Relatório aponta que o Brasil está entre os países da região onde o avanço do endividamento das famílias foi mais expressivo A qualidade dos ativos dos bancos latino-americanos deve continuar sob pressão diante de condições macroeconômicas mais fracas, inflação persistente e mudanças na dinâmica do crédito, segundo relatório divulgado nesta terça-feira (28) pela Moody's Ratings. No Brasil, a agência destaca que famílias e empresas enfrentam um período prolongado de juros elevados e bancos mais seletivos, cenário que pressiona o refinanciamento de dívidas e aumenta os riscos de inadimplência, especialmente entre pessoas físicas e pequenas e médias empresas (PMEs). Segundo a Moody's, o aumento do endividamento das famílias brasileiras reflete a expansão de novos produtos de crédito e o maior apetite por risco dos bancos digitais. Ao mesmo tempo, “riscos inflacionários e fiscais continuam a pressionar a qualidade futura dos ativos”. O relatório aponta que o Brasil está entre os países da região onde o avanço do endividamento das famílias foi mais expressivo. A migração para linhas de crédito mais caras e sem garantia, somada ao novo crédito consignado privado, elevou a relação entre serviço da dívida e renda para um recorde de 28,3% em janeiro de 2026, ante 25,7% dois anos antes, apesar do crescimento da renda real. Apesar disso, a Moody's pondera que os indicadores oficiais de inadimplência superestimam a deterioração do crédito às pessoas físicas no Brasil. Isso porque a série passou a incorporar “exposições estressadas de famílias rurais” e os efeitos das mudanças contábeis introduzidas pela Resolução 4.966, que mudou as regras de reporte contábil dos bancos. Ajustados esses fatores, o índice de empréstimos inadimplentes (NPLs) das pessoas físicas seria de 4,4%, abaixo dos 5,6% reportados. Além disso, a agência afirma que o crédito vem crescendo principalmente entre tomadores de maior renda, o que tende a aumentar a resiliência dos grandes bancos em um cenário econômico mais adverso. Porém, a agência continua vendo pressão na qualidade dos ativos. “Olhando para frente, o crescimento mais lento da renda real em meio ao maior endividamento das famílias, particularmente decorrente do crédito sem garantia, continuará pressionando a qualidade dos ativos no Brasil.” No segmento corporativo, a agência vê um quadro mais favorável para grandes empresas brasileiras, que passaram a recorrer com maior intensidade ao mercado doméstico de capitais diante do alto custo do crédito bancário. Esse movimento reduziu a concentração das carteiras dos bancos e limitou o impacto de grandes inadimplências recentes. Entre dezembro de 2020 e maio de 2026, o mercado brasileiro de dívida corporativa cresceu de R$ 789 bilhões para R$ 2,59 trilhões, elevando sua participação no financiamento das empresas para 50% do total, ante 31% no mesmo período. Já as PMEs seguem mais vulneráveis. Os créditos problemáticos das PMEs brasileiras subiram para 5,8% em maio de 2026, ante 4,1% no fim de 2024. “Embora isso tenha sido parcialmente decorrente de novas regras contábeis, o forte aumento levou os bancos a adotarem uma postura mais conservadora na originação de novos empréstimos e a dependerem cada vez mais das garantias governamentais fornecidas pelo Fundo Garantidor de Investimentos (FGI) e pelo Fundo de Garantia de Operações (FGO).” A agência também chama atenção para o agronegócio brasileiro, que enfrenta custos mais elevados de fertilizantes, juros altos e maior risco climático associado ao fenômeno El Niño. “Nos últimos 18 meses, uma combinação de margens menores e maior alavancagem contribuiu para um número crescente de recuperações judiciais e extrajudiciais. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, bancos com as maiores exposições ao setor agrícola, foram desproporcionalmente afetados e, juntos, respondem por 60% do crédito agrícola total.” Segundo o relatório, o agronegócio deve continuar pressionado à frente. “Olhando para frente, esperamos que o setor continue enfrentando elevado risco de ativos e dependa de programas governamentais de renegociação e financiamento para normalizar os níveis de inadimplência.” Sede da agência de classificação de risco Moody's em Nova York — Foto: Jeenah Moon/Bloomberg