A parcela de países de renda baixa e média enfrentando crises de financiamento, ou em alto risco de isso acontecer, subiu de 26% em 2015 para 50% em 2026, segundo o Banco Mundial.PUBLICIDADENo terceiro capítulo do recém-divulgado relatório "Prospectos Econômicos Globais" do Banco Mundial, o tema é a alta do endividamento público no mundo e os efeitos nas finanças dos países emergentes e em desenvolvimento - um problema que o Brasil compartilha com muitos dos seus pares.No conjunto dos países emergentes e em desenvolvimento, a dívida pública saiu de 40% do PIB em 2010 para mais de 70%, puxada pelas políticas fiscais domésticas e por choques externos. O relatório aponta que elevadas dívidas públicas não só consomem recursos do governo que poderiam ir para investimentos, como elevam o custo de capital para o setor privado.O documento nota que a recente alta dos juros nos países ricos coloca mais pressão nos juros dos emergentes, agravando o problema do endividamento público.O estudo indica que o nível inicial da dívida influencia em quanto um aumento do endividamento eleva a taxa de juros paga. Assim, quando a relação dívida/PIB está em torno de 45%, um aumento de um ponto porcentual (pp) do PIB dessa relação está associado a uma alta do spread soberano - o diferencial entre um título externo do governo e o papel equivalente do Tesouro americano - de 0,08pp. Se a relação/dívida PIB for de 80%, a elevação do spread vai para 0,26pp.PublicidadeNo caso da dívida doméstica, o aumento de 1pp na relação dívida/PIB aumenta o juro em 0,02pp quando a dívida/PIB inicial é de 45%; e em 0,08pp quando é de 80% do PIB.Entre 2010 e 2024, a dívida mediana dos países emergentes e em desenvolvimento aumentou em 20pp do PIB, o que - de acordo com as estimativas mencionadas anteriormente - significa uma elevação de 1,14pp no spread soberano e de 0,31pp no custo da dívida doméstica.Já a alta da relação dívida/PIB dos países ricos entre 2010 e 2024 levou a uma elevação de 0,35pp nos spread soberano dos emergentes, e de 0,09pp no juro da dívida doméstica. Juntando os efeitos da alta da relação dívida/PIB dos ricos e emergentes, os efeitos nesses últimos foram de elevação de 1,49 no spread soberano e de 0,4pp no juro da dívida interna.O relatório aponta ainda que, tanto no caso do spread soberano quanto da dívida doméstica, a sensibilidade a aumentos da relação dívida/PIB é maior no caso de emergentes com história de defaults, ratings mais baixos, inflação elevada, mais dívida de curto prazo e pior governança.Em um box do relatório, também se discutem os custos da "dívida oculta" nos países emergentes - isto é, passivos não declarados que, quando são descobertos, provocam choques de credibilidade e aumentos súbitos nos prêmios de risco.PublicidadeA receita do Banco Mundial para emergentes às voltas com relação dívida-PIB grande e crescente - como o Brasil - é o tradicional ajuste fiscal, com foco no aumento de receitas e melhora na qualidade do gasto público. O estudo recomenda ainda arcabouços fiscais com horizonte de médio prazo, criação de conselhos fiscais independentes e acumulação de reservas internacionais.Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/6/2026, sexta-feira.