Enquanto seus rivais no segmento de carros esportivos pisam no freio na transição para veículos elétricos, a Ferrari dará um salto rumo a uma era incerta nesta segunda-feira (25), com o lançamento de seu primeiro carro totalmente elétrico. Com velocidade máxima de 310 km/h, o Luce, modelo de quatro portas da Ferrari — “luz” em italiano — terá preço superior a 500 mil euros (US$ 586 mil). O estúdio LoveFrom, do ex-designer da Apple Jony Ive, participou do desenvolvimento do Luce, que fontes descrevem como um carro grande e com visual distinto dos modelos tradicionais da Ferrari. “É um risco e uma espécie de aposta”, disse Phil Dunne, diretor-gerente da consultoria Grant Thornton Stax. “Mas é algo positivo porque eles estão liderando o caminho.” A apresentação do aguardado Luce, em Roma, encerra anos de preparação, desde os primeiros sistemas híbridos da Fórmula 1 há mais de uma década até os modelos de rua lançados desde 2019. As primeiras entregas aos clientes começarão em outubro, informou a empresa no ano passado. A Ferrari investiu pesadamente em eletrificação sob o comando do diretor-presidente, Benedetto Vigna, tendo inclusive inaugurado um prédio dedicado ao desenvolvimento de tecnologia elétrica, chamado de “e-building”, na sede da companhia em Maranello, na Itália. Guinada elétrica O Luce chega em um momento de dúvidas sobre carros esportivos elétricos. A própria Ferrari adiou planos para um segundo modelo elétrico para pelo menos 2028 devido à fraca demanda, informou a Reuters no passado. Já sua rival italiana Lamborghini abandonou a ideia de lançar um modelo elétrico em 2030, citando falta de interesse dos clientes. Felipe Munoz, da Car Industry Analysis, disse que a Ferrari não espera que o Luce seja um grande vendedor, mas sim uma declaração de posicionamento, enquanto rivais chineses lideram o mundo no desenvolvimento de novos veículos elétricos chamativos. “Talvez você não precise de um supercarro elétrico agora. Mas a eletrificação veio para ficar, e a Ferrari precisa agir — ela precisa definir como será a eletrificação de luxo antes que outra empresa faça isso”, afirmou Munoz. O desafio da Ferrari é preservar sua identidade com uma tecnologia totalmente nova, enquanto marcas tradicionais de alto desempenho enfrentam as limitações das baterias, que são pesadas e não oferecem a potência contínua nem o apelo visceral dos motores a combustão. Quando a Ferrari revelou a tecnologia do Luce em outubro, ela incluiu um sistema de som especialmente projetado para amplificar as vibrações do conjunto motriz e criar um som elétrico característico da Ferrari, em vez de um ruído artificial de motor. “As três coisas que todos sempre associam à Ferrari são sua aparência, seu som e sua sensação ao dirigir”, disse Dunne, da Grant Thornton Stax, acrescentando que migrar para o elétrico significa “acertar essas características de uma forma diferente”. Recentemente, a Ferrari reduziu suas metas de eletrificação. Os carros totalmente elétricos deverão representar 20% de sua linha até 2030, abaixo da meta anterior de 40%. A montadora também continuará produzindo modelos híbridos e tradicionais com motores de combustão interna. Ampliando o alcance O Luce pode ajudar a Ferrari a alcançar a próxima geração de compradores endinheirados, mais abertos aos veículos elétricos, à medida que os altos preços da gasolina devido à guerra no Irã também aumentam o apelo dos elétricos. Vigna disse em fevereiro que a Ferrari abriria as pré-encomendas do Luce em março após um retorno inicial “muito positivo” dos clientes. E, embora nem todos os fãs da Ferrari talvez sejam convencidos, a montadora espera que uma geração mais jovem queira possuir um modelo. “Certamente não agradará toda a base de clientes da Ferrari”, disse Dunne. “Mas agradará alguns.” — Foto: DanRais/Pixabay