O aumento do custo da hora trabalhada pressionará especialmente as pequenas e médias empresas Funcionário de loja na Saara, no Centro do Rio — Foto: Rebecca Maria/Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 21/05/2026 - 17:36 Redução da Jornada de Trabalho no Brasil: Impactos Econômicos Potenciais A redução da jornada de trabalho no Brasil, tema de crescente debate, pode impactar negativamente a economia, especialmente para pequenas e médias empresas. A Confederação Nacional da Indústria alerta que a mudança pode elevar custos em até R$ 267 bilhões anuais, pressionando a competitividade e aumentando a informalidade. Pesquisa da Firjan indica que quase 90% das indústrias do Rio seriam afetadas, com riscos de inflação e redução de investimentos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A evolução da jornada de trabalho é uma demanda legítima da sociedade. E já acontece há tempos no Brasil, por meio de convenções ou acordos coletivos entre empresas e sindicatos patronais e de trabalhadores. O debate sobre redução da jornada vem se ampliando, mas é imprescindível uma reflexão profunda a respeito dos impactos sobre a economia brasileira, em especial no caso das maiores empregadoras do país: as pequenas e médias empresas. Recentemente, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgou números e ponderações da maior importância em contribuição a esse tema. O posicionamento teve o apoio de 27 federações industriais (entre elas, a Firjan), 95 associações setoriais e 342 sindicatos industriais. Considerando a média de todos os setores da economia, no Brasil já se pratica jornada de cerca de 39 horas semanais. Isso é fruto de negociações coletivas, estratégia das empresas ou regras do funcionalismo público. A jornada de 44 horas semanais estabelecida pela Consolidação das Leis do Trabalho permite, como pondera a CNI, soluções de acordo com cada setor, empresa e região. A redução para 40 horas pode, em contrapartida, elevar em até R$ 267 bilhões anuais os custos com empregados formais. É, sem exagero, um golpe na competitividade da economia brasileira. Nossas empresas já enfrentam uma tempestade perfeita, que reúne altos custos de produção, elevadas taxas de juros, insegurança jurídica e barreiras de infraestrutura. A adoção de uma medida dessa magnitude, sem estudos de impacto adequados e sem mecanismos de flexibilização e transição, pode gerar efeitos indesejados sobre o mercado de trabalho. O aumento do custo da hora trabalhada pressionará especialmente as pequenas e médias empresas, que têm menor capacidade de absorver tal impacto, podendo levá-las a rever suas estratégias de contratação. Como consequência, há risco de aumento da informalidade, com redução da formalização dos vínculos de trabalho. Soma-se a isso o fato de não se poder tratar de forma uniforme realidades empresariais distintas, seja pelo porte, seja pela natureza das atividades desempenhadas. Setores com operações contínuas ou serviços essenciais enfrentam limitações adicionais para reorganizar jornadas sem impacto direto em custos e produtividade. A Firjan realizou recentemente uma pesquisa com 520 indústrias fluminenses, responsáveis por mais de 70 mil empregos. Quase nove entre dez informaram que seriam afetadas por uma redução de jornada. Citaram, entre os principais impactos, elevação de custos de produção e queda de produtividade. Entre as indústrias ouvidas pela pesquisa, 70% responderam que repassarão o aumento ao preço. Outras 21% informaram avaliar a alternativa. Isso significa impacto sobre a inflação — a medida foi apontada por 80% das empresas de setores como panificação e confecção e por 70% das indústrias de alimentos e bebidas e de móveis e madeira. As indústrias fluminenses também citaram, como medidas diante da redução da jornada semanal de trabalho, a redução significativa dos planos de investimento no curto e médio prazos e a revisão de contratos e de prazos. O Brasil já passou, nos últimos anos, por importantes reformas estruturais, como a da Previdência e a tributária. Ambas foram fruto de profunda análise, durante anos, por nossos representantes na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, com a participação da sociedade. A redução da jornada precisa passar por uma discussão ampla e transparente, em que não pode faltar a participação do setor produtivo — e sem a pressão de um calendário eleitoral. *Luiz Césio Caetano é presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro