Efeito Trump faz Europa considerar nova arquitetura nuclear e mais países cogitam fazer uma bombaA França anunciou uma nova estratégia nuclear e países como Suécia e Polônia cogitam construir armas nucleares próprias em meio a instabilidade de Donald Trump. Crédito: EstadãoUma suposta frase de Albert Einstein diz que ele não sabia com quais armas a 3ª Guerra Mundial seria travada, mas que a 4ª Guerra Mundial seria lutada com paus e pedras. A frase expressa o receio de uma hecatombe que destrua boa parte da civilização humana. Por décadas, armas nucleares, químicas e biológicas foram desenvolvidas e armazenadas durante a Guerra Fria, e muitos desses arsenais ainda existem, ou são até mesmo expandidos. Uma questão, entretanto, se apresenta. Será que saberíamos quando estivéssemos envolvidos em uma 3ª Guerra Mundial? A provocação que motiva essa coluna veio do historiador Heitor Loureiro, doutor em estudos de genocídio, em conversa com o colunista, outro historiador. Ele nos lembra que muito do que conhecemos na História foi estudado e definido posteriormente, definidos pela historiografia produzida anos, décadas ou séculos depois. Costumamos, no debate público ou nas conversas cotidianas, usar termos e nomenclaturas que não eram utilizados na época em que aqueles eventos se desenrolaram. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, participa de uma coletiva de imprensa em Moscou, na Rússia Foto: Ramil Sitdikov/AFPPUBLICIDADEUm exemplo fácil de visualizar é a “Guerra dos Cem Anos”, referência aos cento e dezesseis anos de guerras e tréguas alternadas entre os reinos de França, Inglaterra e seus respectivos aliados. Ninguém durante a batalha de Crecy, em 1346, dizia que estava lutando a “Guerra dos Cem Anos”. Ninguém viveu na “Alta Idade Média”. Mesmo em tempos recentes, ninguém viu o início da “1ª Guerra Mundial”, mas da Grande Guerra. Todos esses entendimentos que para nós são familiares vieram posteriormente, com o trabalho de historiadores que analisaram o desenrolar dos eventos e contextos históricos, não apenas cronológicos, mas também geográficos, políticos, ideológicos e culturais. Na sua provocação, Loureiro questiona se não estaríamos vivendo uma Nova Guerra dos Cem Anos, que, tal como a primeira, dura mais do que um século e que teria sido inaugurada com os “canhões de agosto” de 1914, cujos estrondos ainda ecoam pela Crimeia, pela bacia do Rio Don, por Gaza e pelo Estreito de Ormuz. Seria perfeitamente plausível, então, que historiadores futuros definam algum período de nossas vidas de maneira que ainda não conseguimos compreender. Soldados americanos participam de um exercício militar em uma base na Hungria, perto da fronteira com a Ucrânia Foto: Zsolt Czegledi/APDesde 1945 não temos um conflito direto entre duas potências mundiais, mas uma série de diversos conflitos por procuração travados regionalmente, como a guerra do Vietnã ou a Guerra Civil de Angola durante a Guerra Fria, ou então conflitos envolvendo potências regionais, como a atual guerra no Irã, iniciada após os ataques de EUA e Israel de um lado, contra o Irã, apoiado por China e por Rússia, do outro.PublicidadeNas palavras do historiador Eric Hobsbawm, “a guerra foi banida para o Terceiro Mundo. Seria plausível que, no futuro, essa sequência ininterrupta de guerras localizadas, mais “gerenciáveis”, sejam analisadas como o modelo de conflito de nossa Era. Uma 3ª Guerra Mundial longeva e compartimentada. Ou uma Guerra dos Cem Anos global. Talvez seu ponto de partida tenha sido durante a Guerra da Coreia, na década de 1950. Ou na primeira Guerra do Golfo, em 1990. Ou, ainda, alguns meses atrás, em 28 de fevereiro de 2026.O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participa de uma reunião no Salão Oval da Casa Branca, em Washington Foto: Alex Brandon/APComo contra-argumento nesse debate, devemos lembrar que os dois eventos definidos como Guerras Mundiais envolveram o embate direto entre potências e a participação de Estados distribuídos pelo mundo, como EUA e Japão. Isso que diferencia essas duas guerras dos conflitos globais que existiram antes, como a Guerra dos Trinta Anos ou as Guerras Napoleônicas, que, embora travados no globo inteiro, foram disputas entre Estados europeus e seus vastos impérios. Ou seja, seria difícil falar em “guerra mundial” sem o embate direto entre potências. Isso pode tanto motivar temor e paranoia quanto também uma sensação de alívio. Afinal, se o mundo ainda não está em um cenário de embate direto entre as potências, isso significa que esse conflito pode ser evitado. Seja pela diplomacia, seja pelas perspectivas do Realismo internacionalista, como a ideia de que o medo de uma hecatombe nuclear seria um fator, paradoxalmente, para a paz.Saiba mais Corrida nuclear na Europa? Retórica de Trump faz mais países cogitarem a bomba atômicaEuropa precisa de plano B para dissuasão nuclear caso Trump a abandone num tuíte, diz especialistaCúpula entre Donald Trump e Xi Jinping vai expor dois líderes disfuncionaisA realidade é que vivemos em tempos incertos, de aumento dos conflitos e dos gastos militares pelo mundo, em detrimento da solução de problemas globais como insegurança alimentar e saúde pública. Dessa incerteza e dos problemas que nos cercam que vem o medo de uma 3ª Guerra Mundial e, no caso de alguns religiosos mais extremistas, até mesmo o desejo e o anseio por algum armagedon ou arrebatamento. Sociedades saudáveis não deveriam viver com o medo de um conflito mundial.
Opinião | Saberíamos quando o mundo estivesse em uma 3ª Guerra Mundial?
Todos os entendimentos sobre guerras que para nós são familiares vieram posteriormente, com o trabalho de historiadores que analisaram o desenrolar dos eventos e contextos históricos








