A atualização da NR-1, que passa a exigir oficialmente o mapeamento e a gestão de riscos psicossociais no ambiente de trabalho a partir de 26 de maio, acelerou a entrada da saúde mental na agenda prioritária das empresas. Ainda assim, transformar esse movimento em mudanças consistentes na rotina das equipes continua sendo um desafio para muitas organizações. Levantamento do Pandapé, software de recrutamento e seleção mais usado na América Latina, mostra que 17,36% das empresas apontam a falta de apoio dos gestores como uma das principais barreiras para avançar na adequação às exigências relacionadas à saúde mental no trabalho. O dado chama atenção porque surge em um contexto de maior investimento corporativo no tema. Atualmente, 45,34% das organizações afirmam já realizar treinamentos voltados à liderança como parte das iniciativas relacionadas à saúde mental. Para Patricia Suzuki, Diretora de RH da Redarbor Brasil, detentora do Pandapé, as empresas ampliaram discussões e iniciativas sobre o tema nos últimos anos, mas ainda enfrentam dificuldade para incorporar essas práticas na dinâmica operacional das equipes. "Existe um movimento importante de preparação das lideranças para lidar com o dinamismo do mercado e desafios do negócio. Esse contexto influencia diretamente a forma como as equipes organizam prioridades, distribuem demandas e lidam com a rotina de trabalho", afirma. Segundo a executiva, o papel da liderança é decisivo porque é nessa camada que a experiência do colaborador ganha forma no cotidiano. "A empresa pode estruturar políticas, programas e ações institucionais, mas a percepção do colaborador é construída principalmente na relação com sua liderança imediata. É o gestor quem organiza o fluxo de trabalho, conduz alinhamentos, acompanha desempenho e estabelece a dinâmica da equipe", explica Patricia Suzuki. O impacto dessa desconexão aparece diretamente no ambiente corporativo. Mesmo com o avanço da pauta de saúde mental, muitas organizações ainda convivem com cenários de sobrecarga, urgência constante, falta de clareza operacional e desgaste emocional contínuo. A pesquisa também mostra que 49,84% das empresas afirmam que suas lideranças consideram a saúde mental tão importante quanto as metas de negócio, enquanto 36,33% dizem que isso acontece apenas parcialmente. Os dados indicam que o tema ganhou relevância institucional, mas ainda enfrenta desafios de execução no dia a dia das operações. Para Patricia, a evolução dessa agenda depende da capacidade das empresas de incorporar saúde mental como parte permanente da gestão. "Saúde mental exige acompanhamento contínuo, preparo das lideranças e decisões consistentes no dia a dia. Quando o tema fica restrito a iniciativas pontuais, o impacto tende a ser limitado diante da complexidade da rotina corporativa", comenta. O levantamento indica que o avanço da saúde mental nas empresas está diretamente relacionado à capacidade de transformar práticas de liderança e critérios de gestão. "Os próximos anos devem exigir das empresas uma visão mais estruturada sobre saúde mental no trabalho. Liderança, desempenho e sustentabilidade da operação passam cada vez mais pela forma como as organizações administram pessoas, prioridades e relações de trabalho", conclui Patricia Suzuki.