Celebra-se este domingo, 17 de Maio, o Dia da Internet, uma data que convida a reflectir sobre o impacto profundo que a rede global tem no quotidiano, na estrutura social e no dinamismo económico. Desde o registo do primeiro domínio nacional, em 1991, o panorama tecnológico português sofreu transformações radicais, evoluindo de um ecossistema restrito aos círculos académicos para uma infra-estrutura crítica que ultrapassou recentemente a marca histórica dos dois milhões de endereços registados. No entanto, esta expansão acelerada tem sido acompanhada de desafios geopolíticos, cibernéticos e sociais que exigem uma análise atenta e coordenada entre os diversos actores do sector.Em entrevista, Luísa Ribeiro Lopes, presidente do .PT, analisa o trajecto da rede em Portugal e perspectiva os riscos reais de fragmentação do espaço digital à escala global. Ao longo da conversa, são abordadas as assimetrias na literacia digital da população portuguesa — que ameaçam a coesão social e deixam os grupos mais vulneráveis expostos a fraudes —, bem como as barreiras que as micro e pequenas empresas enfrentam no processo de modernização tecnológica. A responsável máxima pela entidade que gera o domínio associado a Portugal destaca ainda como o .pt é selo de confiança e segurança essencial para a internacionalização da economia nacional no actual ambiente global, caracterizado por uma complexidade crescente.Olhando para o percurso histórico da internet em Portugal, que balanço faz do caminho percorrido desde o registo do primeiro domínio nacional?Tenho o privilégio de acompanhar de perto a evolução deste sector há já bastante tempo. O primeiro domínio com a extensão .pt foi registado no ano de 1991, numa altura em que a internet era uma realidade restrita a meios académicos e científicos. Mais tarde, assistimos ao fenómeno do ano 2000, um verdadeiro período de expansão em que todas as organizações procuravam assegurar um lugar no espaço virtual, embora as ferramentas de criação de páginas fossem muito mais complexas e rudimentares do que as actuais.Com o passar dos anos, a própria indústria dos domínios transformou-se profundamente. Hoje, a prioridade já não está apenas na angariação de novos registos, mas sim na manutenção e na segurança dos endereços existentes, garantindo que operam sobre uma infra-estrutura de total confiança. O mundo actual é radicalmente diferente daquele que assistiu ao nascimento da rede. A tecnologia deixou de ser uma ferramenta acessível a um grupo restrito de privilegiados e tem de ser encarada como um bem público essencial, que deve estar ao serviço de todos, sem excepção.Mas não considera que esse objectivo de democratizar o acesso à informação de qualidade acabou, em larga medida, frustrado com o que se tem assistido, sobretudo, nos últimos anos?É impossível não partilhar de um certo sentimento de frustração. A promessa inicial da internet centrava-se na democratização do conhecimento e de redução das assimetrias sociais. No entanto, o que constatamos, especialmente nos anos mais recentes, é que a tecnologia acabou por avançar muito mais depressa do que os mecanismos de regulação democrática e de justiça social. Tornou-se, em muitos casos, um acelerador de desigualdades económicas e um veículo propagador de desinformação à escala global. Sentimos essa mesma frustração quando olhamos para as metas dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável para 2030 e percebemos que o mundo dificilmente conseguirá cumprir os compromissos assumidos no combate à pobreza e às injustiças estruturais.Há soluções para corrigir o rumo?Apesar destes sinais de alerta, mantenho uma postura convicta de optimismo em relação ao futuro. Começa a desenhar-se, sobretudo no espaço europeu, uma forte consciencialização de que a tecnologia não é neutra e de que pode colocar em causa direitos humanos fundamentais se for deixada sem qualquer tipo de enquadramento ético. Temos de lutar para que o desenvolvimento tecnológico responda a um propósito humanista e não se submeta em exclusivo a imperativos de ordem mercantil.O que nos leva para a importância da sobrenada digital.A par do desafio da capacitação e da estabilidade económica, Portugal e a Europa enfrentam a questão crucial da soberania digital. A dependência excessiva que o nosso continente demonstra