Se a Ferrari queria chamar a atenção do mundo com o Luce, seu primeiro carro totalmente elétrico, a missão foi cumprida — mesmo que grande parte da reação tenha sido de choque e desaprovação. O novo modelo é um carro familiar de quatro portas e cinco lugares que não se parece em nada com os tradicionais esportivos e movidos a gasolina da marca italiana. Ele foi apresentado em um evento de gala em Roma no fim da segunda-feira e, no dia seguinte, exibido ao presidente italiano, Sergio Mattarella, e ao Papa Leão XIV, conhecido entusiasta de carros, que aparentemente ficou feliz em assumir o banco do motorista. Mas o design, em grande parte obra dos “outsiders” da indústria automotiva Jony Ive e Marc Newson e de seu coletivo LoveFrom, deixou muitos fãs da marca perplexos. Ive é mais conhecido como o designer dos iPhones e MacBooks da Apple. As redes sociais estão repletas de memes desfavoráveis, comparando o Luce a um aspirador de pó, um tamanco de borracha ou ao muito criticado Fiat Multipla, uma minivan dos anos 1990 frequentemente citada entre os carros mais feios do mundo. O vice-primeiro-ministro italiano, Matteo Salvini, questionou publicamente o que o fundador Enzo Ferrari, morto em 1988, acharia do modelo. O ex-diretor-presidente da Ferrari Luca Cordero di Montezemolo disse que o carro deveria ser privado do logotipo do cavalo rampante. Os investidores também recuaram. As ações da Ferrari listadas em Milão caíram 8,4% na terça-feira, com um investidor dizendo à Reuters que o papel estava “sendo penalizado por uma decepção estética”. A Ferrari se recusou a comentar a repercussão negativa. Toda publicidade é boa publicidade? Felipe Munoz, da Car Industry Analysis, disse que a Ferrari provavelmente antecipou a controvérsia, dado o rompimento deliberado com a tradição, e observou que publicidade negativa ainda é publicidade. “Do ponto de vista da comunicação, eles conseguiram fazer o mundo inteiro falar sobre a Ferrari elétrica”, disse ele. “Em termos de notoriedade, eles conseguiram, porque não existe outro assunto no momento.” Munoz descreveu o Luce como um “produto de afirmação” — pouco provável de ser um grande sucesso de vendas, mas essencial para demonstrar tecnologia e reposicionar a Ferrari na era elétrica. Uma fonte da empresa observou anteriormente que outras apostas ousadas da Ferrari — o FF com tração nas quatro rodas em 2011 e o SUV Purosangue em 2022 — também despertaram ceticismo antes de venderem bem. O analista global do setor automotivo do HSBC, Michael Tyndall, disse que a Ferrari talvez esperasse levantar sobrancelhas, mas não provocar uma reação tão forte do mercado. “Há uma sensação, ouvindo a administração, de que ela se sentiu compelida a assumir um risco dado que isso representa um afastamento tão grande do DNA central da marca (4 portas, 5 lugares, elétrico)”, escreveu ele. “Os pedidos serão o principal determinante para saber se o risco valerá a pena.” Luce, da Ferrari — Foto: Reprodução/Ferrari