Brasil não está sozinho. Vários países têm visto fortes altas nas taxas de juros de suas captações, especialmente nos seus títulos de longo prazo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Ostentando um dos maiores déficits nominais do mundo e um presidente que durante recente sabatina disse “a mim não preocupa a dívida pública”, qualquer brasileiro consciente deveria estar bem preocupado com o futuro das contas públicas. Mas o Brasil não está sozinho. Vários países têm visto fortes altas nas taxas de juros de suas captações, especialmente nos seus títulos de longo prazo. Depois de mais de uma década com juros perto de zero, essas recentes altas têm surpreendido e colocado pressão sobre esses governos, levando alguns analistas a falar de uma crise fiscal global. Segundo o Boletim Focus, o déficit nominal que não preocupa nosso presidente deve fechar o ano em 8,85% do PIB e foi de 9,9% nos últimos 12 meses. Nisso somos quase campeões — dentro do G20, segundo dados do FMI, somente a China tem um déficit maior. Mas a preocupação está com os números dos países ricos: o déficit dos EUA está em 7,5%, contra uma média de 4,6% do PIB entre 2014 e 2019; no Reino Unido, 5,4% versus 3,4%; na França, 5,1% versus 3,3%; e talvez a maior surpresa, a Alemanha, com 2,7% de déficit, depois de ter sustentado superávit nominal de 1,3% do PIB entre 2014-2019. O que virou a chave foi a pandemia. Devido ao pânico que levou ao abrupto fechamento de boa parte da economia global, déficits fiscais explodiram. A reabertura econômica e o surto inflacionário ajudaram temporariamente a dinâmica fiscal — vários países surpreenderam e tiveram queda na relação dívida/PIB com a alta da inflação. Mas, a despeito da recuperação econômica, poucos países ajustaram seus gastos para os patamares pré-pandemia. As perspectivas futuras são sombrias. Todos os países enfrentam um envelhecimento acelerado das suas populações, pressionando contas previdenciárias e gastos com saúde. O envelhecimento também cobra seu preço com a queda do crescimento econômico. Países da zona do euro já trabalham com uma carga tributária altíssima de 46,9% do PIB, dificultando qualquer ajuste pelo lado da receita. Isso não é verdade sobre os EUA, onde a carga está em 30,4% do PIB, mas não há perspectiva de algum ajuste fiscal, dada a polarização política atual. Os EUA recentemente passaram por dois marcos simbólicos: seu endividamento total rompeu a cifra de US$ 40 trilhões, equivalente a 100% do PIB. O crescimento do estoque de endividamento está em US$ 2,3 trilhões ao ano, e, segundo as projeções do CBO (departamento do Congresso equivalente ao nosso IFI), deve chegar a 120% do PIB em 2036. Nada disso é novidade. Por que o recente sentimento de crise? É por causa da alta de juros na parte longa da curva desses países. No caso do Reino Unido, por exemplo, você tem de voltar a 1998 para ver o mesmo nível de juros. No caso dos EUA, um dos fatores impactando o mercado são os crescentes gastos com a infraestrutura relacionada à inteligência artificial. As cinco maiores hyperscalers investiram US$ 261 bilhões em 2024, US$ 750 bilhões neste ano e devem gastar ao redor de US$ 1 trilhão no ano que vem. Enquanto boa parte desses investimentos está sendo feita com o caixa livre dessas empresas, há um crescente uso de endividamento, e elas devem emitir algo perto de US$ 400 bilhões de títulos no ano que vem. É verdade que toda essa atividade ainda é uma fração pequena da emissão gigantesca do Tesouro americano, mas o preço é determinado na margem, e muitas dessas emissões estão sendo estruturadas com prazos maiores, concorrendo com os títulos mais longos do Tesouro. Há um efeito correlato. Um crescimento econômico mais robusto aumenta a taxa de juros neutra da economia. Não por acaso, os patamares de juros nos EUA estão próximos daqueles dos anos 90, quando houve o boom da internet. Naquele episódio, o crescimento aumentou fortemente a receita tributária, e os déficits caíram. Isso ainda não ocorreu agora, mas há alguns otimistas esperando que algo igual aconteça nos próximos anos. A ver. Falar em “crise” é um exagero. O que está ocorrendo é uma precificação do patamar de juros necessário para gerar a oferta de poupança demandada. Mas isso não deve criar complacência. Enquanto o caso americano é único, dado que pode haver uma solução via crescimento acelerado ou aumento da relativamente baixa carga tributária, muitos outros países não têm essas duas possibilidades. Infelizmente, temos que incluir o Brasil nesse grupo. Já temos a maior carga tributária entre países emergentes não europeus. Nosso modelo de crescimento baseado no endividamento está se esgotando em uma onda de inadimplência. Nossa crise demográfica já está em curso. E, a despeito da não preocupação do nosso presidente, teremos de concorrer para uma oferta de poupança global cada vez menor e mais cara.