O debate tributário brasileiro costuma ser apresentado como uma discussão técnica sobre arrecadação, alíquotas ou equilíbrio fiscal. Mas a tributação é, antes de tudo, uma disputa sobre o tipo de país que se deseja construir. O sistema tributário não apenas reflete desigualdades, ele contribuiu para produzi-las, aprofundá-las ou enfrentá-las. Como sintetizaram Liam Murphy­ e Thomas Nagel, mercado, propriedade e riqueza não existem antes do Estado, mas dependem de instituições jurídicas e decisões políticas que tornam possível a sua própria existência. A tributação, portanto, não é mera intervenção externa sobre a economia, ela integra a própria organização social e define quais atividades econômicas serão incentivadas, quais grupos financiarão o Estado e quais interesses serão favorecidos pelas escolhas públicas de tributação e gasto.

O Brasil chega ao atual ciclo político ainda marcado por problemas estruturais persistentes. Apesar de avanços pontuais recentes, permanece entre as sociedades mais desiguais do mundo, com elevada concentração de renda e riqueza nos estratos superiores. Relatório recente do Ministério da Fazenda revela que os dados tributários são essenciais para compreender a apropriação de renda no topo da distribuição, frequentemente invisibilizada nas pesquisas domiciliares tradicionais. Ao mesmo tempo, consolidou-se, nas últimas décadas, um padrão de desenvolvimento marcado pela reprimarização exportadora, expansão do extrativismo mineral e agroexportador e perda relativa de densidade industrial. Esse modelo aprofundou desigualdades regionais e territoriais, gerando concentração de riqueza, degradação ambiental e baixa capacidade de geração de empregos qualificados.