Temor de que informações sigilosas cheguem à Rússia leva governo a discutir restrições ao partido Alternativa para a Alemanha, que acusa autoridades de atropelar a vontade dos eleitores 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Martin Reichardt, líder do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) na Saxônia-Anhalt e membro do parlamento, é entrevistado em um evento de campanha eleitoral da legenda em Haldensleben, no leste da Alemanha, em 1º de setembro de 2026 — Foto: RONNY HARTMANN / AFP Autoridades de diferentes esferas do governo alemão estão explorando — publicamente e nos bastidores — maneiras de limitar o poder do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (afD, na sigla em alemão) caso a legenda conquiste o governo de um estado nas eleições do próximo domingo. Os esforços das autoridades, detalhados em entrevistas e declarações de altos funcionários, incluem tentativas de restringir o compartilhamento rotineiro de determinadas informações sigilosas com serviços de inteligência estaduais caso a AfD passe a controlá-los. Também envolvem medidas menos drásticas relacionadas a políticas públicas. O planejamento é motivado, em parte, pelo temor de que integrantes da legenda possam repassar segredos de Estado à Rússia, país com o qual o partido mantém relações estreitas. A AfD está prestes a conquistar o maior número de votos nas eleições de 6 de setembro em Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha. Se conseguir cadeiras suficientes para formar sozinha uma coalizão de governo, será o primeiro partido de extrema direita, desde a Segunda Guerra Mundial, a assumir o poder em um estado alemão. Um cartaz fixado em um poste em frente à Torre de TV de Berlim, fotografado em 18 de agosto de 2026, exibe um anúncio de campanha eleitoral do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) para as próximas eleições regionais em Berlim — Foto: JOHN MACDOUGALL / AFP Governar um estado normalmente daria ao partido acesso a informações sigilosas do governo federal, inclusive sobre inteligência e segurança. Muitas das autoridades que buscam limitar o poder da AfD consideram a legenda uma ameaça à democracia e à segurança nacional alemãs e afirmam que seus planos são necessários para proteger o país. A defesa da democracia é uma questão particularmente sensível na Alemanha, que, após a Segunda Guerra Mundial, desenhou suas instituições para impedir que partidos extremistas como o nazista voltassem ao poder. Os partidos que rivalizam com a AfD a consideram extremista. Nenhuma outra grande legenda alemã aceita trabalhar com o partido para formar um governo em nível estadual ou federal — uma estratégia conhecida no país como “firewall” (cordão sanitário) e que a AfD critica há anos. O ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, disse neste verão ao tabloide Bild que não repassaria informações sigilosas a um eventual governo da AfD. Ele citou a proximidade do partido com o presidente russo, Vladimir Putin, elogiado por líderes da legenda. — É impossível ignorar a afinidade deles com Putin — afirmou Pistorius. — Acreditar seriamente que deveríamos deixar essas informações caírem descuidadamente nas mãos erradas é algo que, obviamente, não pode acontecer. Aos olhos da AfD e de seus apoiadores, os esforços para limitar o poder do partido são uma tentativa de atropelar a vontade dos eleitores e impedir sua agenda política, que inclui deportar migrantes e proibir bandeiras do orgulho LGBTQIA+ nas escolas. — Não é democrático, não é político e não é correto; é simplesmente meio sujo — disse Ulrich Siegmund, candidato da AfD ao governo de Saxônia-Anhalt, em entrevista ao canal populista austríaco ServusTV. Integrantes da AfD em Saxônia-Anhalt não responderam a repetidos pedidos de comentário sobre os esforços para limitar o poder do partido caso ele vença. Em muitos casos, o planejamento para tentar restringir a AfD ocorre em segredo, por medo de que as discussões vazem para a imprensa e alimentem a narrativa do partido de que o governo federal alemão está impedindo a vontade dos eleitores. Ministros do Interior de outros estados discutiram ideias para restringir os poderes de um eventual governo da AfD, inclusive negando a seus