A discussão sobre inovação pública no Brasil tem migrado da infraestrutura tecnológica para uma abordagem centrada no fator humano. No centro do debate está Téo Foresti Girardi, idealizadora do GovTech Lab e autora do livro “O estado inteligente: por que digitalizar não basta” (EdiPUCRS, 106 pág). Para a especialista, a verdadeira maturidade de uma gestão não deve ser medida apenas pela conectividade, mas pela capacidade do Estado em antecipar vulnerabilidades e proteger o cidadão. “Precisamos parar de falar apenas de cidades inteligentes e começar a falar de governos inteligentes”, afirma Girardi, defendendo que a inteligência pública reside na capacidade de cuidar das pessoas. À frente de iniciativas como a plataforma GovTech Place, que conecta o setor público a startups, ela observa um amadurecimento cultural no país, onde prefeitos e governadores passam a enxergar as govtechs como aliadas. Segundo Girardi, essas startups oferecem a velocidade e a criatividade necessárias para enfrentar desafios complexos, desde mudanças climáticas até a desigualdade social. “Tecnologia, nesse contexto, não é fim. É uma ferramenta”, destaca, reforçando que a transformação digital só é relevante quando melhora a experiência cotidiana da população e constrói dignidade. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista. Valor: O que caracteriza uma cidade inteligente? Téo Foresti Girardi: Durante muito tempo, acreditávamos que cidades inteligentes seriam aquelas repletas de tecnologia, sensores, aplicativos e conectividade. Mas, talvez, a grande maturidade seja compreender que inteligência não está apenas na infraestrutura: está na capacidade de cuidar das pessoas. Hoje, gosto de dizer que precisamos parar de falar apenas de cidades inteligentes e começar a falar de governos inteligentes. Uma cidade verdadeiramente inteligente é capaz de perceber o sofrimento, antecipar vulnerabilidades, proteger vidas e construir pertencimento. A inovação pública precisa ser profundamente humana. Não há transformação digital relevante sem melhorar a experiência cotidiana das pessoas. Uma cidade só é inteligente quando o Estado usa tecnologia, dados e inovação não apenas para ser mais eficiente, mas para cuidar melhor das pessoas, antecipar necessidades e construir confiança, dignidade e futuro coletivo. Valor: Qual o papel das govtechs na resolução de problemas das cidades? Girardi: As govtechs surgem num momento em que os governos perceberam algo essencial: ninguém conseguirá enfrentar sozinho os desafios do nosso tempo. Estamos lidando com mudanças climáticas, envelhecimento populacional, desigualdade, crise de confiança, inteligência artificial, novas vulnerabilidades sociais. Govtechs ajudam a aproximar capacidade tecnológica da dor real das cidades: elas oferecem velocidade, criatividade e especialização para problemas que o Estado, sozinho, muitas vezes não consegue resolver na mesma velocidade. Existe uma mudança de lógica além da tecnologia porque as govtechs ajudam governos a deixarem de operar apenas na reação e começarem a construir capacidade de antecipação, prevenção e inteligência coletiva. Govtechs ajudam governos a começarem a construir capacidade de antecipação e prevenção” Valor: Há govtechs tentando inovar para além dos grandes polos urbanos? Girardi: Talvez esse seja um dos movimentos mais importantes hoje. Temos acompanhado algo muito bonito: a interiorização da inovação pública. Muitas vezes pequenas cidades conseguem inovar com mais rapidez porque possuem relações mais próximas, menos camadas burocráticas e maior capacidade de articulação local. Vemos govtechs atuando em prevenção de desastres climáticos, saúde digital, educação remota, agricultura inteligente, inclusão digital, monitoramento ambiental. Um exemplo é o crescimento de ecossistemas de inovação pública em cidades médias e pequenas que passaram a conectar governos locais, startups, universidades e comunidades para resolver problemas concretos do território. Isso muda profundamente a lógica do desenvolvimento brasileiro, porque democratiza o acesso à inovação. A transformação digital deixa de ser privilégio das capitais e passa a se tornar uma ferramenta de desenvolvimento regional, inclusão e fortalecimento da capacidade pública em todo o país. Valor: E quanto às govtechs do governo federal? Girardi: O Brasil avançou muito em governo digital. A digitalização de serviços públicos nos últimos anos colocou o país em posição de destaque internacional em vários aspectos. Mas acredito que ainda existe uma diferença importante entre digitalizar e transformar. Digitalizar é converter processos analógicos em digitais. Transformar é redesenhar a relação entre Estado e cidadão. O próximo salto será justamente construir inteligência pública integrada: governos capazes de usar dados, interoperabilidade e IA para cuidar melhor das pessoas. Valor: Como as