Houve um tempo em que punir era escrever no corpo. O castigo se inscrevia na carne e se tornava visível, associado à autoridade e à demonstração de força. Com o tempo, a pena assumiu outra forma, e a liberdade passou a ocupar o centro da sanção. A prisão estruturou a resposta estatal segundo critérios de duração, medida e controle, deslocando o corpo desse lugar e estabelecendo limites à atuação do poder punitivo.

No século 20, contudo, sempre que o Estado ampliou seu controle sobre determinados grupos, o corpo voltou ao centro. Isso se verificou em sistemas prisionais, como nos experimentos com malária na prisão de Stateville, nos Estados Unidos, em que pessoas presas foram deliberadamente infectadas para testar drogas antimaláricas no contexto do esforço militar; em instituições psiquiátricas na União Soviética, nas quais dissidentes foram internados e submetidos a tratamentos experimentais; e, de forma extrema, nos campos de concentração, onde o corpo foi reduzido à condição de matéria disponível.

Em todos esses contextos, tratava-se de pessoas sob custódia estatal, submetidas a intervenções justificadas em nome da ciência, da ordem ou do interesse coletivo. Os horrores foram muitos e a história permanece como registro.