integrantes acesso a determinadas informações com implicações para a segurança, segundo Georg Maier, ministro do Interior da Turíngia, no centro da Alemanha. — Acredito que seja um problema real e que represente uma ameaça à segurança nacional se isso acontecer — alertou ele em entrevista. Maier, um crítico contundente da AfD, se recusou a detalhar publicamente as medidas que os ministros do Interior estão considerando. Os serviços federais de inteligência classificaram a AfD como suspeita de extremismo de direita. O partido também mantém conexões com a Rússia, um adversário cada vez mais hostil. Parlamentares da AfD provocaram forte reação política ao tentar revelar segredos de segurança nacional, alguns relacionados ao apoio alemão à Ucrânia, que poderiam beneficiar o planejamento militar russo. Autoridades alemãs acusaram a Rússia de sabotagem, ataques cibernéticos e outras iniciativas para enfraquecer a coesão social do país. Evento de campanha eleitoral do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) em Haldensleben, no leste da Alemanha, em 1º de setembro de 2026 — Foto: RONNY HARTMANN / AFP A AfD lidera as pesquisas em dois estados — Saxônia-Anhalt e Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental — que irão às urnas neste mês. Ambos ficam na antiga Alemanha Oriental, reduto da legenda, onde seus líderes têm usado as redes sociais e a organização local para conquistar eleitores frustrados com a estagnação econômica, a imigração e as mudanças culturais. A AfD parece próxima de conquistar uma maioria absoluta das cadeiras em Saxônia-Anhalt. Isso permitiria ao partido formar um governo sem o apoio de nenhuma outra legenda, contornando o cordão sanitário. O serviço federal de inteligência classifica a AfD de Saxônia-Anhalt como extremista de forma confirmada. Sua possível chegada ao poder levou algumas autoridades a considerar medidas extremas previstas pela legislação alemã. A Constituição alemã foi elaborada por sobreviventes da era nazista após a guerra. Para impedir que forças extremistas voltem a assumir o poder, ela permite que o governo federal assuma o controle das forças policiais estaduais caso a “ordem democrática livre” do país esteja em perigo. Sven Hüber, um alto dirigente de um sindicato de policiais sem filiação partidária pública, comparou uma possível tomada do governo de Saxônia-Anhalt pela AfD à ascensão do Partido Nazista na década de 1930. Em uma carta publicada no boletim do sindicato, ele tranquilizou os policiais e afirmou que a entidade apoiaria os agentes que se recusassem a cumprir ordens ilegais de ministros “antidemocráticos”. Aliados da AfD reagiram. Hüber foi obrigado a renunciar ao sindicato nesta semana depois que uma plataforma de notícias de extrema direita publicou uma reportagem acusando-o de atos de violência durante o período em que atuou como guarda de fronteira da Alemanha Oriental, na década de 1980. Em nota, Hüber classificou as acusações como “difamatórias e caluniosas” e afirmou ter tomado medidas legais em resposta. Medidas menos drásticas Autoridades de outras partes da Alemanha vêm considerando publicamente medidas menos drásticas para reagir a uma eventual vitória da AfD. Um grupo de ministros de outros estados alemães avalia uma mudança que impediria um possível governo da AfD de bloquear parte do financiamento destinado à educação. O dinheiro exige aprovação unânime dos representantes de cada estado. A coalizão que governa Saxônia-Anhalt também aprovou, recentemente, uma lei destinada a impedir que um único partido vete nomeações para o Judiciário ou bloqueie a indicação de um governador que não seja de sua preferência. A lei permite que partidos que não terminem em primeiro lugar nas eleições se unam para indicar o presidente do Legislativo estadual. Antes, apenas a legenda mais votada podia apresentar um candidato para aprovação do Parlamento estadual. A mudança poderia permitir que partidos tradicionais elegessem seu próprio nome para comandar o estado neste outono caso a AfD vença, mas não consiga uma maioria.
Extrema direita pode vencer em estado alemão pela 1ª vez desde a Segunda Guerra, e autoridades estudam como limitar seu poder
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