govtechs transformam a gestão pública? Girardi: As govtechs transformam a gestão pública porque ajudam o Estado a voltar a ser relevante em um mundo que mudou mais rápido do que as estruturas tradicionais de governo conseguiram acompanhar. Por décadas, governos foram organizados para responder a uma realidade mais estável, previsível e burocrática. Mas hoje os problemas são dinâmicos, complexos e acontecem em tempo real. As govtechs trazem para o setor público uma nova lógica, mais colaborativa, ágil, conectada, maior capacidade de testar, aprender e corrigir rapidamente e, principalmente, mais foco na vida real. Elas não transformam apenas sistemas; transformam mentalidades. Valor: As govtechs são uma estratégia de Estado e de soberania? Girardi: Sem dúvida. Hoje, soberania também significa capacidade tecnológica. Países que não desenvolverem inteligência digital própria correm o risco de se tornarem dependentes não apenas economicamente, mas institucionalmente. Quando falamos em govtechs, estamos falando da capacidade de um país construir soluções adequadas à sua própria realidade social, territorial e cultural. Estamos falando sobre autonomia do Estado. E isso ganha ainda mais relevância diante das transformações provocadas pela inteligência artificial. Por isso acredito que govtechs não são apenas um setor econômico. Elas são parte da infraestrutura estratégica do futuro. Precisamos formar lideranças para um mundo orientado por dados, IA e colaboração” Valor: O Brasil está usando o potencial tecnológico para melhorar a vida dos cidadãos? Girardi: Estamos avançando, mas ainda muito aquém do que poderíamos. O Brasil tem criatividade, capacidade técnica, talento e um ecossistema de inovação extremamente potente. Temos startups, universidades, centros de pesquisa e servidores públicos comprometidos em transformar realidades. O grande desafio não é apenas desenvolver tecnologia; é criar capacidade institucional para transformar inovação em política pública consistente, integrada e centrada na vida das pessoas. Durante muito tempo, o Estado organizou os problemas em estruturas administrativas: saúde de um lado, educação de outro, assistência social em outra secretaria. Mas o cidadão não vive os desafios de forma fragmentada. Ele vive o problema como um todo. Um exemplo simples é o de uma mãe que precisa acessar atendimento de saúde para o filho, transporte público eficiente e uma vaga na escola. Para o governo, isso pode envolver três ou quatro secretarias. Para ela, é apenas a vida acontecendo, e ela espera respostas conectadas. É aí que a tecnologia faz diferença: quando consegue integrar dados, serviços e decisões para tornar o Estado mais simples, eficiente e humano. O potencial do Brasil é enorme. O próximo passo é usar tecnologia não apenas para digitalizar processos antigos, mas para redesenhar a forma como os governos entendem e resolvem problemas públicos. Redesenhar a experiência do cidadão. Valor: Quais os principais gargalos, lacunas e entraves para as govtechs hoje no país? Girardi: Existe dificuldade de contratação pública inovadora, insegurança jurídica, excesso de burocracia e ciclos políticos muito curtos. Mas talvez exista um desafio ainda mais profundo: o medo da mudança. Inovar no setor público exige coragem institucional, porque pressupõe admitir que modelos antigos já não respondem adequadamente às dores da sociedade. Também precisamos formar lideranças preparadas para um mundo orientado por dados, IA e colaboração em rede. Tecnologia sem liderança consciente apenas acelera estruturas antigas. Valor: Quais cases de govtechs se destacam, na sua visão? Girardi: São aqueles em que a tecnologia deixa de ser protagonista e o impacto humano passa a ser o centro da transformação. Quando uma solução consegue reduzir sofrimento, ampliar acesso a direitos, economizar tempo do cidadão, prevenir tragédias ou melhorar a experiência das pessoas com o Estado, ela já está cumprindo um papel profundamente transformador. Há municípios utilizando telemedicina e monitoramento remoto para reduzir filas na saúde e ampliar atendimento especializado em regiões afastadas. Na área de inteligência climática e defesa civil, surgem soluções que utilizam dados, sensores e IA para prever riscos de enchentes, deslizamentos e eventos extremos. Na educação, plataformas ajudam professores a acompanhar evasão escolar, desempenho e vulnerabilidades sociais em tempo real, permitindo intervenções mais rápidas e personalizadas. Também vejo avanços importantes em participação cidadã, com ferramentas digitais que aproximam população e governo, permitindo consultas públicas, escuta ativa e maior transparência nas decisões.
“Inteligência está na capacidade de cuidar das pessoas”
Há um amadurecimento cultural no país, com prefeitos e governadores enxergando as govtechs como aliadas, afirma Téo Foresti Girardi















