Gerando resumoEm um momento em que a inteligência artificial (IA) avança sobre tarefas intelectuais, os eventos presenciais vivem um movimento aparentemente contraditório: estão maiores, mais disputados e mais relevantes porque a conexão entre as pessoas se tornou mais importante. Essa foi uma das principais percepções que emergiram do São Paulo Innovation Week (SPIW), conferência realizada na capital paulista entre os dias 13 e 15 de maio e que reuniu milhares de pessoas em torno de temas como IA, futuro do trabalho, inovação, comportamento e transformação digital. No painel SPIW Download, realizado no Inovabra nesta quinta, 28, curadores e especialistas debateram a importância de estar presente em eventos mesmo com o forte crescimento do digital nos últimos anos.PUBLICIDADENa era da IA, os eventos presenciais ganharam importância justamente por oferecerem aquilo que os algoritmos não conseguem reproduzir: os encontros humanos genuínos, a troca espontânea de ideias e o acesso a perspectivas fora da bolha digital. Enquanto nas plataformas online os profissionais tendem a consumir conteúdos direcionados por algoritmos que reforçam interesses e opiniões já existentes, os eventos físicos trazem conversas inesperadas, conexões improváveis e debates amplos sobre mercado, comportamento e tecnologia. PublicidadeOs encontros físicos também passaram a ocupar um papel importante no amadurecimento do debate sobre IA. Em vez do deslumbramento inicial com a tecnologia, os eventos vêm funcionando como espaços para discutir ética, responsabilidade e o papel humano além do algoritmo. Ao mesmo tempo, ajudam a combater o isolamento social provocado pelo excesso de telas, criando repertório compartilhado, confiança e senso de comunidade. Lilly Clark, curadora do Innovation Week, fala sobre experiência no SPIW. Foto: Lucas Agrela/EstadãoPara empresas, esses ambientes ainda servem como ferramenta de motivação e retenção de talentos, especialmente em áreas altamente digitais, ao conectar profissionais ao impacto real do que produzem. Em um mundo cada vez mais automatizado, o contato humano virou um diferencial estratégico.A consultora Carol Romano chamou atenção para a redução das interações presenciais nos últimos anos. Segundo ela, as pessoas passaram a substituir parte significativa da socialização por entretenimento digital, redes sociais e interações mediadas por telas. “Em 20 anos, costumávamos socializar 60 horas por mês. Hoje, esse número caiu para 20 horas”, afirmou Carol, durante o SPIW Download.Para ela, os encontros presenciais ganham importância justamente porque criam algo cada vez mais raro: experiências coletivas compartilhadas. “A gente está criando repertório compartilhado. Isso é muito importante nos tempos atuais”, diz.PublicidadeO debate sobre a IA durante o São Paulo Innovation Week, por exemplo, incluiu reflexões críticas sobre seu impacto no mercado de trabalho. O filósofo e ex-ministro da Educação da França Luc Ferry sugeriu que a IA pode suplantar o emprego tradicional a tal ponto que os humanos precisarão buscar propósito em atividades fora do emprego, como relações humanas e trabalhos cívicos. Já o escritor americano Douglas Rushkoff, conhecido por livros críticos aos bilionários da tecnologia, complementou essa visão, apresentando a tese de que a IA está desvalorizando o trabalho humano em vez de apenas o eliminando, o que exige novas estratégias sociais.Ronaldo Lemos, cientista-chefe do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio), debateu com Erick Bretas, CEO do Estadão, como regular a IA no Brasil sem cair na armadilha de inibir a inovação ou criar leis que nascem obsoletas. Já Guilherme Horn, head do WhatsApp para Brasil, Índia e Indonésia, falou sobre agentes de IA e como eles já estão presentes no ambiente de trabalho fazendo tarefas, muitas vezes, melhor do que ele mesmo.Como fazer networkingPara Cássio Spina, presidente