As ações da Ferrari caíram quase 8% depois que o visual de seu primeiro veículo totalmente elétrico foi duramente criticado, um revés para a controversa incursão da fabricante italiana de supercarros no mercado de veículos elétricos. O lançamento do Ferrari Luce, de € 550.000 (US$ 640.000) ou R$ 3,2 milhões, gerou reações amplamente negativas tanto de analistas do setor quanto de influenciadores das redes sociais, que compararam o design do carro de quatro portas e cinco lugares aos veículos elétricos de massa. Para o Luce, a Ferrari se afastou do estilo associado ao chefe de design Flavio Manzoni e contratou o ex-chefe de design da Apple Jony Ive para projetar o veículo. O carro parece uma “mistura entre um Honda Accord EV e um Tesla 3”, escreveu Pierre-Olivier Essig, chefe de pesquisa da AIR Capital, em uma nota. “Estamos perdidos na tradução da nova estratégia da Ferrari.” O lançamento também ocorre em um momento em que a demanda por veículos elétricos de luxo se tornou mais difícil de prever e alguns rivais, como a Lamborghini e a Porsche, desaceleraram seus planos de eletrificação, alegando falta de interesse de compra. A queda no preço das ações ocorreu após uma apresentação em Roma que marcou a etapa final de uma revelação em três fases do EV, que começou no ano passado com a tecnologia central do carro e, posteriormente, mostrou seu interior. Após cair até 7,8% no início das negociações em Milão, as ações estavam 6,4% mais baixas às 13h37, a maior queda desde outubro. A empresa está avaliada em € 53 bilhões. Benedetto Vigna, CEO da Ferrari — Foto: Bloomberg Embora o design do carro tenha decepcionado muitos, dirigi-lo ainda pode gerar opiniões diferentes. O Luce entrega o equivalente a pouco mais de 1.000 cavalos de potência e acelera de 0 a 100 km/h em 2,5 segundos, mais rápido que o SUV Purosangue da Ferrari equipado com motor V12. Sua velocidade máxima ultrapassa os 310 km/h. “A Ferrari não embarcou nisso às cegas, e sabemos que o Luce despertou muita curiosidade”, escreveram analistas da Bernstein liderados por Stephen Reitman em uma nota. Ele acredita que há clientes e colecionadores da Ferrari, antigos e novos, suficientes “para garantir que o Luce consolide firmemente sua posição dentro da linha da Ferrari”. Ainda assim, a reação inicial se soma a erros recentes da Ferrari, que no ano passado apresentou metas de longo prazo que decepcionaram investidores e levantaram dúvidas sobre como a empresa equilibrará a tecnologia elétrica com os modelos de motor a combustão, que continuam centrais para a marca. O plano da Ferrari para 2030 reduziu pela metade a participação esperada de carros totalmente elétricos, para 20% da linha, enquanto projeta o dobro desse percentual para modelos movidos a combustão. Caso de teste Desenvolvido com Jony Ive e Marc Newson na LoveFrom, o coletivo criativo fundado pelo ex-chefe de design da Apple responsável pelo iPhone e pelo Apple Mac, o Luce apresenta superfícies suaves e menos detalhes visuais, refletindo a influência de Ive e marcando uma ruptura com o estilo tradicionalmente musculoso da Ferrari. Trata-se de um grande teste: a Ferrari precisa mostrar que um carro elétrico pode se encaixar em seu modelo de oferta limitada, preços elevados e apelo emocional, ao mesmo tempo em que expande a linha para além dos tradicionais carros esportivos de dois e quatro lugares. O preço do veículo sugere que o CEO Benedetto Vigna não tem intenção de sacrificar a exclusividade da marca para aumentar o volume de vendas. O carro mostrará se a fórmula da montadora italiana funciona sem o ronco de um motor a combustão interna, especialmente em um momento em que o valor de revenda dos veículos elétricos ainda preocupa compradores ricos que procuram supercarros capazes de manter ou até aumentar seu valor ao longo do tempo. A Lamborghini adiou seu primeiro veículo elétrico, destacando como tem sido difícil para fabricantes de carros de luxo convencer clientes a abrir mão do barulho e da sensação física proporcionados pelos motores a combustão. Mate Rimac, fundador do Rimac Group, afirmou no ano passado que a demanda por hipercarros de alto padrão com motorização elétrica gira em torno de apenas 10 veículos por ano. A Ferrari tem repetidamente afirmado que continuará oferecendo aos clientes opções entre motores a combustão, híbridos e elétricos. Sua estratégia continua focada na combinação de produtos, personalização e distribuição disciplinada, em vez de simplesmente vender