Fenômeno eleitoral do Alternativa para a Alemanha (AfD) alimenta expectativa de partidos radicais por todo o continente, de Londres a Paris 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Ulrich Siegmund, principal candidato do partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt — Foto: Ronny Hartmann/AFP Quando um partido de extrema direita obteve uma vitória esmagadora no domingo em um pequeno estado do leste da Alemanha, suas repercussões puderam ser sentidas desde Downing Street, em Londres, até o Palácio do Eliseu, em Paris. Raramente o resultado de uma eleição regional foi encarado como algo tão decisivo para o destino da democracia na Europa. Não se tratava de qualquer país europeu; era a Alemanha, um país que isolou incansavelmente os partidos políticos de extrema direita desde a calamidade do nazismo. E não se tratava apenas de uma anomalia isolada, mas sim do mais recente passo de uma marcha constante, que já dura uma década e levou a extrema direita cada vez mais perto do centro do poder na Europa. Com eleições marcadas em toda a Europa para o próximo ano, o sucesso impressionante do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) pode ser um prenúncio de novas vitórias da extrema direita, segundo analistas, além de servir como um modelo de como essas vitórias podem ser construídas. Sua mensagem populista e anti-imigração ecoa a de líderes nacionalistas do Reino Unido, da França, da Itália e da Espanha, todos países onde os eleitores alimentam muitas das mesmas insatisfações que os alemães. Os eleitores franceses escolherão um novo presidente na próxima primavera [do Hemisfério Norte]. Na Espanha, uma eleição deverá ocorrer até agosto, e na Itália, até o fim do próximo ano. Candidatos de extrema direita estão avançando em todos esses países, ameaçando os governantes atuais, responsabilizados pelos problemas sistêmicos de suas economias. — A Europa desenvolvida está passando por uma versão de falência sofisticada do Estado — disse Mujtaba Rahman, analista especializado em Europa do Eurasia Group, uma consultoria de risco político. — Os governos são incapazes de lidar com as preocupações relacionadas ao custo de vida. Eles não conseguem entregar resultados aos seus eleitores. Na Alemanha, a alta dos preços e o elevado desemprego ajudaram o partido de extrema direita, conhecido por suas iniciais em alemão, AfD, a conquistar mais do que o dobro dos votos do partido de centro-direita do atual chanceler Friedrich Merz. O chanceler alemão, Friedrich Merz, na Conferência de Segurança de Munique — Foto: Thomas Kienzle/AFP Como a AfD parece ter ficado pouco abaixo de uma maioria absoluta, segundo os resultados quase finais, talvez não venha a governar a Saxônia-Anhalt, o estado onde ocorreu a eleição. Os partidos rivais prometeram que não formarão um governo de coalizão com a AfD, cujos líderes já utilizaram slogans nazistas e minimizaram o Holocausto. A AfD é classificada pela inteligência alemã como um grupo extremista "suspeito", em parte porque o partido retrata alemães de origem imigrante como cidadãos de segunda classe. Ainda assim, o resultado pode enfraquecer Merz caso integrantes de seu partido o responsabilizem pela derrota, em um momento em que a liderança da Alemanha na Europa já estava vacilando. A posição de Merz se deteriorou tanto que analistas políticos falam abertamente em sua destituição, um cenário que antes parecia impensável na política alemã. — É uma grande preocupação na Europa — disse Rahman, que anteriormente trabalhou no serviço público da União Europeia. — Uma Alemanha fraca, com um chanceler que está perdendo sustentação e sendo forçado a lidar com problemas internos, é algo ruim e, em última análise, reduzirá a capacidade da Europa de enfrentar seus desafios. As preocupações dos centristas com a França, onde o presidente Emmanuel Macron deixará o cargo, não são menos graves. Marine Le Pen, candidata do principal partido de extrema direita da França, o Reagrupamento Nacional, mantém uma liderança expressiva nas pesquisas de primeiro turno e chegou a terminar em primeiro lugar em recentes simulações de segundo turno. Isso a coloca mais perto do poder do que em qualquer outro momento de seus 14 anos de tentativa de chegar à Presidência. Marine Le Pen, líder do Reagrupamento Nacional, em junho de 2024 — Foto: Nathan Laine/Bloomberg Um governo de extrema direita em Paris, disse Rahman, desestabilizaria a União Europeia de uma maneira que nenhuma outra eleição nacional seria capaz de fazer, dada a dimensão da França, seu arsenal nuclear e seu papel fundador no projeto europeu. Isso também poderia significar o fim do chamado "cordão