taxas de juros contribuem para o quadro, e que o programa não resolve as causas estruturais do endividamento. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A inadimplência nas operações de crédito alcançou patamar recorde em maio, mês de lançamento do novo Desenrola Brasil, programa de renegociação de dívidas. A taxa média, com atrasos superiores a 90 dias de pessoas físicas e empresas, subiu para 4,7%, maior patamar da série histórica do Banco Central (BC), iniciada em 2011. Quando se consideram apenas as transações de pessoas físicas na modalidade de crédito com recursos livres — como cheque especial, cartão de crédito e crédito pessoal — o índice sobe para 7,6%, o que também é o maior percentual já registrado nas Estatísticas Monetárias e de Crédito do BC. Mesmo com a renegociação de ao menos R$ 15 bilhões em dívidas no âmbito do programa lançado pelo governo, os atrasos nos pagamentos seguiram crescendo em maio. Em um horizonte mais longo, a taxa média de inadimplência de todas as operações aumentou em 1 ponto percentual nos últimos 12 meses. Juliana Inhasz, economista do Insper, explica que, embora o mercado de trabalho siga aquecido e com crescimento da renda, o que deveria favorecer a situação financeira das pessoas, a renda pode não ter aumentado na mesma proporção que as necessidades da população e o custo de vida, especialmente em itens essenciais, como alimentação, moradia e transportes: Inadimplência recorde — Foto: Criação O Globo — O problema não é a falta de renda, mas o quanto essa renda cresce abaixo das necessidades das famílias e do custo financeiro das dívidas. Então, a pessoa está ganhando mais, mas está gastando mais para custear o seu dia a dia e o crédito. Quem precisou renovar uma dívida, parcelar uma compra, ou tomar crédito, acabou encontrando taxas de juros muito elevadas, especialmente nas modalidades que as pessoas mais usam, como cheque especial, cartão de crédito e crédito pessoal. Extensão da renda Além disso, a economista avalia que a inadimplência elevada indica o comportamento cada vez mais comum de usar o crédito como uma extensão da renda, e não como uma antecipação de renda para consumos duráveis. — As pessoas usam o crédito para conseguir bancar o dia a dia. Não é mais o excepcional: é para bancar o básico. Só que não conseguem fazer reserva para, no mês seguinte, pagar esse crédito. Então, amanhã tomam mais crédito. E vai se desenrolando essa história de uma maneira que fica completamente insustentável — avalia. O BC acompanha duas grandes categorias de crédito: o direcionado e o livre. O primeiro é aquele com destinação específica, criado para financiar setores considerados estratégicos, como habitação, agricultura e infraestrutura. Os recursos são, em geral, da poupança ou de fundos e programas públicos. E, em muitos casos, os juros são subsidiados. Para pessoas físicas, o crédito habitacional é o mais comum nesta categoria. Já o crédito livre abrange empréstimos em que as instituições financeiras têm autonomia para definir as taxas de juros, os prazos e a destinação dos recursos, com base em seus próprios critérios de risco. Os mais habituais são cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal. Considerando as duas grandes categorias, a inadimplência das famílias subiu de 5,5% em abril para 5,6% em maio, o mais alto nível da série. Entre as pessoas jurídicas, a taxa de inadimplência subiu para 3,2% no mês passado, maior patamar desde setembro de 2017. Enquanto isso, o índice que mede o endividamento e comprometimento de renda das famílias permaneceu estável, em 49,8%, um patamar elevado. Flávio Ataliba, pesquisador do FGV Ibre, pondera que o problema já se tornou uma questão estrutural do país. Ele afirma que o elevado endividamento aumenta a fragilidade financeira das famílias, reduzindo sua capacidade de reagir a qualquer choque na economia, como a taxa de juros elevada ou uma possível desaceleração da atividade. Com isso, a própria inadimplência tende a se perpetuar, tornando cada vez mais difícil reverter o quadro. — Essa dificuldade é potencializada porque a gente tem ainda um nível de taxa de juros acima de 14% (a Selic está em 14,25% ao ano). E a dívida é cumulativa, juros sobre juros, o que potencializa mais o desconforto financeiro das famílias e o volume de inadimplência. A essa conjuntura, o pesquisador acrescenta o comprometimento da renda das famílias com bets, o que reduz a capacidade de pagar dívidas e despesas essenciais. Em meio ao crescimento da inadimplência, o governo lançou a nova versão do Desenrola Brasil, que renegociou, desde maio, ao menos R$ 15,9 bilhões em dívidas, segundo os balanços mais recentes divulgados pelo governo. Segundo o balanço apresentado pela equipe econômica no fim de maio, R$ 10 bilhões em dívidas haviam sido renegociadas pelo Desenrola Famílias, voltado para pessoas físicas. Somadas, as dívidas foram reduzidas para cerca de R$ 2,6 bilhões — R$ 1,3 bilhão do Desenrola Famílias, mais R$ 1,28 bilhão do Desenrola Fies. O programa ainda conta com o Desenrola Rural, voltado para dívidas no campo, que ainda não teve balanço oficial apresentado. Sem atacar as causas O novo programa de renegociação de dívidas do governo tem seu foco principal nas famílias. Consumidores que ganham até cinco salários mínimos (R$ 8.105) podem renegociar, diretamente com os bancos, dívidas de cartão de crédito, cheque especial ou crédito pessoal sem garantia. Economistas avaliam que não houve tempo de captar os efeitos do programa lançado em maio sobre o endividamento. Além disso, apontam que o programa ataca apenas as consequências, mas não as causas do problema. — O Desenrola só permite que as famílias negociem a dívida a juros mais baixos, mas não impede que elas continuem se endividando ou criando novas dívidas. Nesse cenário, a expectativa é ter nos próximos meses reduções de inadimplência e, lá para o fim do ano ou começo de 2027, o problema pode começar a aumentar de novo — alerta Juliana.
Entenda por que a inadimplência atingiu patamar histórico em maio mesmo com renegociação de R$ 15 bi em dívidas pelo Desenrola
Atraso nos pagamentos em modalidades como cartão de crédito e cheque especial levou o índice a subir 7,6%










