Em meio à expectativa de votação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6x1, o PL, partido da família Bolsonaro e principal opositor ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mudou o discurso sobre a redução da jornada de trabalho - antes crítico - e passou a defender um modelo ainda mais amplo de descanso para os trabalhadores: o 4x3. Nesse modelo, o trabalhador teria quatro dias de trabalho e três de folga por semana. Governistas veem a mudança como uma estratégia da oposição para atrasar a votação da PEC, prevista para esta quarta-feira (27) na Câmara dos Deputados. O texto está em análise na comissão especial e pode ser levado ainda hoje ao plenário. O posicionamento em defesa da escala 4x3 foi anunciado pelo líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), durante discurso na tribuna, ontem, ao lado de parlamentares da bancada. Sóstenes afirmou que o partido apresentará um destaque para que o plenário vote a adoção da escala 4x3 e disse que a legenda quer “ver os petistas colocando a digital” na proposta. Segundo Sóstenes, o partido é favorável à redução da carga de trabalho e ao aumento do período de descanso dos trabalhadores, mas acusou o governo federal de agir de forma “oportunista” no debate. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) também passou a defender publicamente a votação da escala 4x3, mas sem esconder que trata-se de uma estratégia política para desgastar o governo federal. Em vídeo divulgado na rede social X, o parlamentar afirmou que o PL pretende apoiar a medida para ver se o PT apoia eventual mudança que, segundo ele, poderia provocar uma crise econômica. Nikolas afirmou que a “esquerda tenta vender a ideia” de que a mudança na jornada não teria impactos econômicos e disse que o PL quer antecipar os efeitos da proposta antes das eleições. “Se o PT concordar em colocar 4x3 de forma vigente no outro dia, aí o Brasil quebra”, declarou o parlamentar, acrescentando que a legenda quer demonstrar à população que o governo estaria defendendo uma medida “eleitoreira”. Governistas veem o movimento como uma tentativa da oposição de atrasar a votação da PEC. Autora da proposta, a deputada Erika Hilton (Psol-PL) criticou à mudança de posição do PL em entrevista à CNN. "É mais uma manobra do partido que foi o tempo todo contrário à matéria e trabalhou para não avançar o texto", afirmou. Ainda segundo a deputada, os parlamentares de oposição têm sido cobrados pela sociedade. A mudança de discurso, acusou, seria uma "tentativa de limpar a própria barra". "Vamos ver se manterão essa posição até o final, mas isso é claramente uma manobra para tentar atrasar a votação que já está acordada", declarou ao canal de tv. Flávio defendeu remuneração proporcional à horas trabalhadas Na semana passada, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) havia criticado a proposta de redução da jornada de trabalho defendida pelo governo federal e proposto outra alternativa: um modelo de remuneração proporcional às horas trabalhadas. Segundo Flávio, a proposta discutida pela bancada do PL prevê que trabalhadores possam escolher cargas horárias diferentes, mantendo direitos trabalhistas proporcionais. “Quem quer trabalhar mais, ganha mais. Quem precisa de menos horas — para estudar, cuidar dos filhos ou da saúde — tem essa liberdade”, afirmou o senador à jornalistas na ocasião. Redução de 44h para 40h semanais e transição de um ano A proposta em discussão na Câmara prevê uma transição gradual para a redução da jornada semanal. Após acordo entre o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o presidente Lula, ficou acertado que a mudança ocorrerá em duas etapas ao longo de um ano. A carga semanal cairia inicialmente de 44 para 42 horas, cerca de 60 dias após a promulgação da PEC. A segunda etapa reduziria a jornada para 40 horas semanais dentro de um prazo de 12 meses. Como contrapartida ao setor produtivo, a negociação também prevê mecanismos voltados aos microempreendedores, incluindo flexibilização nas contratações e possível reajuste do teto de faturamento do MEI, atualmente fixado em R$ 81 mil anuais. O texto está em análise na comissão especial da Câmara e deve ser votado no plenário entre esta quarta-feira (27) e quinta-feira (28). Caso aprovado pelos deputados, seguirá para análise do Senado Federal. Se os senadores fizerem alterações no conteúdo da PEC, a proposta precisará retornar à Câmara para nova votação. Motta afirmou na terça-feira (26) que acredita haver ambiente político para a aprovação da matéria no Congresso e disse confiar na “sensibilidade” do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para conduzir o tema. Setor produtivo prevê aumento de custos Uma das principais críticas do setor produtivo à proposta é que a redução da jornada de trabalho, sem queda nos salários, implicaria aumento de custo para as empresas. Outro ponto defendido é que a elevação de gastos depende de ganhos de produtividade para ser sustentável, mas não há movimento para resolver o problema da falta de qualificação da mão de obra. Uma das consequências, segundo os críticos da proposta, é que o custo maior com funcionários terá que ser repassado para os consumidores, gerando pressão inflacionária, além de reduzir a competitividade do produto brasileiro no mercado externo — principalmente em setores mais intensivos em mão de obra. A proposta de redução não contempla as peculiaridades de cada setor, apontam empresas e entidades empresariais.