Mokha, banhada pelo Mar Vermelho, fica a 80 Km da importante passagem naval e era considerada por analistas como principal objetivo da ofensiva terrestre iniciada na última quinta-feira 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Militantes Houthis circulam em veículo pela cidade portuária de Mokha, objetivo estratégico do grupo em ofensiva no sudoeste do país — Foto: AFP Os Houthis, grupo rebelde apoiado pelo Irã, capturaram nesta quinta-feira a cidade portuária de Mokha e a ilha de Zuqar, em uma vitória estratégica sobre as forças do governo iemenita reconhecido internacionalmente pelo controle da faixa litorânea do sudoeste do país, próxima ao Estreito de Bab el-Mandeb — passagem crucial para o comércio entre Ásia e Europa, que conecta o Golfo de Áden ao Mar Vermelho. A cidade era o principal objetivo, segundo analistas, de uma ofensiva lançada há uma semana, que segundo os levantamentos mais recentes deixou mais de 500 mortos. A rápida ofensiva terrestre expulsou as forças governistas, apoiadas pela Arábia Saudita, da cidade e do porto de Mokha, afirmaram autoridades políticas e militares do Iêmen, ouvidas sob condição de anonimato por veículos de imprensa internacionais. A campanha militar para a conquista elevou a intensidade do conflito interno iemenita ao maior grau desde o rompimento do cessar-fogo assinado em 2022, em julho. Houthis conquistam cidade portuária no Iêmen e firmam posição estratégica Mokha fica a menos de 80 Km de Bab al-Mandeb, que os Houthis prometeram fechar ao tráfego de embarcações sauditas, seguindo o exemplo do Irã em Ormuz, em retaliação a um bombardeio que atribuíram a Riad contra um aeroporto do país. Os rebeldes já atacaram navios ligados ao setor do petróleo saudita no Mar Vermelho, mas o controle da cidade oferece à milícia uma posição estratégica mais próxima do estreito. — Este é potencialmente um dos pontos de inflexão mais significativos, especialmente nos últimos anos, do conflito no Iêmen — disse Adam Baron, pesquisador especializado no Iêmen da New America, uma organização de pesquisa sediada em Washington. A cidade vinha sendo controlada pelo tenente-general Tareq Saleh, um comandante aliado ao governo iemenita. Em publicações nas redes sociais nesta quinta-feira, o militar afirmou que havia ordenado às suas tropas que "reorganizassem suas fileiras e estabelecessem um centro de comando alternativo em um local seguro". Uma fonte militar ouvida pela AFP afirmou que os rebeldes também conquistaram a ilha de de Zuqar, no sul do Mar Vermelho, localizada entre o Iêmen e a Eritreia, a norte da cidade de Mokha. A ação, de acordo com o relato, teria sido consumada após uma ofensiva "com foguetes" e um desembarque de combatentes na ilha. Houthis conquistam cidade estratégica e ilha no Iêmen — Foto: Arte/O Globo Não está claro o futuro da ofensiva houthi. Baron taxou como provável, em entrevista ao New York Times, que as forças rebeldes tentem avançar mais ao sul, para conquistar a área mais próxima ao estreito — definida por ele como "o território de maior valor estratégico do Iêmen, provavelmente". O grupo, porém, também se defende de ofensivas do governo oficial e dos sauditas — agências de notícia ligadas aos Houhis relataram 40 bombardeios contra áreas controladas pelo grupo, após mais de 50 na véspera. Em entrevista à rede catari Al-Jazeera, o analista Rashid al-Mohanadi, do Center for International Policy Research, disse ser muito cedo para avaliar o controle houthi sobre a cidade de Mokha. — A natureza da guerra terrestre no Iêmen baseia-se em formações de alta mobilidade. Eles entraram em Mokha e, segundo as informações mais recentes, ainda estão lá. Mas a verdadeira questão é se conseguirão mantê-la sob seu controle pelas próximas 48 a 72 horas — afirmou, acrescentando que as forças governamentais provavelmente tentarão retomar o controle com ajuda de drones nas próximas horas. O Instituto para o Estudo da Guerra (ISW, na sigla em inglês), aponta que o porto de Hodeida, sob controle houthi, pode se tornar o "objetivo final" das forças governamentais iemenitas, avaliando a cidade como "fundamental para o abastecimento civil e militar dos rebeldes" e que sua eventual queda representaria um "grande revés" para o movimento houthi. Disputa estratégica O controle de Bab el-Mandeb (cujo nome em árabe significa "o portão das lamentações"), contudo, é o ponto mais sensível em termos de impacto global do conflito. A passagem é incontornável para navios que pretendem acessar o Canal de Suez, seja partindo ou retornando da Ásia para a Europa. O peso da rota aumentou desde o início da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, que bloqueou Ormuz, no outro lado da Península Arábica, afetando o mercado internacional de petróleo. A Arábia Saudita, um dos maiores produtores de hidrocarbonetos do mundo, passou a utilizar o Mar Vermelho para a maior parte de suas exportações, redirecionando o escoamento anteriormente feito via Ormuz para o de Yanbu, no oeste do país. As exportações atingiram uma média de 3,8 milhões de barris por dia entre março e julho nesta nova rota — cerca de cinco vezes o nível anterior à guerra —, segundo a agência de monitoramento Kpler. Para alguns analistas, o fechamento da passagem — que tem cerca de 100 quilômetros de extensão e cerca de trinta quilômetros de largura no ponto entre Ras Menheli, na costa iemenita, e Ras Siyyan, no Djibuti — sequer é necessário para alterar profundamente o mercado. Andreas Krieg, especialista em segurança do King's College de Londres, afirmou que "o maior perigo" não seria necessariamente um "fechamento físico" de Bab el-Mandeb, mas sim uma "incerteza persistente". Combatentes leais aos Houthis reúnem-se durante um ato de recrutamento em Sanaa, em 10 de setembro — Foto: Mohammed Huwais/AFP O Ministério das Relações Exteriores ligado aos Houthis afirmou em um comunicado na quinta-feira que o grupo "não representará uma ameaça" e que está "preparado para fazer parte da estrutura de segurança regional, especialmente no que diz respeito à proteção da navegação marítima", sem fazer referência aos combates em Mokha. O ministério pediu à comunidade internacional "que obrigue o regime saudita a parar de atacar o Iêmen". Além da alteração no mercado internacional de petróleo, que nesta semana viu o valor do barril Brent ultrapassar os US$ 100 pela primeira vez em meses, as altercações entre Arábia Saudita e Houthis ameaçam se expandir para fora das fronteiras nacionais e regionais. O Ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Asif, afirmou em uma entrevista na quarta-feira ataques a Riad podem ativar acordo de defesa coletiva da recém-assinada Aliança de Defesa de Meca, que reúne os sauditas, a potência nuclear islâmica e a Turquia, uma das maiores forças terrestres da Otan. A retomada do conflito já forçou quase 20 mil pessoas a deixarem suas casas, segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), em um comunicado emitido na terça-feira. (Com AFP e NYT)