Gerando resumoGustavo Petro prometeu uma revolução na Colômbia quando assumiu a presidência em 7 de agosto de 2022. Sua ambição era reformar todos os setores possíveis: tributário, saúde, previdência, trabalhista, educação, entre outros. Mas, em quatro anos, teve dificuldades em dialogar com um Congresso minoritário e manter um governo estável em meio a trocas constantes de gabinete. Seu sucessor, dizem analistas, herdará melhorias sociais, mas também muitos desafios econômicos.PUBLICIDADE A briga, no entanto, terminou com o colombiano viajando a Washington e tirando uma foto sorridente com Trump no Salão Oval.PublicidadeSua presidência termina em 7 de agosto, quando assumirá o novo ou nova presidente. O primeiro turno das eleições é neste domingo, 31, e um segundo turno está previsto para 21 de junho.O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e sua vice, Francia Márquez, em Bogotá em 2023 Foto: Juan Barreto/AFPEle não pode concorrer a um segundo mandato porque a reeleição é proibida desde 2014. Em vez disso, lançou a candidatura do senador Ivan Cepeda, considerado o arquiteto de seu ambicioso plano de Paz Total. Governabilidade, a sua grande dificuldadeDepois de três tentativas fracassadas, o ex-guerrilheiro foi eleito em 2022 por uma margem apertada, o que sinalizava as dificuldades que ele iria enfrentar em um país tão dividido. Encontrou um Congresso minoritário, onde a direita tinha o maior número de assentos. “O governo Petro quis fazer muitas mudanças, tinha uma agenda social e política muito ampla e teve o propósito de fazer várias reformas, porém a governabilidade foi muito limitada”, opina Andrés Londoño, doutor em Ciência Política no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.PublicidadeO jornal colombiano El Espectador lista ao menos 12 projetos e reformas enviados pelo governo ao Congresso ao longo dos últimos quatro anos. Desses, as reformas da previdência, tributária e agrária, além dos planos de Paz Total e de Desenvolvimento se tornaram leis.“O governo antes de começar tinha muitas expectativas de mudança, mas assim que foi avançando foram surgindo muitos problemas. Isso se evidencia, por exemplo, na troca constante de ministros”, continua Londoño.Segundo a imprensa colombiana, Petro realizou quase 60 mudanças em seu gabinete em seus quatro anos, o que refletiu na falta de estabilidade de muitas de suas políticas. Só em 2025 foram mais de 20 nomes que giraram pelos mais diferentes ministérios.“Isso faz com que seja difícil dizer que o governo teve sucesso para para grande parte da população”, conclui o cientista político.PublicidadePUBLICIDADECONTiNUA APÓS PUBLICIDADE“Desde janeiro de 2026, os índices de aprovação do governo Petro têm aumentado, demonstrando um crescente apoio e respaldo às suas decisões”, aponta Patricia Muñoz Yi, cientista política pela Pontifícia Universidade Javeriana, de Bogotá.As explicações podem ser várias. Desde os embates públicos com Trump que terminaram satisfatoriamente até políticas econômicas que beneficiaram diretamente a população.“Decisões políticas voltadas para setores específicos, como o aumento do salário mínimo, que beneficia um número significativo de colombianos, lhe renderam um apoio que começou a se tornar notável a partir deste ano. Outras políticas, como as que ele implementou na agricultura e na educação, também contribuíram para esse apoio popular”, explica a professora.Melhora em políticas sociaisEste ano, o governo anunciou um aumento de quase 24% no salário mínimo do país, que passou de 1.423.500 pesos colombianos em 2025 (cerca de R$ 1900 na cotação atual) para 1.750.905 pesos colombianos (R$ 2400). Somados aos quase 250 mil pesos em auxílio transporte, o montante chega a 2 milhões de pesos (R$2700).Esse é o principal fator que explica o salto recente de popularidade, explicam os especialistas colombianos. A isso se somam outros dados positivos do governo, como queda na pobreza e no desemprego. Este último, contudo, observado com ressalvas por economistas, pois há um aumento na informalidade.“Mais da metade dos trabalhadores na Colômbia seguem sendo do setor informal”, observa Remi Stellian, professor da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade Javeriana. “É importante notar que essa redução no desemprego foi impulsionada principalmente pelo setor público. Mas a questão é que a maioria desses contratos são de curto prazo, o que chamamos aqui na Colômbia de prestação de serviços, e, portanto, não são empregos de longo prazo, como seria de se esperar”, continua. O economista também ressalta que a redução é puxada por muitas pessoas que se tornaram autônomas ao optarem por projetos de microempreendedorismo.PublicidadeOutro número celebrado pelo governo é a queda na pobreza. Que saiu de quase 13% em 2022 para 9,9% no fim de 2025. Estes são os números de pobreza multidimensional, que considera, para além da pobreza monetária, o acesso à saúde, educação e serviços.Entre os setores que o governo promoveu mudanças está a agricultura, a distribuição de terras, leis trabalhistas, entre outros.