sanitário", pelo qual partidos tradicionais na França, assim como na Alemanha, recusam-se a entrar em coalizões de governo com a extrema direita. — Nos dois países, a frente antifascista que prevaleceu desde o fim da Segunda Guerra Mundial parece estar à beira do colapso — disse Philippe Marlière, professor de política francesa e europeia na University College London. Na Espanha, analistas disseram que o partido de extrema direita Vox poderia abrir caminho para participar do próximo governo de coalizão, com o atual governo liderado pelos socialistas desgastado por escândalos de corrupção e uma crise migratória. No Reino Unido, o Partido Trabalhista no governo destituiu seu impopular primeiro-ministro, Keir Starmer, em julho, numa tentativa de recuperar terreno diante do rápido crescimento de um partido de extrema direita, o Reform UK. Ainda assim, a ascensão da extrema direita não é inevitável. O sucesso do Reform UK foi bruscamente interrompido por uma série de escândalos financeiros envolvendo seu líder, Nigel Farage. Isso deu ao governo trabalhista, sob um novo primeiro-ministro, Andy Burnham, algum espaço inesperado para respirar. Nigel Farage, líder do partido Reform UK, ´durante reunião da CPAC nos EUA — Foto: Andrew Harrer/Bloomberg Em abril, o líder de extrema direita da Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orbán, foi retirado do poder após 16 anos, vítima da percepção generalizada de que seu governo era corrupto, negligenciava a economia e havia comprado brigas desnecessárias com a União Europeia. A derrota de seu partido, o Fidesz, deu esperança aos políticos tradicionais de que a extrema direita também é vulnerável. O grau em que esses políticos tradicionais "precisam se preocupar" com o sucesso da AfD, disse Timothy Bale, professor de política na Queen Mary University of London, "vai depender de, caso ela chegue ao poder, se comportar de maneira relativamente normal e de ser ou não capaz de governar com competência". Meloni está em uma posição razoável para prolongar esse período quando enfrentar os eleitores no ano que vem. Mas o crescente destaque de um rival ainda mais à sua direita, Roberto Vannacci, levou-a a endurecer suas posições em questões como imigração. Meloni fez duras críticas ao primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, após uma súbita chegada de migrantes do Marrocos a um território espanhol no fim de julho. Primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, sobe ao palco para discursar em comemoração à longevidade recorde de seu governo — Foto: ALBERTO PIZZOLI / AFP Farage corre o risco de ser igualmente ultrapassado pela direita no Reino Unido. Rupert Lowe, um integrante descontente de seu partido, rompeu com a legenda para criar um grupo ainda mais à direita, que está desviando votos de Farage. Diante dessa concorrência e das crescentes dúvidas sobre as finanças do Reform, o professor Bale disse ser difícil imaginar como Farage poderia reunir votos suficientes para formar um governo. Na França, o caminho de Le Pen até o poder é mais plausível. Seus números nas pesquisas são mais que o dobro dos registrados pelo principal candidato centrista, Edouard Philippe, ou pelo principal candidato da extrema esquerda, Jean-Luc Mélenchon. A grande questão na França é saber se Philippe ou qualquer outra pessoa será capaz de reunir apoio suficiente da centro-direita e da esquerda para surgir como o candidato consensual do campo tradicional. Em um segundo turno, disseram analistas, um candidato assim teria chances de derrotar Le Pen. Mas, se o centro político francês continuar fragmentado, como está agora, isso daria a Mélenchon uma chance de chegar ao segundo turno, provavelmente enfrentando Le Pen. Nesse cenário — que o establishment político francês considera um pesadelo — Le Pen seria a favorita absoluta à vitória. Assim como outros líderes de extrema direita na Europa, Le Pen manteve distância do presidente americano, Donald Trump. Mas ela e outros candidatos populistas podem acabar sendo afetados por ele mesmo assim, segundo analistas. Trump continua profundamente impopular na Europa e também vem perdendo rapidamente popularidade nos EUA. A lição que os centristas europeus, acuados, esperam que os eleitores tirem da turbulência americana, disse Rahman, é que "se você experimentar partidos que não fazem parte da corrente política dominante, corre o risco de cometer erros".
Análise: Vitória da extrema direita em eleição regional na Alemanha envia sinal a capitais europeias
Fenômeno eleitoral do Alternativa para a Alemanha (AfD) alimenta expectativa de partidos radicais por todo o continente, de Londres a Paris