mais carros. Essa disciplina é central para o modelo de negócios da Ferrari. Assim como outras marcas de luxo bem-sucedidas, como Hermès International e Rolex, a empresa há muito tempo depende de listas de espera e de uma oferta cuidadosamente controlada para preservar a exclusividade. A escassez não é um efeito colateral do negócio, mas uma ferramenta usada pela Ferrari para sustentar a demanda e os preços. Esse modelo protegeu a Ferrari dos desafios enfrentados por montadoras europeias de maior volume, que lutam para competir com a entrada de veículos elétricos chineses mais baratos. A empresa italiana possui o maior valor de mercado entre todas as montadoras europeias, apesar de produzir menos de 14 mil carros por ano — muito abaixo dos quase 9 milhões produzidos pela Volkswagen anualmente. Ainda assim, suas ações caíram 31% nos últimos 12 meses devido às preocupações com a força da demanda global por produtos de luxo. A Ferrari apresentou o Luce não como uma concessão às regras ou aos concorrentes, mas como uma tentativa de provar que a tecnologia elétrica pode entregar o desempenho e o caráter que os admiradores da marca exigem. A mensagem da empresa é que a eletrificação deve oferecer novas possibilidades de design e condução, em vez de simplesmente substituir um motor por uma bateria. “O Ferrari Luce não é uma resposta à mudança”, declarou o presidente executivo John Elkann aos jornalistas durante uma apresentação no domingo. “É uma decisão deliberada de liderar o que vem a seguir.” A Ferrari escolheu um cenário simbólico para revelar o Luce: a Vela di Calatrava, a estrutura em forma de vela projetada pelo arquiteto e engenheiro espanhol Santiago Calatrava, no distrito de Tor Vergata, nos arredores de Roma. O cenário combinava com a grandiosidade do lançamento. A Ferrari levou mais de 200 jornalistas do mundo inteiro a Roma para a apresentação. A montadora organizou dois jantares de gala na segunda e na terça-feira, com 800 clientes em cada evento, segundo a empresa. Os compradores já puderam começar a fazer pedidos a partir de segunda-feira. Mudança de estilo O uso incomum do vidro é uma das características marcantes do Luce. A Ferrari descreveu o carro como uma “casa de vidro”, uma forma semelhante a uma concha que se estende abaixo da linha da carroceria até as extremidades do veículo. O Luce é mais suave visualmente, mas também mais familiar: seu formato envidraçado e minimalista se aproxima dos estilos que estão se tornando comuns entre os veículos elétricos. Isso aumenta a pressão sobre a experiência de condução. Apesar de toda a tecnologia que a Ferrari incorporou ao Luce, o carro causa uma primeira impressão relativamente discreta. A Ferrari aposta que a agilidade, o som e a resposta do veículo na estrada farão aquilo que o design sozinho talvez não consiga: fazer um carro elétrico de cinco lugares parecer inconfundivelmente uma Ferrari. "Tivemos que começar pela Ferrari, não pela tecnologia elétrica”, disse Vigna. “Tivemos que começar pela dimensão humana.” O Luce é equipado com quatro motores elétricos, um para cada roda, além de um conjunto de baterias de alta voltagem projetado e construído em Maranello, cidade natal da Ferrari. A plataforma elétrica permitiu à Ferrari acomodar cinco assentos pela primeira vez, algo impossível com sua configuração tradicional de transaxle, na qual um motor dianteiro-central é combinado com uma transmissão traseira. O Luce também terá um porta-malas de 600 litros, espaço potencialmente suficiente para duas bolsas de golfe ou três malas grandes. O formato do carro se aproxima mais de modelos elétricos GT de alto desempenho, como o Taycan da Porsche, do que de hipercarros elétricos de dois lugares, embora o posicionamento de luxo e o modelo de escassez da Ferrari tornem a comparação imperfeita. A maioria das versões do Taycan custa muito menos do que o preço esperado do Luce. O som é outro grande desafio. A Ferrari afirmou ter dedicado cinco anos e 40 mil quilômetros de testes em pista para desenvolver o caráter acústico do carro. Em vez de imitar artificialmente o ronco de um motor a combustão, a empresa capta o zumbido dos motores elétricos por meio de um sensor no eixo traseiro e depois processa e amplifica esse som. Essa abordagem busca responder a uma das principais dúvidas sobre qualquer Ferrari elétrica: se uma marca historicamente definida pelo ronco de seus motores conseguirá preservar sua conexão emocional sem o som de um motor a combustão.