Entre falsas equivalências e manobras de bastidor, presidente do Supremo vai sendo empurrado para um desmoralizante acordão 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Edson Fachin e Alexandre de Moraes — Foto: Jorge William/Ag. O Globo Um dos efeitos colaterais mais comuns e perigosos em ambiente de polarização política é o da falsa equivalência. Seja por razões ideológicas ou pra má-fé, é o que estamos vendo nos argumentos usados para definir o que está em jogo nessa queda de braço entre André Mendonça e Alexandre de Moraes – que aliás nem deveria ser uma disputa entre ministros, e sim um debate intelectualmente honesto e consequente sobre o tamanho da contaminação do Supremo Tribunal Federal (STF) pela corrupção e como tirar a instituição desse atoleiro. O fato de que, de uma hora para outra, ninguém mais discute os fatos expostos no relatório da Polícia Federal sobre as 52 mensagens trocadas por Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes, e sim uma lista de abusos que teriam sido cometidos por um e por outro, em si, já é uma vitória para Moraes. Mas dado que a questão está posta, é importante avaliar o que há de espuma e o que há de fato em relação a cada um deles. A jogada de Mendonça Primeiro, o relatório do André Mendonça, que embasou o pedido para que o STF avalie se abre ou não um inquérito para apurar o conteúdo das mensagens em que Vorcaro e Moraes. O fato de o documento listar o que foi achado no celular do dono do Master não o transforma em uma investigação por si. O que ele faz é identificar oficialmente o telefone que recebia mensagens de Vorcaro como sendo o de Moraes e ordenar as mensagens por ordem e em bloco temático para que sejam analisadas. Uma investigação de verdade precisaria confirmar as reuniões entre o ministro e o dono do Master, os voos feitos pela doutora Viviane Barci e pelo próprio Moraes nos aviões de Vorcaro e saber quais foram as reais contrapartidas dadas por Moraes ao ex-banqueiro em troca dos R$ 131 milhões, entre outras coisas. Quem argumenta que um ministro já investigou o outro por apresentar esse relatório está comprando a narrativa de Moraes e Paulo Gonet claramente destinada a anular não só o relatório de Mendonça mas, no limite, as duas investigações tocadas por ele, a do Master e do INSS. Mas algumas perguntas permanecem no ar. Uma delas é por que tudo só foi exposto agora pelo ministro, se o próprio blog informou já em março de 2026 o conteúdo de parte das mensagens entre Moraes e Vorcaro – como o “conseguiu bloquear?” enviado pelo ex-banqueiro pouco antes de ser preso. Para isso há uma resposta técnica válida — há até um ou dois meses atrás, não se conhecia o caminho pericial para comprovar quais anotações do bloco de notas de Vorcaro tinham sido enviadas como mensagem e para quem. Só mais recentemente se descobriu que as imagens guardavam uma identificação verificável que não deixava dúvida a respeito do destinatário, mesmo depois de apagadas. Essa justificativa, porém, não resolve tudo. Primeiro porque é bastante improvável (ou virtualmente impossível) que um documento de 218 páginas com informações tão complexas tenha sido produzido em apenas 72 horas — ou ele já estava pronto, ou pelo menos semipronto, com o conhecimento de Mendonça. Além disso, se a tecnologia para a identificação das notas que de fato foram enviadas foi dominada em junho ou julho, por que Mendonça só resolveu pedir o relatório da PF no final de agosto? Por que não antes, ou então depois das eleições? Há, portanto, uma questão de contexto relevante. Mas nem o procurador-geral da República, igualmente queimado nas mensagens pela flagrante intimidade com Vorcaro, ousou questionar a sua validade. E se o conteúdo continua válido, qualquer providência que se tome que não vise uma investigação a sério será entendida como uma operação abafa. A cartada de Moraes De outro lado está a manobra de Alexandre de Moraes, que tirou da manga uma coleção de relatórios de inteligência que, de tão toscos, fariam corar o agente Mawell Smart, o espião burro e desastrado da série “Agente 86”. Num contraste evidente com o relatório sobre as mensagens entre Vorcaro e Moraes, esses documentos não têm nenhum indicativo de data, nem código que permita identificar o autor ou a unidade, e são definidos já no cabeçalho como “sem valor probatório”. Reúnem uma mistureba de informações que parecem verossímeis com disse-me-disse e “análises de cenário” que qualquer pessoa com uma conta no X poderia ter escrito apenas a partir da leitura do noticiário. O próprio compilado exibe uma série de alegações classificadas como de “confiança baixa” e “moderada” entre dados que parecem verossímeis mas não passaram por uma verificação ou checagem básica. Em resumo, pode até ser que Mendonca tenha forçado a mão nos bastidores para tentar pegar Lulinha ou Moraes nas investigações, mas os relatórios usados por Moraes não são prova disso. Se restar qualquer respeito à inteligência do público no Supremo, mais especificamente no gabinete de Edson Fachin, é preciso responder como Moraes soube desses relatórios que nada tinham a ver com suas investigações e quem os entregou dessa forma. Que uma manobra dessa natureza tenha sido cometida por um ministro do Supremo provoca espanto até nos observadores mais acostumados ao pesado histórico de sujeiras já testemunhados nas brigas de poder de Brasília, mas Moraes claramente não se importa. Ao jogar o documento da PF na roda, mesmo sabendo de sua fragilidade, ele enviou um recado a Fachin – o de que está disposto a usar toda a sua truculência para combater quem quer que decida investigá-lo e com qualquer arma, seja ela legal ou ilegal. Tampouco é coincidência que , se bem sucedida, vai ajudar no propósito dos advogados de melar toda a apuração. O papel de Fachin O presidente do Supremo, Edson Fachin, sabe disso perfeitamente, e ainda assim parece predisposto a ceder à truculência de Moraes e isolar Mendonça em nome de um acordão. Nos últimos dias, ele retirou do inquérito das fake news a investigação que o próprio Moraes havia proposto e assumiu a outra, solicitada por Mendonça. Também defendeu o fim desse inquérito, coisa que já tinha feito antes, mas até agora não conseguiu fazer. Também expediu despacho determinando que a PGR investigue as circunstâncias em que o relatório de Mendonça foi produzido pela PF. Começou, ainda, a conversar com ministros sobre assumir ele próprio a relatoria dos casos Master e INSS. Assim, botou um pé em cada canoa, demonstrando que lhe falta liderança para costurar uma solução rápida e definitiva para a crise. Nos bastidores, tanto o lado de Mendonça como o de Moraes dizem que não há acordo fechado em torno de nenhuma dessas providências. Quanto mais demora, mais difícil fica chegar a um acordo, e mais fácil é conseguir um acordão. Moraes montou a pizza e Fachin parece sem forças para impedir que ela vá ao forno.