Fóssil de 66 milhões de anos preservou em três dimensões penas de uma ave aquática e restos de sua alimentação 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Ilustração mostra tiranossauro caçando uma antiga ave aquática — Foto: Divulgação | Andrey Atuchin Uma pena preservada dentro das fezes fossilizadas de um dinossauro pode ajudar a explicar por que os ancestrais das aves atuais sobreviveram à extinção em massa que eliminou a maior parte dos dinossauros, há cerca de 66 milhões de anos. O fóssil, encontrado na formação de Hell Creek, em Montana, nos Estados Unidos, preservou em três dimensões a pena de uma ave aquática que desapareceu no fim do Cretáceo. O material foi descoberto em 2016 pelo paleontólogo David DeMar enquanto ele procurava fósseis de peixes. O fragmento, do tamanho aproximado de uma bola de golfe, é um coprólito — termo usado para fezes fossilizadas — provavelmente produzido por um grande terópode. Pelo tamanho e pelo conteúdo, os pesquisadores consideram que o animal pode ter sido um Tyrannosaurus rex jovem ou um Nanotyrannus, embora não seja possível determinar a espécie. A análise por tomografia computadorizada revelou que o coprólito continha a pena, pequenas escamas de peixe e ossos das pernas de uma ave. Os pesquisadores acreditam que a vítima pertencia aos hesperornitiformes, grupo de aves aquáticas, muitas delas incapazes de voar, que não sobreviveu à extinção. O estudo foi publicado na revista Current Biology nesta quinta-feira. Penas podem ter sido decisivas Segundo os pesquisadores, a descoberta indica que penas anatomicamente semelhantes às das aves modernas já existiam há 66 milhões de anos. A diferença estaria na distribuição delas pelo corpo. A ave identificada no coprólito tinha penas modernas, provavelmente nas asas, mas também apresentava penas mais primitivas no restante do corpo. Esse tipo de plumagem ofereceria menor proteção térmica. Pena fossilizada foi encontrada preservada em um coprólito — também conhecido como cocô de dinossauro — Foto: Divulgação | O'Connor et al A hipótese é que os ancestrais das aves atuais possuíam um conjunto mais completo de penas corporais capazes de funcionar como isolamento térmico, além das penas modernas das asas. Essa característica pode ter sido importante para enfrentar o chamado "inverno de impacto", período de resfriamento global que teria ocorrido após o asteroide atingir a região onde hoje fica a Península de Yucatán, no México. Os próprios pesquisadores ressaltam que a hipótese ainda precisa ser testada com novos fósseis. Para o paleontólogo Steven Salisbury, da Universidade de Queensland, a possibilidade é relevante, mas não há uma resposta definitiva sobre os fatores que determinaram quais grupos sobreviveram à extinção. Fóssil preservou uma cadeia alimentar O coprólito também oferece uma espécie de registro da cadeia alimentar do período. As escamas encontradas no material provavelmente pertenciam a um peixe conhecido como peixe-jacaré (gar), que teria sido ingerido pela ave. O animal, por sua vez, acabou sendo devorado pelo terópode que produziu as fezes fossilizadas. A descoberta também chama atenção pela qualidade da preservação. Em muitos fósseis, as penas aparecem apenas como impressões na rocha. Nesse caso, a estrutura foi preservada em três dimensões, permitindo uma análise mais detalhada de sua anatomia. Os cientistas afirmam que outros coprólitos podem esconder restos de tecidos moles ainda não identificados. O uso da tomografia computadorizada permite examinar o interior das fezes fossilizadas sem destruí-las, o que amplia o potencial desse tipo de fóssil para o estudo dos ecossistemas do Cretáceo.