Países emergentes, como o Brasil, são atingido pelo “efeito contágio” das taxas externas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 — Foto: Jungwoo Hong/Unsplash As taxas de juros de médio e longo prazos estão subindo nas principais economias do mundo — exceto China, onde fazem o caminho contrário —, como resultado de endividamento crescente e desequilíbrio fiscal contínuo. A tendência traz desafios para países emergentes, como o Brasil, que além de seus problemas domésticos é atingido pelo “efeito contágio” das taxas externas, em especial dos títulos do Tesouro americano, tidos como livres de risco, a partir das quais se acrescenta o prêmio para empréstimos e aplicações em portfólio. A alta dos juros externos limitam o quanto os juros domésticos podem cair sem provocar saída massiva de capitais e movimentos cambiais desestabilizadores. A causa básica primordial dos juros em ascensão é a inflação, que, após o salto com a pandemia, e acumulação de enormes déficits públicos para combatê-la, não voltou à órbita comportada das metas nos países desenvolvidos. Há 65 meses, por exemplo, ela está acima dos 2% perseguidos pelo Federal Reserve, o banco central americano. Quando tanto na União Europeia quanto nos EUA e no Reino Unido a inflação parecia voltar à normalidade, o mundo econômico e político foi abalroado pela chegada de Donald Trump ao comando da maior economia do mundo. A eclosão da guerra de Trump e Israel contra o Irã desestabilizou os mercados, e a inflação voltou a ganhar fôlego. Nos EUA, está em 3,7% (gastos pessoais de consumo), e na Europa subiu a 3,3% (agosto). A resposta dos bancos centrais foi elevar juros ou interromper sua queda. No primeiro caso, se coloca o Banco Central Europeu, que deve elevar mais uma vez as taxas na reunião da semana que vem. O presidente do Fed, Kevin Warsh, sinalizou que deverá seguir o mesmo caminho se a inflação não cair logo, e os investidores avaliam que, se não já, nos próximos meses as chances são de que os juros voltem a subir. Inflação maior, que eleva juros, não conta toda a história. Os países desenvolvidos acumulam déficits fiscais e dívidas altas e crescentes. A dívida líquida dos Estados Unidos é de 99% do PIB (a bruta é de US$ 40 bilhões, 125% do PIB), a do Japão, 134%, a da França, 108% e a do Reino Unido, 94%. O endividamento, necessário para combater a grande crise financeira, depois a pandemia, não foi danoso antes porque foi feito a taxas de juros muito baixas ou mesmo negativas. Quase duas décadas de baixo custo do dinheiro deram a impressão de que isso era fruto de forças estruturais que se prolongariam no tempo. Tudo indica, porém, que essa era terminou. Deter agora o endividamento é muito mais complicado porque estão em ação necessidades prementes de mais gastos. A demografia amplia os gastos públicos em todos os países desenvolvidos, com mais força no Japão. A política externa de Trump, de cada país por si (e os EUA contra), obrigou a um aumento generalizado dos gastos com defesa, em especial na Europa, que além disso enfrenta uma guerra em seu território, com a invasão da Ucrânia pela Rússia. Não é só o orçamento militar que está crescendo. A transição energética para enfrentar as mudanças climáticas exige investimentos acelerados e urgentes na substituição de combustíveis fósseis em execução. Boa parte das despesas tem de ser financiada com emissão de dívidas dos Estados, que agora passaram a disputar recursos no mercado com as big techs, artífices da revolução tecnológica da Inteligência Artificial. Elas investiram US$ 450 bilhões e querem captar US$ 750 bilhões, a prazos longo e com rating de grau de investimento. “Todo mundo aumenta captações quando os custos estão cada vez mais altos”, constata Eric Robertsen, estrategista-chefe do banco britânico Standard Chartered. “A situação fiscal não melhora em parte alguma, e até que isto mude as taxas longas estão sem âncora.” Os EUA intervieram para sustentar o iene no fim de agosto, mas também para evitar que seus próprios títulos tivessem de pagar mais juros com sua venda pelo Tesouro do Japão, que detém US$ 1 trilhão neles. Os papéis de 10 anos do Japão subiram para 3%, a maior taxa desde 1996. Os papéis de 10 anos do Tesouro dos EUA pagam agora 5,26%, o maior rendimento desde 2007, antes da grande crise financeira. Na Europa, os investidores cobram mais dos títulos da França que dos da Itália, que tem uma dívida maior, pelo seu passado de sistematicamente desrespeitar o teto fiscal da zona do euro e enfrentar eleições em 2027, com chances de vitória da direita anti-UE. No Reino Unido, os juros dos títulos de 30 anos aumentaram para 5,9%, os maiores desde os anos 90, e os de 10 anos, para 5,25%, os mais altos em 18 anos. Há vários fios desencapados na economia global que aumentam riscos de choques. Uma elevação rápida dos juros no Japão (de 1% hoje) reduz a rentabilidade do mais usado “carry trade” na praça, que tem o Brasil como um dos destinos importantes de aplicação. Usados como proteção para aplicações mais arriscadas em renda variável, com grande peso no mercado dos EUA, papéis de renda fixa, como os bônus soberanos, perdem essa função com inflação instável e juros em alta. Juros altos em algum momento podem desfazer a euforia das bolsas americanas e forçar uma reprecificação de ativos que pode ser bastante turbulenta. Em um mundo perigoso, o Brasil deveria reforçar suas defesas e fortalecer o seu flanco mais vulnerável: a situação fiscal.