A C&A acelera o ritmo de reforma de suas lojas e prevê ao menos dez novas unidades este ano, mas monitora o debate sobre o fim da escala 6x1, votada ontem na Câmara dos Deputados e que agora avança para o Senado, que terá impacto significativo no comércio. É o que diz o CEO da rede de vestuário, Paulo Corrêa, em entrevista ao GLOBO após participar, ontem, do evento Rio2C. A centenária varejista holandesa, que em 2026 celebra 50 anos de presença no Brasil, acompanha de perto as mudanças da sociedade brasileira para manter-se jovem no DNA. O executivo diz que a companhia estuda internamente o tema do fim da escala 6x1, mas evitou dimensionar o impacto que possíveis mudanças na escala e na jornada de trabalho formal podem ter sobre as operações. — Estamos acompanhando. A gente faz todos os nossos estudos de cenários e reações que podem acontecer. Mas nesse momento, falar se vai ser assim ou assado (o modelo de escala do funcionário), ainda é especulação até que vire algo concreto. Em meio ao desemprego nas mínimas históricas e relatos de empresas com dificuldade para contratar mão de obra, Corrêa reconheceu que os profissionais têm novas exigências, embora o comércio ainda seja a primeira oportunidade de emprego de muitos brasileiros, e disse: — Tem um nível de competição maior com essas outras tecnologias (de trabalho por aplicativo, como Uber e iFood). — Esse é um mercado que sempre teve alta rotatividade. Sempre foi assim — explicou, acrescentando que uma cultura forte tem sido a resposta para reter profissionais. — Esse é o nosso "molho secreto". O respeito e a condução ética que a gente tem... Além de salário e benefício, onde a gente sempre foi competitivo, tem outras dimensões que essa nova geração valoriza cada vez mais, como o propósito da companhia. O jeito que o trabalhador é tratado, como é a convivência no dia a dia com as pessoas que estão do lado, e que tipo de credos e comportamentos elas têm — observou. Câmeras 'inteligentes' monitoram o interesse Corrêa participou do painel “Inovação e relevância que começam na escuta”, no Rio2C, festival de criatividade que acontece na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, até o dia 31 de maio. Ao lado da presidente da Coca-Cola Brasil, o executivo contou como a varejista de moda está utilizando dados qualificados dos clientes e inteligência artificial (IA) para entender os consumidores. A atenção aos debates colocados pela sociedade também ocorre nesse processo de escuta ativa dos desejos do consumidor, traduzido hoje na forma como ela traça suas estratégias para fisgá-los. Dentro da chamada "Energia C&A", estratégia que lançou nos últimos anos pós-pandemia para modernizar as operações, a empresa, que tem 339 lojas espalhadas pelo país, aposta em uma jornada de compra mais fluida e intuitiva. Se no início o foco da estratégia era acelerar o desenvolvimento de produtos - com criação de protótipos em períodos mais curtos, análise de tendências e uso de algoritmos para projetar demanda, refinar preços e logística -, agora o objetivo é traduzir esse ganho operacional para a experiência do consumidor nas lojas físicas. Parte dessas inovações estarão embutidas até onde o cliente não repara. As câmeras de segurança das lojas foram redefinidas para monitorar os fluxos de movimento e fornecer insights. Com as rotas captadas pela câmera, a marca passa a saber quantas pessoas caminham até determinado espaço e quanto tempo elas ficam nos setores. —Você começa a ter um um histórico que hoje você só tem na web — contou Corrêa. — Isso vai te retroalimentando de informações e a tua decisão (de negócio) começa a ficar cada vez mais acertada. E isso entra na veia. Na hora em que você reage ao interesse e ao comportamento do consumidor, isso gera mais conversão, mais venda e possibilidade de investir ainda mais. Nova loja conceito no Rio em agosto A nova fase da estratégia prevê a inauguração de lojas com esse conceito e a reforma de unidades para tornar a experiência de compra mais clara, organizada e visualmente mais limpa ao cliente. Ao GLOBO, Corrêa antecipou que a varejista vai inaugurar em agosto sua nova loja conceito no Barra Shopping, na Zona Oeste do Rio, onde ocupa uma área de mais de três mil metros quadrados. Será a segunda loja dessa modalidade da varejista, que lançou a primeira unidade no Center Norte, em São Paulo, em agosto de 2025. A proposta é criar uma loja mais aberta e convidativa, sem os tradicionais manequins na fachada. A disposição das roupas terão um visual mais clean que facilita a visualização dos produtos e evita a sensação de excesso de informação típica de grandes lojas de departamento. Entre os destaques estarão os jeans — carro-chefe da marca —, além da linha esportiva ACE e da coleção urbana da Mindse7. A previsão é reformar entre 25 e 30 lojas com esse novo conceito ainda este ano, mais que o dobro do ano passado. Inicialmente, o foco está em praças como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife, contou o executivo. — A primeira onda está bem concentrada nas principais capitais do país, nas lojas mais icônicas da C&A porque queremos atingir o maior número de pessoas com esse conceito novo — explicou Corrêa. — Mas teremos uma segunda onda ano que vem e no outro, também.