e fundador da rede de investidores Anjos do Brasil, um dos maiores erros de quem participa de eventos é tratar networking como uma tentativa imediata de fechar negócios. “Sei como é a ansiedade do investidor que busca um aporte. É preciso perguntar ao investidor no que ele investe e o que chama a atenção dele. Assim, o seu pitch será muito mais preciso”, diz Spina.Para Marcos Gurgel, diretor de inovação na Wellhub (antiga Gympass), outra dica essencial é modular o comportamento de acordo com o ambiente. “Se você vai ao Slush (evento de startups na Finlândia) com um crachá de investidor, é normal enfrentar uma fila de 50 empreendedores fazendo pitches de 30 segundos um atrás do outro. Se o empreendedor tentar fazer isso no Brazil at Silicon Valley, ele nunca mais é convidado”, diz Gurgel.PublicidadePUBLICIDADEA fundadora da startup dedicada à proteção de propriedade intelectual com blockchain InspireIP, Caroline Nunes, diz que a clareza na comunicação sobre o que sua empresa faz é um fator crucial na comunicação não só com o público, mas também com investidores e até com o Banco Central. “Sempre busco explicar o negócio de forma simples, como se estivesse falando com uma criança de cinco anos de idade”, diz Caroline.Diversidade como pilar do SPIWPara Lilly Clark, diretora de curadoria da Innovation Week, o evento representou um desafio, dado o porte de São Paulo como a maior capital da América Latina e o poder financeiro do Brasil. Ela destacou que o pilar da diversidade foi uma missão central, atendendo a um pedido de Erick Bretas, para manter esse DNA na programação. O Estadão é sócio do evento junto com a Base Eventos. A próxima edição está confirmada e será de 4 a 7 de maio de 2027.“Foi um desafio enorme para nós do Rio. Viemos de cinco edições do Rio Innovation Week, um evento que se consolidou na cidade. A convite do Erick Bretas, CEO do Estadão, topamos esse desafio enorme de criar um evento que refletisse o tamanho, o poder financeiro e a importância de São Paulo, maior capital da América Latina. O que ele pediu que trouxéssemos ao evento é a diversidade de temas e públicos que tínhamos no Rio”, disse Lilly, no SPIW Download, em painel moderado por Ana Barufi, gerente de pesquisa do Inovabra.A perspectiva ampla do evento se manifestou em painéis que buscaram profundidade com misturas de campos, como o painel da Monja Coen e do líder indígena Ailton Krenak. Lilly citou ainda as palestras do psicólogo Daniel Goleman e do físico Marcelo Gleiser por trazerem visões que ampliaram o debate.PublicidadeA primeira edição do São Paulo Innovation Week (SPIW) reuniu mais de 80 mil visitantes e 1.877 palestrantes. Realizado no Pacaembu e na Faap, o evento priorizou a pluralidade de temas e públicos, estratégia que foi sustentada por um processo de curadoria de um ano, conduzido por um colegiado de 41 curadores especialistas em áreas variadas, de inteligência artificial a geopolítica.Elifas de Vargas, especialista em marketing e curador, notou que a credibilidade do evento foi construída pela mistura de empresas de setores totalmente diferentes, como Banco do Brasil e GWM, discutindo um mesmo tema. Vargas disse ainda que o conteúdo técnico precisa ser traduzido para uma linguagem acessível, pois se a comunicação não puder ser compreendida por qualquer pessoa, o comunicador falhou em seu propósito.Apesar da ênfase no digital, Vargas observou o crescimento dos eventos presenciais. O alto engajamento do público paulista reforçou essa tendência, indicando a necessidade de aprimorar o treinamento para o atendimento humano no mundo físico, já que a tecnologia sozinha não resolve a experiência do cliente.
Por que eventos presenciais ganharam força na era da inteligência artificial
No SPIW Download, curadores e especialistas apontam a conexão humana como um ativo que ganha importância na nova etapa tecnológica; veja dicas de como fazer networking
















