Estou num beco sem saída no Martim Moniz. Hesito antes de avançar, enquanto confirmo a localização no telemóvel. Levanto os olhos do ecrã. À minha direita vejo um spa de massagens tailandesas e ao seu lado um café do Bangladesh. Franzo o sobrolho e olho para trás - não pode ser aqui.Não muito longe, ecoa o som de um saxofone. Viro-me, e à minha esquerda, dou de caras com um longo corredor grafitado escondido entre prédios gastos. Sorrio: cheguei ao Prisma.Cumprimento o segurança e avanço pelo corredor. Numa das mesas de esplanada, a Joana e o André baralham cartas enquanto enrolam cigarros, preparando mais uma ronda de “pepe-rápido”. No bar, o João serve-me uma imperial enquanto me atualiza sobre a sua carreira de ator, e mostra-me alguns dos seus poemas para ler mais logo.Ao fundo da sala, um pequeno grupo de músicos acumula-se à volta de guitarras, pedais e cabos espalhados pelo chão. Escrevem os seus nomes num quadro, como alunos numa sala de aula. Sorrio ao Guilherme, a afinar a guitarra clássica, e ao Hélder na bateria. Um a um, preparam-se para subir ao palco improvisado sobre um manto vermelho no chão.Lembro-me da primeira vez que aqui entrei, e da facilidade em sentir-me intrigada pela atmosfera do corredor barulhento, onde todos se cumprimentavam, como quem regressa a uma rotina antiga. Sentada numa das cadeiras do bar admirei de longe os jovens artistas. Nesse dia decidi que iria participar.“As pessoas estavam sempre cá. Nós é que não sabíamos”, disse-me o meu amigo André enquanto o João nos servia duas canecas ao bar.Tinham-nos conhecido há pouco tempo, num clube de xadrez. Agora estávamos os dois encolhidos, nas nossas cadeiras altas, à espera que a noite avançasse. À medida que o corredor enchia, o João sorria e cumprimentava quase todas as pessoas pelo nome. Retribuíam a energia com carinho, também se lembravam dele.Às tantas, uma rapariga sentou-se connosco no bar. Joana, apresentou-se. Também estava à espera de alguns amigos, já era veterana do Prisma. Partilhamos o amor pelos poemas do João, músicos bonitos e fotografia. Acabamos a jogar cartas o resto da noite. Uma rotina que mantemos todas as semanas.Lembro-me da primeira vez que fotografei no Prisma. Tinha uma câmara no quarto que não usava há meses e decidi levá-la para uma noite de jam.Estava nervosa e o flash encadeava a cara dos músicos de tal forma que o meu peito contraía de nervosismo sempre que o acionava. Lembrava-me do meu pai, também músico, sempre a refilar com os turistas que o filmavam nas casas de fado, por levar com a luz dos telemóveis nos olhos. Mas, para minha surpresa, as pessoas gostaram.No final da noite, um guitarrista perguntou-me se gostaria de colaborar como fotógrafa para o seu projeto musical. Quase balbuciei: “Não sou artista, não como tu”. Mas apercebi-me nesse momento que era. Era porque me estava a atrever a participar.Aos poucos apercebi-me que este é um dos poucos espaços em que ninguém precisa de se provar, só de aparecer. E à medida que fui aparecendo, o espaço deixou de me parecer intimidante. Passei a percorrer o corredor a sorrir a várias caras, e a pertencer num lugar que me reconhecia. Chamava pelo meu nome sem eu ter de o repetir.Para mim, o associativismo não resolve a solidão. Mas cria lugares onde ela não é o ponto de partida. Num tempo em que tanto se fala de isolamento e desconexão, talvez isso seja o mais importante: não eliminar a solidão, mas torná-la habitável.Sítios como esta são a prova de que, no meio de uma cidade onde tantos se sentem sozinhos, continua a existir uma vontade persistente de colaborar, ouvir e participar. E talvez seja precisamente aqui que a minha geração mais contradiz a imagem que tantas vezes fazem dela. Não somos uma geração desligada do mundo. Estamos apenas à procura uns dos outros.
O associativismo pode salvar a minha geração da solidão?
Num corredor grafitado no Martim Moniz, é difícil não pensar na forma como a minha geração tem sido descrita: isolada. Aqui, encontro algo que não sei bem nomear — aproxima-se de pertença.















