Um em cada oito jovens da Geração Z considera navegar nas redes mais prazeroso do que a atividade sexual TopSphere Media — Foto: Unsplash Caetano Veloso já tinha mais de 40 anos quando transformou verbo em substantivo e fez disso um título: “O quereres”. A música, lançada no começo dos anos 1980, entrou para o olimpo do cancioneiro popular por conseguir descrever com poesia uma das tensões centrais da condição humana: somos guiados por uma máquina insaciável de desejos, boa parte das vezes, contraditórios. E apesar das diferenças (de classe, gênero ou de geração) todos vivemos tensionados pela “bruta flor do querer”. Do Leblon a Pernambuco, de fevereiro à Quaresma, os quereres seguem firme e apontam um movimento e direção. Pelo menos, era assim até pouco tempo. Na mesma época, os jovens ingleses também se negavam a não falar das flores apesar das circunstâncias. A Inglaterra da Revolução Industrial, inventora do maior império da História Moderna, no fim dos anos de 1970, viu suas certezas desmoronarem uma a uma. Foi nesse caldo que os Sex Pistols lançaram “God save the Queen” e vaticinaram “we’re the flowers in the dustbin / we’re the future, your future.” Isto é, as flores no lixo, descartadas pela sociedade, seguiam crescendo, ainda férteis por dentro. Havia querer ali. É com surpresa que acompanho a apatia dos mais jovens com os rumos do mundo. Eles não têm a raiva dos Sex Pistols, nem os quereres de Caetano. A revista Vice, especializada no comportamento das novas gerações, batizou o fenômeno de The Great UnWanting: a grande ausência de desejo. Não é um cansaço passageiro, mas um desinvestimento coletivo e ativo de um pacote de promessas vendido por décadas como roteiro obrigatório da vida adulta bem-sucedida: carreira estável, bens de sucesso, consumo hedonista e questionamento ruidoso dos padrões criados pelos mais velhos. Hoje, vemos tudo sendo deixado de lado sem qualquer barulho ou manifesto, mas na toada dos sussurros. Um dos lugares onde o Great UnWanting se torna mais revelador (e mais contraintuitivo!) é o no campo dos desejos e das relações. Apesar de ser a geração que cresceu mais exposta ao sexo, à liberdade individual e à hiperconexão da História, a geração Z está transando menos, se relacionando com mais ansiedade e substituindo experiências presenciais por estímulos digitais rápidos e constantes. Um estudo realizado com dois mil jovens nos Estados Unidos mostrou que 39% da geração Z afirmam preferir redes sociais ao sexo pelo menos ocasionalmente. Um em cada oito considera navegar nas redes mais prazeroso do que a atividade sexual. Duas razões ajudam a entender esse movimento do não querer. A primeira é a aversão ao risco. Uma geração que cresceu dentro de crises (financeiras, climáticas, pandêmicas, políticas) aprendeu, na prática, que apostar alto é uma estratégia cara. O sistema não entrega o que promete. Trabalhar muito não garante estabilidade. Formar família não garante felicidade. Diante de um catálogo de promessas quebradas, dar um passo atrás é escolha mais segura. É o cálculo de quem foi ensinado, pela experiência repetida, que o risco raramente compensa. A segunda razão é mais sutil e mais perturbadora: a dificuldade de nomear o que se quer. Os jovens de antes sabiam o que recusavam, e a recusa os impulsionavam; a geração Z nega, mas não encontra o nome do que deseja no lugar. Sorte a deles. Onde não queres nada, nada falta.