face a grandes blocos geopolíticos e tecnológicos externos tem de ser invertida com urgência. Dispomos de infra-estruturas de qualidade e de talento humano altamente qualificado; precisamos agora de capacidade de iniciativa para desenvolver soluções tecnológicas próprias, adaptadas aos nossos valores culturais e sociais. Isto não significa defender o isolamento ou a criação de barreiras artificiais na rede, até porque a internet é global por essência. Significa, sim, que não podemos abdicar da protecção dos dados pessoais dos nossos cidadãos nem permitir que informações estratégicas fiquem sob o controlo de plataformas estrangeiras que, a qualquer momento, podem adoptar directrizes contrárias aos nossos princípios democráticos. Há ainda muito por fazer, mas existe o conhecimento e a vontade política necessários para inverter este rumo e colocar a tecnologia ao serviço de uma sociedade mais justa.O acesso à internet não é igual em todo o mundo, existindo blocos onde a rede é controlada ou limitada. Tem-se falado muito sobre o risco de fragmentação. Corremos o perigo de ver desaparecer a internet tal como a conhecemos?Quando viajamos para determinados países fora do espaço ocidental, percebemos imediatamente que não temos acesso aos mesmos serviços e à mesma liberdade que dão estrutura ao nosso dia-a-dia. Portanto, a fragmentação da internet é um risco real e premente. A utilização aberta, livre, segura e democrática da rede, seguindo os moldes em que foi originalmente concebida, está seriamente ameaçada. Cabe a todos nós, que ainda defendemos estes valores fundamentais e que temos capacidade de intervenção, fazer ouvir a nossa voz. Todos os organismos de gestão de domínios têm uma palavra a dizer, o .pt tem uma palavra a dizer, e nós, enquanto cidadãos inseridos na sociedade civil, também temos esse dever.Existe um Fórum de Governação da Internet que trabalha de forma muito intensa estas matérias à escala global. Nesse espaço estão representados praticamente todos os países, integrando a academia, a comunidade técnica, os governos, as associações e a juventude. Temos de batalhar arduamente para manter a internet fiel à matriz inicial, que deve ser um espaço de partilha global. É nisso que acredito e é por esse desfecho que temos de continuar a lutar sem tréguas.As entidades nacionais partilham e valorizam essa visão europeia e ocidental da internet, ou nota-se a existência de sectores que prefeririam um modelo de rede mais controlado?Não vejo uma diferença significativa entre a realidade portuguesa e a de outros países europeus. Estamos integrados no espaço ocidental, um bloco onde estes valores de liberdade ainda constituem a regra. Contudo, importa reconhecer que o próprio espaço ocidental enfrenta hoje as próprias tentações. Se olharmos para o panorama em Portugal, sabemos que as grandes plataformas e os principais operadores de telecomunicações que gerem as redes, na maior parte, não são de capital inteiramente português. Como tal, a tentação económica para canalizar o tráfego para determinadas áreas em detrimento de outras, para filtrar conteúdos ou para desvirtuar a natureza neutra do digital, também se faz sentir por cá.Apesar dessas pressões, considero que a nossa infra-estrutura técnica, os nossos operadores e o público em geral continuam muito orientados para a defesa de uma internet livre, aberta e disponível para todos. O cenário muda de figura quando deixamos de falar da infra-estrutura e passamos a analisar os conteúdos, a literacia dos cidadãos e a capacidade individual para distinguir o que é verdadeiro do que é falso. A manipulação que hoje se verifica na rede é imensa. Todos sabemos que aquilo que surge nos ecrãs quando interagimos com o mundo digital não resulta do acaso. Os conteúdos aparecem de forma deliberada porque existem algoritmos desenhados para nos conduzir à leitura de determinadas temáticas, encerrando-nos em bolhas onde consumimos apenas o que estamos habituados a ver, ignorando tudo o resto. O enfraquecimento do pensamento crítico é um problema transversal ao mundo inteiro, e Portugal não é excepção. No nosso caso, o cenário é agravado por uma lacuna que menciono com frequência, que é a falta de capacitação digital generalizada da população.Ou seja, a literacia digital continua a ser um tema crítico para a