Escalada dos combates entre milícia xiita e forças do Iêmen apoiadas pela Arábia Saudita abre uma segunda frente na guerra envolvendo o Irã e ameaça o fornecimento global de energia 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Aliados de Teerã, houthis tomaram o controle da histórica cidade portuária de Mocha, movimento que amplia capacidade do grupo para controlar Estreito de Bab el-Mandeb — Foto: AP Os houthis do Iêmen, alinhados ao Irã, tomaram o controle da histórica cidade portuária de Mocha nesta quinta-feira, disseram quatro fontes militares do governo iemenita, ampliando sua capacidade de exercer pressão sobre o Estreito de Bab el-Mandeb, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo. A milícia xiita está lançando ataques contra as estratégicas ilhas Hanish, no Mar Vermelho, disseram à Reuters as fontes do governo. Forças governamentais e seus aliados estão se deslocando para o sul, em direção a Dhubab, situada diretamente no estreito, em frente à ilha de Perim. O controle de Dhubab e da ilha é fundamental para assumir o domínio do estreito, disseram as fontes. Os combates entre os aliados iemenitas da Arábia Saudita no governo apoiado internacionalmente e os houthis se intensificaram nos últimos dias, criando uma segunda frente na guerra envolvendo o Irã que ameaça o fornecimento global de energia. Uma trégua mediada pela Organização das Nações Unidas (ONU) no Iêmen em 2022 interrompeu em grande parte os anos de guerra, mas não levou a um acordo duradouro, e os combates mais recentes ameaçam provocar um retorno ao conflito em larga escala. Bab el-Mandeb, ou “Portão das Lágrimas”, assim chamado por suas perigosas condições de navegação, é a saída sul do Mar Vermelho, entre o Iêmen, na Península Arábica, e Djibuti e Eritreia, na costa africana. Isso o torna um alvo estratégico importante para os houthis, que controlam as áreas mais populosas do Iêmen e grande parte do norte do país. O estreito é uma das rotas mais importantes do mundo para petróleo bruto e combustíveis do Golfo com destino ao Mediterrâneo por meio do Canal de Suez ou do oleoduto Suez-Mediterrâneo, na costa egípcia do Mar Vermelho, assim como para commodities destinadas à Ásia, incluindo petróleo russo. O bloqueio da estreita passagem isolaria países produtores de petróleo do Golfo, como a potência energética Arábia Saudita, de suas principais rotas marítimas depois que o Irã praticamente fechou o Estreito de Ormuz — a principal artéria marítima de energia entre a Ásia e a Europa. A escalada do conflito no Iêmen ocorre enquanto Irã e Estados Unidos travam a maior onda declarada de ataques recíprocos contra embarcações na região do Golfo desde o início da guerra, em fevereiro. Uma imagem de satélite mostra o Estreito de Bab el-Mandeb, uma importante via navegável e porta de entrada para o Mar Vermelho, enquanto o Irã ameaça usar seus aliados houthis no Iêmen para fechar o estreito — Foto: NASA Worldview/Divulgação via REUTERS. Alerta a Teerã Um líder militar aliado das forças do governo do Iêmen disse nesta quinta-feira que ordenou a seu grupo na costa oeste que estabelecesse um centro de comando alternativo em um local seguro. As instruções de Tarek Saleh, sobrinho do presidente iemenita assassinado Ali Abdullah Saleh, foram mais um sinal de que os houthis estavam expulsando suas Forças de Resistência Nacional do oeste do país. O Paquistão transmitiu ao Irã um alerta da Arábia Saudita para que contenha seus aliados houthis no Iêmen depois que eles intensificaram os ataques contra o reino, em uma tentativa de impedir que a crise saia de controle, disseram fontes sauditas, paquistanesas e iranianas. Uma autoridade iraniana de alto escalão confirmou que o Paquistão transmitiu a mensagem a Teerã na terça-feira e que a resposta foi que “o Irã não controla os houthis”. No entanto, duas fontes iranianas disseram que Teerã orientou os houthis na semana passada a realizar ataques contra a Arábia Saudita, prometendo financiamento e armas adicionais, enquanto vários comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) viajaram ao Iêmen para ajudar a coordenar os ataques. Os houthis, movimento militar, político e religioso que governa a maior parte do noroeste do Iêmen, têm afetado o comércio global e os mercados de energia com ataques contra navios de carga e petroleiros no Mar Vermelho. Eles começaram a atacar embarcações e a lançar drones e mísseis contra Israel em novembro de 2023, afirmando agir em apoio aos palestinos durante a guerra de Israel em Gaza, iniciada no mês anterior. Os ataques contra a navegação no Mar Vermelho, assim como contra a Arábia Saudita, foram retomados neste ano em resposta à guerra dos Estados Unidos contra o Irã, aliado próximo dos houthis. Houthis intensificam ataques contra a Arábia Saudita e abrem nova frente na guerra entre EUA e Irã — Foto: Al Masirah/Divulgação via REUTERS Ataques contra cidades sauditas Centenas de mulheres e crianças deixaram Mocha nesta quinta-feira em direção às províncias de Lahj e Áden, controladas pelo governo apoiado pela Arábia Saudita, em busca de abrigo depois de perderem parentes nos combates entre os houthis e as forças governamentais, segundo dados do governo iemenita. Em áreas das províncias de Taiz e al-Hodeidah, mais de 20 mil pessoas foram deslocadas devido aos confrontos nas últimas duas semanas. Os houthis disseram na quarta-feira que ataques sauditas atingiram as províncias iemenitas de Jawf, Marib e Saada, na fronteira com o reino, além de Taiz, no sul, e al-Hodeidah, ao longo da costa do Mar Vermelho, um reduto dos houthis usado como base para sua campanha mais ampla de ataques contra a navegação na região. A Arábia Saudita não confirmou os ataques. Riad afirmou que os houthis intensificaram os ataques contra o reino nos últimos dias, deixando 73 feridos, incluindo mulheres e crianças, após atingirem alvos civis e econômicos no sul do país. Em 2014, os houthis tomaram a capital iemenita, Sanaa, forçando o governo reconhecido internacionalmente a se deslocar para o sul, em direção a Áden. Bloqueio de Bab el-Mandeb isolaria países produtores de petróleo do Golfo, como a potência energética Arábia Saudita, de suas principais rotas marítimas — Foto: REUTERS/Khaled Abdullah Temendo a crescente influência iraniana no Iêmen e a instabilidade em suas fronteiras, a Arábia Saudita liderou uma intervenção militar contra os houthis em 2015, com o objetivo de expulsar o grupo e restaurar o governo. A guerra civil resultante desencadeou uma das maiores crises humanitárias do mundo e levou a anos de intensos combates e devastadores ataques aéreos da Arábia Saudita e de seus parceiros de coalizão, incluindo os Emirados Árabes Unidos.