“A perspectiva não é tão pessimista porque houve algumas melhorias, mas com os recentes desempenhos econômicos, a questão que podemos fazer é se essa melhoria pode ser sustentada ao longo do tempo”, pontua Remi Stellian.Economia, a principal preocupaçãoOs riscos econômicos citados pelo economista são, principalmente, em inflação e gasto público. Petro começou o seu governo com um país recém saído da pandemia e imediatamente após o início da guerra na Ucrânia, o que provocou uma inflação global. Com isso, o esquerdista herdou uma inflação de dois dígitos anuais.PublicidadeOs números caíram nos últimos quatro anos, mas nunca atingiram a meta estipulada pelo Banco Central Colombiano de 3%. Hoje o dado está acima de 5%. Isso fez com que o Banco de La Republica aumentasse as taxas de juros. “Do ponto de vista da inflação, as coisas não melhoraram como esperado. A inflação chegou a ultrapassar os 12% ao ano em determinado momento, e agora está em aproximadamente metade desse valor. Esperava-se que a inflação estivesse sob controle até o final de 2026, mas o Banco Central declarou que isso não será possível. Teremos que esperar pelo menos até o final de 2027”, afirma Stellian.Além da inflação, o banco central justificou o aumento nas taxas de juros citando os gastos do governo. “O crescimento econômico moderou, mas o nível de gastos do país permanece elevado e acima dos níveis sustentáveis”, justificou o banco em seu informe de abril, onde apontou que a inflação anual do primeiro trimestre do ano foi de 5,6%.O país fechou 2025 com um déficit de -6,4% do PIB colombiano, muito impulsionado pelo gasto público. “Trata-se principalmente de dívida referente a despesas operacionais e, portanto, não podemos descartar a possibilidade de que o dinheiro público não tenha sido gasto da melhor maneira”, explica Stellian.PublicidadeCom isso, o crescimento econômico da Colômbia foi modesto nos últimos quatro anos, com sinais de estagnação. A média de crescimento do PIB nos últimos quatro anos foi de 1,8%, sendo superado até mesmo por seu antecessor Iván Duque, que teve uma média de quase 4% apesar de ter governado durante a pandemia.Paz Total, a maior pendênciaEntre as várias pendências, Petro sai da Casa de Nariño com uma bastante amarga: seu ambicioso plano de Paz Total.O esquerdista fez toda a sua campanha eleitoral focada em sua promessa de combater a violência no país por meio de um processo negociado de desmobilização dos grupos armados. A ideia era expandir o acordo de paz firmado entre o governo de Juan Manuel Santos com as Farc (Forças Armadas Expedicionárias da Colômbia) em 2016.Já de início a organização colombiana FIP (Fundación Ideas para La Paz) apontava que o plano era muito amplo. “Uma política ousada em sua abordagem, porém desconectada das realidades territoriais e institucionais”, dizia.PublicidadeEm seu relatório de três anos da gestão Petro, a fundação confirmava suas previsões e afirmava que “o processo de paz permanece sem rumo e carente de uma estratégia clara”. Nesses anos, os confrontos armados aumentaram e os grupos ilegais se expandiram.Hoje, o conflito está mais atomizado e fragmentado, com grupos armados que intensificaram sua presença e controle territorial, e outros que estão expandindo seu alcance. Disputas entre o Estado-Maior Central (EMC), o Estado-Maior dos Blocos e Frentes (EMBF), o Clã do Golfo e o ELN, entre outros, multiplicaram os focos de violência.Fundación Ideas para la Paz em seu relatório de 3 anos de gestão PetroEsse tem sido o calcanhar de Aquiles do governo, com os candidatos da direita apontando para um fracasso do plano para defender o retorno à abordagem linha-dura. O maior exemplo, sugerem, foi a morte do pré-candidato Miguel Uribe Turbay que, ao que indicam as investigações, tem conexão com líderes de grupos armados.“O plano sofreu com problemas desde o início: falta de metodologia, falta de um roteiro claro que definisse os passos a seguir, as concessões que poderiam ser feitas e como conduzir esses diálogos com os diferentes grupos”, afirma Patricia Muñoz Yi.“A paz total chega ao fim neste governo sem grandes resultados e com a preocupação de ter permitido que mais de um desses grupos fortalecesse sua posição em seus territórios. Há manifestações de violência que aumentaram, especialmente em áreas rurais.”Publicidade
Gustavo Petro, o líder de esquerda que falou e prometeu demais, tenta fazer o sucessor na Colômbia
Primeiro presidente de esquerda do país se despede do cargo com popularidade em alta e melhora em índices sociais, mas com a economia estagnada e sem ‘Paz Total’













