Com a sanção da Lei nº 15.357/2026 no fim de março, que autoriza a instalação de farmácias completas dentro de supermercados e atacarejos, grandes redes do varejo alimentar já se movimentam para ocupar esse espaço. O Assaí planeja abrir 25 lojas-piloto até dezembro, com as primeiras inaugurações previstas para julho em São Paulo. O Cencosud Brasil prepara a integração do modelo ao interior de redes como Prezunic e Giga Atacado. Do outro lado, redes farmacêuticas tradicionais como Panvel e Pague Menos observam o avanço com ceticismo e reforçam estratégias próprias de serviços e digitalização. A nova legislação abre uma disputa bilionária pelo bolso do consumidor brasileiro, redesenhando a lógica de frequência e fidelização no varejo. Para grupos como Assaí e Cencosud, a mudança representa uma frente de crescimento baseada na diluição de custos fixos e no alto fluxo de clientes, integrando saúde e consumo no mesmo ponto de venda. O Assaí Atacadista é um dos varejistas que se moveu com maior agilidade após a sanção. Sob o projeto “Mundo Saúde”, a rede planeja abrir 25 lojas piloto até dezembro de 2026. “Estou agregando uma venda maior naquele metro quadrado e diluindo despesas de estacionamento, ar-condicionado e estrutura que eu já tenho”, afirma Sérgio Leite, diretor executivo de operações e novos negócios da Assaí Atacadista em entrevista ao Valor. Segundo o executivo, o grupo vê potencial para expandir o modelo para mais de 250 das 300 unidades da rede. “A farmácia nasce quase como um setor dentro da nossa loja”, diz. A Cencosud Brasil, que opera farmácias sob a bandeira GBarbosa há 25 anos em áreas externas às lojas, agora planeja integrar o modelo ao salão de vendas de redes como Prezunic e Giga Atacado. Com a nova legislação, as unidades funcionarão em espaços separados, mas conectados à área de compras, em um formato inspirado na operação já consolidada do grupo no Chile. Antes de avançar sobre esse segmento, porém, os supermercados terão de enfrentar um ambiente regulatório exigente. A Lei nº 15.357/2026 determina que as farmácias instaladas em supermercados operem nos moldes de uma drogaria tradicional - com presença obrigatória de farmacêutico em tempo integral e observância à RDC 44/2009, resolução da Anvisa que estabelece as boas práticas para funcionamento de farmácias e drogarias. Em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, as autoridades sanitárias já reforçam que as unidades devem ter licenciamento próprio e ambientes com controle rigoroso de temperatura e umidade. Em Minas, a Anvisa estadual sinaliza que o cumprimento integral da RDC 44/2009 será verificado nas inspeções sanitárias. No Rio, o IVISA-Rio detalha que medicamentos sujeitos a controle especial só podem ser dispensados após o pagamento ou transportados em embalagens lacradas até o caixa. Essa exigência regulatória é usada pelas grandes redes de farmácias para relativizar o impacto da nova concorrência. A Pague Menos afirma estar alinhada ao posicionamento da Abrafarma, que considera a lei um avanço por manter a exigência de assistência farmacêutica e rastreamento rigoroso dos medicamentos. “O projeto atende a pontos fundamentais como assistência farmacêutica contínua e segurança no rastreamento de medicamentos”, afirma Sergio Mena Barreto, presidente da associação. O supermercado que quiser fazer direito terá que montar um time especializado” O ceticismo mais articulado vem da Panvel. Júlio Mottin Neto, presidente da rede, afirma que tentativas anteriores de grupos como Walmart e GPA no setor farmacêutico fracassaram porque “a gestão de estoques e a cadeia de fornecedores são mundos completamente diferentes”. Segundo ele, supermercados que quiserem operar no segmento “terão que montar um time especializado”. O executivo também questiona a conveniência do modelo. “Quando você sai do médico, é mais fácil ir a uma farmácia, estacionar na frente e comprar, do que entrar em um supermercado.” Enquanto isso, a Panvel acelera uma estratégia de diferenciação em áreas onde os supermercados ainda têm pouca atuação. Hoje, quase 30% das vendas da rede são digitais e a companhia detém mais de 40% do mercado de vacinas na região Sul, com gestão de carteiras de vacinação digitais pelo aplicativo. A categoria de beleza responde por fatia relevante do negócio, e os medicamentos GLP-1 (Ozempic e Mounjaro), que impulsionam o mercado farmacêutico nacional, já representam cerca de 9,5% do faturamento total da rede. Esse portfólio de serviços e categorias de alta especialização é o que, na visão da Panvel, separa uma drogaria de um corredor de medicamentos dentro de um hipermercado. Do lado dos supermercados, a análise independente reforça que o modelo favorece quem já tem escala. “A exigência de farmacêutico adiciona um custo fixo relevante. Para grandes redes isso é contornável pelo fluxo, mas para o restante do mercado vira uma decisão de alocação de capital sensível”, avalia Ana Paula Tozzi, CEO da AGR Consultores. A consultora estima que a pressão competitiva mais visível ocorra entre 18 e 36 meses, à medida que as implantações ganham escala e o consumidor incorpora o hábito de comprar medicamentos junto com a cesta de alimentos. No médio prazo, o modelo pode evoluir para o conceito de plataforma de serviços, incluindo clínicas de saúde básica e exames. O cenário aponta para uma convergência onde o varejo de alimentos se torna mais “saudável” e as farmácias se tornam mais “conveniência”, redesenhando a lógica de frequência e fidelização do consumidor brasileiro, e revelando, no processo, que a maior ameaça a ambos os lados talvez seja a ineficiência operacional, não a concorrência em si.