0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Estudo da CNC aponta que as famílias estão contraindo novas dívidas com condições de pagamento melhores para quitar as antigas — Foto: Banco de imagens O aumento do endividamento é um problema concreto da economia brasileira. E há uma razão para isso: os juros permanecem muito altos há muito tempo — e os juros bancários são ainda mais elevados. Apesar da melhora da renda e do desemprego no menor nível da história, o endividamento das famílias se tornou um nó para a economia. Os dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mostram o quanto essa questão é dramática especialmente para as famílias com renda mensal de até três salários mínimos — R$ 4.863 — entre as quais o percentual de endividamento chegou a 84,9% no mês passado. É a maior proporção para essa faixa de renda desde o início do levantamento, em 2023, segundo reportagem publicada pelo Valor. Na média geral, o endividamento alcança 82% das famílias. Começa nesta segunda-feira o Desenrola dos Adimplentes. Lançado há um mês, o programa é voltado para trabalhadores informais com dívidas de até R$ 15 mil, em dia ou com atrasos inferiores a 90 dias. Até agora, porém, não despertou grande interesse dos bancos. Na avaliação de analistas de mercado, a mudança ajuda, mas não resolve necessariamente o problema da baixa adesão dos bancos. O argumento é que o Desenrola voltado aos inadimplentes tinha um atrativo claro para as instituições: a possibilidade de limpar seus balanços. No programa destinado aos adimplentes, esse ganho não existe. Não há, para os bancos, um benefício imediato e visível. Para esses especialistas, uma estratégia potencialmente mais efetiva para estimular a adesão seria uma participação mais forte do Banco do Brasil e da Caixa. A entrada agressiva dos bancos públicos poderia pressionar as instituições privadas a participar, pelo receio de perder clientes para uma oferta de crédito com condições mais vantajosas. A diferença é relevante: os juros médios dessas operações de crédito têm taxa média 7% ao mês, enquanto o programa estabelece um limite de 1,99%. Ainda assim, segundo essas fontes, a adesão do setor bancário dificilmente alcançará a dimensão registrada no Desenrola original. Há quem argumente que o governo não deveria lançar programas desse tipo diante do risco de uso eleitoral. É fato que medidas de redução do custo do crédito podem ter impacto político. Por outro lado, um governo em exercício não pode ignorar um problema dessa dimensão. O Desenrola não elimina as dívidas das famílias, já que nem todos conseguem quitar integralmente suas dívidas. Geralmente, trata-se da substituição de uma dívida cara por outra mais barata e, portanto, mais pagável. A situação é complexa. De um lado, o governo reduz o custo do endividamento; de outro, ao baratear o crédito por meio de programas específicos, pode reduzir a força da política monetária. Ao mesmo tempo, não parece possível simplesmente ficar de braços cruzados diante das dificuldades enfrentadas pelas famílias. Do ponto de vista macroeconômico, a política pode ter erros. Do ponto de vista microeconômico, porém, a alternativa é limitada: o governo precisa oferecer mecanismos que permitam articular uma negociação entre bancos e devedores e reduzir o custo de uma dívida que, para muitas famílias, se tornou difícil de pagar.