Ariquemes, município de Rondônia com quase 110 mil habitantes que integra o mapa das cidades inteligentes, espelha o quanto médias localidades têm avançado na adoção da inteligência artificial para aumentar produtividade, otimizar serviços e fortalecer a economia - e como a ajuda externa pode ajudar a desenvolver soluções. Em parceria com o Instituto Federal de Rondônia (Ifro), especializado na oferta de educação profissional e tecnológica, o município adotou um método georreferenciado de erradicação de focos de dengue com ajuda de drones capazes de detectar, a 200 m de altura, bacias, pneus e caixas d’água contaminados pela presença do mosquito transmissor da doença. De acordo com o professor Vagner Schoaba, coordenador do Projeto Cidades Inteligentes do Ifro, a metodologia tem permeado outras áreas do município - a começar pela digitalização de toda a documentação da gestão municipal, iniciada em 2021. O Pronto Saúde já permite que metade dos atendimentos médicos gere prontuários eletrônicos compartilhados entre SUS, UBS e hospitais municipais. O software também otimiza a gestão do estoque de medicamentos e o agendamento de consultas. Na Educação, o Proinfes monitora a entrada e a saída dos alunos da escola e transmite a informação em tempo real às famílias. Telas touch screen auxiliam no aprendizado. Ilhas digitais começam a pipocar pela cidade, oferecendo áreas de acolhimento com internet livre e bancadas de trabalho. “Capacitamos 4 mil agentes e gestores municipais ao longo de 10 mil horas de trabalho”, diz Schoaba, para quem a qualificação humana em si representa outro ativo, na medida em que “habilitar o poder público ajuda a abrir as mentes para a inovação”. Capacitamos 4 mil agentes e gestores municipais ao longo de 10 mil horas de trabalho” A importância de formar equipes colaborativas também é endossada pela Secretaria de Desenvolvimento Estadual de Rondônia, que optou por operar em três escalas (cidade, bairro e empreendimento) para avançar na agenda do Programa Cidades Inteligentes. Camilópolis, em Santo André, primeiro bairro inteligente da região metropolitana de São Paulo, tem sensores que coletam qualidade do ar, temperatura, umidade, emissão de CO2, radiação solar, volume de chuvas e nível de ruído; wi-fi gratuito; monitoramento em tempo real por câmeras em ruas e prédios públicos; interligação de equipamentos públicos por fibra óptica; e semáforos inteligentes. Sensores em bueiros medem o volume de resíduos acumulados e permitem planejar a drenagem urbana, prevenir enchentes e fechar antecipadamente vias inundáveis. Em Niterói (RJ), a implantação de mais de 600 câmeras inteligentes e um sistema eletrônico de leitura de placas ajudou a reduzir em 88% os roubos de veículos, segundo análise do Observatório de Segurança de Niterói (OspNit), que comparou dados de outubro de 2025 com o mesmo período do ano anterior. O número de roubos de rua caiu 41%, e a taxa de mortes violentas despencou de 46,1 para 11 a cada 100 mil habitantes. Para muito além das soluções inovadoras em si, existem no país hubs tecnológicos e celeiros de fomento ao empreendedorismo digital que orientam o passo a passo em direção à implantação de cidades inteligentes. É o caso do Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos (PIT), que ajudou a moldar a própria vocação inovadora da cidade paulista e hoje é multiplicador da metodologia. É preciso antes de mais nada capacitar. Nosso papel é evitar erros” — Barbara Krystall “Nosso trabalho é catequizar municípios e seus gestores”, afirma Felipe Hammel, head de cidades inteligentes do PIT, explicando que a governança e a gestão por dados proposta se apoia nas normas ISO - 409 indicadores conectados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU medem a performance de entrega dos serviços urbanos e permitem ao gestor mensurar o que não está funcionando e escolher as ferramentas para reverter a situação. Jataí (GO), Itararé (SP), Primavera do Leste e Nova Mutum (MT) são alguns dos usuários das cartilhas elaboradas pelo PIT. Entre os temas abordados figuram modelos de gestão, captação de recursos, parcerias público-privadas (PPPs), estratégias para tráfego inteligente e diretrizes para expandir redes de telecomunicações, fibra óptica e internet das coisas. Em parceria com o PIT, o programa InovaCidades MPC, do Ministério Público de Contas do Paraná, é uma dessas iniciativas, cujo objetivo é incentivar o poder público a diagnosticar os reais problemas da cidade e elaborar um bom plano diretor. Para o órgão, colaborar com a profissionalização da administração e com a qualificação das equipes municipais é mais eficaz do que combater o desperdício de recursos públicos decorrentes de falhas de planejamento. “Agir preventivamente é algo inovador no Brasil. Os gestores precisam entender que não adianta apenas comprar uma frota de ônibus elétricos para ser cidade inteligente; é preciso antes de mais nada capacitar. Nosso papel é evitar erros para não ter de multar depois”, afirma Barbara Krystall, diretora geral do órgão.
Parcerias entre hubs e municípios fomentam inovação
Iniciativas treinam gestores públicos na adoção de novas ferramentas e auxiliam na elaboração de planos diretores
