sociedade portuguesa. Quais são as lacunas fundamentais em termos de competências para que a rede seja uma ferramenta de plena cidadania?Hoje em dia, a literacia digital é um requisito obrigatório para o exercício pleno da cidadania. Já não basta saber ler e escrever no sentido tradicional; é indispensável este acréscimo de competências tecnológicas. Embora os nossos jovens apresentem indicadores de literacia digital bastante positivos, posicionando-se inclusive acima da média europeia, a nossa sociedade em geral é profundamente desigual. E essas assimetrias sociais replicam-se de forma directa no ambiente digital. Não podemos esperar uma realidade virtual perfeita quando a estrutura social real é marcada por disparidades profundas e por um envelhecimento demográfico acentuado.Os dados estatísticos mostram que, na faixa etária entre os 65 e os 74 anos, o nível de competências digitais em Portugal se situa muito abaixo da média registada na Europa. Se analisarmos os sectores da população com menores índices de escolaridade ou menos habilitações literárias, constatamos que apenas 23 por cento possuem competências digitais consideradas básicas, o que representa um atraso civilizacional preocupante. Quando pensamos nas zonas rurais do interior do país, nos mais idosos ou nas mulheres inseridas em determinados contextos vulneráveis, a distância para os padrões europeus é enorme. É urgente canalizar esforços para a capacitação destes grupos mais frágeis. Sem ferramentas de compreensão e sem literacia digital, estas pessoas serão as primeiras a ser manipuladas pelas correntes de desinformação e ficarão expostas a burlas e fraudes na rede. O exercício da democracia faz-se hoje, em grande parte, no ecossistema digital. Se os cidadãos não conseguirem distinguir uma notícia real de uma falsidade fabricada, o processo democrático fica fragilizado e a manipulação torna-se um objectivo fácil de alcançar.Mas perante o poder avassalador dos algoritmos e das grandes máquinas das redes sociais, tentar levar a literacia digital à totalidade da população não corre o risco de ser uma causa perdida?Não considero de todo que seja uma causa perdida, mas é, sem dúvida, uma guerra complexa e com múltiplas frentes abertas. É uma batalha na qual temos a obrigação de apostar todos os recursos disponíveis. Olhando para trás, sou algo crítica em relação ao caminho que foi trilhado no país. Tem sido feito um investimento absolutamente extraordinário no desenvolvimento das infra-estruturas tecnológicas e na transição digital dos serviços públicos do Estado. No entanto, não se aplicou a mesma energia nem o mesmo volume de recursos na capacitação directa das pessoas.O mundo digital avança a uma velocidade estonteante e, com a introdução da inteligência artificial, essa aceleração tornou-se ainda mais agressiva. O resultado prático é que, se não acompanharmos este ritmo com formação humana, estaremos a acelerar também o fosso das desigualdades sociais. Se não se implementarem políticas públicas efectivas e direccionadas para a execução prática, destinadas a dar competências a quem se encontra em situação de exclusão, a sociedade portuguesa enfrentará problemas graves de coesão interna. O sucesso da transição digital não pode ser medido apenas pela sofisticação das redes ou pelos portais do Estado; se a atenção se centrar exclusivamente na infra-estrutura, o projecto global falhará porque deixará uma parte significativa da população para trás.Ouvindo estas palavras, fica-se com a sensação de que o trabalho do .pt esbarra invariavelmente na ausência de bases tecnológicas elementares por parte da população e dos líderes das pequenas empresas.É uma constatação inteiramente verdadeira. E a explicação reside no facto de o digital ter acelerado a um ritmo muito superior à capacidade de adaptação cultural da sociedade. Não observamos este fenómeno junto das camadas mais jovens, embora com os mais novos exista outro tipo de trabalho a desenvolver, centrado na segurança, no uso consciente dos algoritmos e no desafio de os transformar em criadores de tecnologia e não em meros consumidores passivos. Mas quando olhamos para a generalidade da população, percebemos que tudo bate sempre no factor humano. As empresas e as instituições são feitas de pessoas, e as mentalidades demoram tempo a mudar.