Confederação Nacional do Comércio calcula que o mercado ilegal tenha movimentado R$ 179,2 bilhões em 2025 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Verdadeiro ou falso? Conveniência facilita compra de produto ilegal — Foto: Reprodução Alguns compram no camelô. Outros, desembolsam mais de R$ 8 mil numa bolsa falsificada. O consumo de produtos ilegais no Brasil atravessa as classes sociais e, na contramão do senso comum, tem maior propensão entre a população de maior renda. É o que revela o “1º Levantamento Nacional sobre a Demanda de Bens e Serviços Ilícitos no Brasil”, realizado pela Escola de Segurança Multidimensional da Universidade de São Paulo (ESEM-USP), em parceria com a Ipsos. O levantamento ouviu três mil pessoas no ano passado para analisar cinco grandes mercados de produtos ilegais — combustíveis, bebidas alcoólicas, eletrônicos, vestuário e tabaco e nicotina. Nos primeiros quatro, a propensão à compra varia de 20% (combustíveis e eletrônicos) a 25% no vestuário. Nos cigarros eletrônicos, a parcela é menor, de 12%. Os percentuais refletem a disposição para a aquisição, e não necessariamente o consumo efetivo. Para isso, o estudo considerou respostas a perguntas sobre situações hipotéticas, como a possibilidade de adquirir um item ilegal se fosse mais barato, indicado por um parente ou tivesse qualidade semelhante. Em todos os mercados, com exceção das bebidas alcoólicas, é da classe A que vem o maior potencial de aquisição ilegal. Nos eletrônicos, por exemplo, a possibilidade é de 27%, em comparação com 20% na classe C e 14% nas D e E. — Quem mais consome é também quem mais consome produtos ilegais — diz Leandro Piquet, coautor do estudo e professor do Instituto de Relações Internacionais e coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da USP. — O que é surpreendente é que, geralmente, esse segmento está associado a maior escolaridade e maior conhecimento das regras, mas isso não se traduz em diferença na propensão e no comportamento em direção a mercadorias ilegais. Entre esse público, originais e falsificados podem conviver no mesmo guarda-roupa, como conta Suzane Strehlau, professora da ESPM e coautora do estudo “Prontidão ao Consumo de Marcas de Luxo Falsificadas”. Ela lembra o caso de uma mulher que combinava terninho Issey Miyake e sapatos Ferragamo com uma bolsa falsificada: — Mas, com ela usando esse conjunto, ninguém achava que a bolsa fosse fake. A escolha pode estar relacionada ao tipo de risco associado a cada item. — Na bolsa, vista como acessório para uma temporada, o risco era basicamente social, de passar vergonha se alguém reconhecer. Já o sapato falsificado tem risco funcional, de machucar o pé — diz Suzane. O risco social pode ter solução. Alguns optam por contar que a peça é falsificada, mas com o cuidado de associá-la a uma experiência restrita a poucos. Ainda assim, falsificados nem sempre são exatamente baratos. Uma réplica da bolsa Hermès Birkin pode custar R$ 8.400, parcelados em até 12 vezes, como em uma loja on-line no Google. Suzane diz que também entram em jogo o desejo de pertencimento e de reconhecimento social, associado ao acesso a marcas e símbolos de status. A maneira como o brasileiro encara leis, de forma geral, também se reflete no consumo ilegal, revela o levantamento da USP. Quanto maior a tolerância à transgressão, maior a propensão a essas compras. E a disposição para transgredir varia conforme o gênero. Segundo a pesquisa, 27% dos homens têm perfil transgressor, em comparação com 22% das mulheres. Já entre os legalistas, elas são 24% e eles, 20%. — Estudos mostram que mulheres policiais são muito menos corruptas, significativamente mais íntegras e respeitam mais os procedimentos — diz Piquet. — Isso se traduz também no restante da população feminina. Indícios Em outra frente, o levantamento apurou indícios de aquisições ilegais em diferentes mercados. Nos combustíveis, por exemplo, 13% dos entrevistados disseram abastecer sempre em postos sem bandeira, e outros 15% às vezes recorrem à prática. No vestuário e nos eletrônicos, 21% das transações ocorreram em canais com maior risco de ilegalidade, como ambulantes, pequenos sites ou desconhecidos e redes sociais. Nas bebidas alcoólicas, 12% disseram ter recorrido a canais informais, com a ressalva de que a pesquisa foi feita antes da onda de intoxicação por metanol, que pode reduzir o número. Nos cigarros tradicionais, o indicador é mais direto: marcas ilegais representam 11% do mercado. O projeto Mercado Ilegal é uma realização dos jornais O Globo, Valor e Extra e da rádio CBN, com patrocínio de Philip Morris Brasil, Instituto Combustível Legal, Mercado Livre, BAT Brasil e apoio da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), da Associação Brasileira de Bebidas Destiladas (ABBD) e da Aegea.